Deve ou não um telejornal mostrar actos de violência? A resposta a esta questão é fundamental, e o que sobre ela decidirmos define uma ética. Há uma coerência de base exigível a qualquer sistema valorativo ou legal – valores ou leis arbitrárias representam o terror, a mais tenebrosa e incontrolável das imprevisibilidades. Estaline e Hitler usaram a prerrogativa da excepção contínua para manterem toda a gente – dos seus íntimos à população anónima – imóvel, obediente, submissa, incapaz de reacção, em permanente estado de aterrorização.
Alguns responderão um «não» curto e imediato, argumentando que violência desencadeia violência e que a exibição da violência tem o defeito suplementar de excitar o voyeurismo. Outros responderão um «sim» igualmente célere, enfatizando a necessidade de alertar os cidadãos, de os tornar mais atentos, precavidos e, se possível, interventivos, reduzindo, deste modo, a probabilidade de futuros actos violentos.
O argumento pacifista de que a visão da violência gera um acréscimo de violência depara-se com uma dificuldade essencial e intransponível: a violência que inunda a cultura – popular e erudita – do século XXI. Da mais permissiva televisão ao mais exigente cinema, o culto da violência é uma constante – para permanecermos no registo da imagem e, em particular, da imagem em movimento, mais irresistível e, por conseguinte, mais alienante do que as imagens estáticas ou as imagens mentais, desenhadas a partir da leitura ou da audição. Desde há muitos anos tenho vindo a anotar e a registar que a preocupação dos adultos com a protecção das crianças face ao mundo da pornografia é muito mais forte do que a de as proteger do universo da violência. Como se a violência fosse um dado adquirido – e até como se fosse útil às crianças o contacto com esse mundo, para as tornar mais resistentes e competitivas. A competição, não o esqueçamos, é o pilar universal da cultura contemporânea: do auto-denominado Estado Islâmico até ao mais aprazível dos estados nórdicos, a ideia de «superação» subjaz a tudo. Quando os pais dizem que só querem que os filhos sejam “mais” qualquer coisa do que eles próprios (felizes, ricos, inteligentes, etc) estão a criar neles uma ansiedade competitiva profunda: ninguém vale pelo que é, todos somos chamados a ser «mais» qualquer coisa do que os progenitores ou o vizinho do lado. A cultura da competição é uma cultura de violência.
O argumento belicista de que a visão da violência forma uma camada de protecção em relação a essa violência também não colhe: décadas de estudos têm provado que educação é exemplo, ou seja, que a violência é, de facto, contagiosa. Tudo está impregnado de violência, na nossa cultura de matriz cristã e católica, cujo símbolo icónico é um homem pregado numa cruz. Que muitos pais católicos coloquem esta imagem sobre o berço dos filhos recém-nascidos, eis uma forma de violência que sempre me incomodou. De resto, todas as religiões são férteis em fábulas de violência – porque o medo estimula a dependência, o acatamento e a crença. Acresce que a publicitação da violência provoca directamente o seu crescimento: o culto dos mártires, como o dos heróis, é auto-reprodutivo: cada mártir ou herói, sozinho, se bem propagandeado, gera centenas de outros.
Não havendo uma forma ideal de lidar com este tema, creio que o mais sensato será adoptar um princípio misto, mas de contornos firmes e claros:os telejornais deverão mostrar os actos violentos, porque não os mostrar seria restringir o direito democrático à informação total. Os cidadãos têm direito a conhecer a fundo as questões sociais do mundo em que vivem, de modo a poderem tomar decisões informadas. Mas esses filmes nunca poderão expor o rosto das vítimas nem dos verdugos (porque a publicitação dos verdugos também os multiplica). Actos de tortura e extrema violência – por exemplo, as decapitações do ISIS, os enforcamentos no Irão ou a morte na cadeira eléctrica nos Estados Unidos – não devem ser mostrados ( mais uma vez, por uma questão de protecção da dignidade individual e também para não incrementar pulsões assassinas, mais comuns do que se imagina) – mas devem ser narrados. Já tenho escrito várias vezes que deveria criar-se um consenso nos media quanto à não divulgação pública do nome de autores de massacres – para não lhes conceder essa fama póstuma que os engrandece aos olhos de outros.
Virarmos a cabeça à violência ou apontarmos o dedo a quem a denuncia não me parece a forma correcta de lidar com este problema central do nosso tempo.
Acresce que há formas de violência psicológica praticadas diariamente pela comunicação social – a difamação através da insinuação, por exemplo – sobre as quais ninguém parece disposto a pensar seriamente: atira-se, na melhor das hipóteses, um “alegadamente” sobre o carácter de alguém cuja força e influência se pretende diminuir, e chama-se-lhe tudo, de ladrão a abusador. Com esta forma de violência as pessoas facilmente pactuam, caso a caso, ao sabor dos seus amores e ódios pessoais ou ideológicos, sem quererem entender que a questão de fundo é grave e afecta-nos a todos: trata-se do direito de cada um (vedeta ou não, político ou pastor) ao bom nome, à reserva da vida privada, à auto-determinação individual, à opinião e à liberdade. Seres moralmente moídos tornam-se presas dos poderes – e os poderes, sejam eles o 1º, o 4º ou o 5º, sabem-no bem.

Inês, subscrevo sem a menor reserva isto que escreves: 83901.html
«Deveria criar-se um consenso nos media quanto à não divulgação pública do nome de autores de massacres – para não lhes conceder essa fama póstuma que os engrandece aos olhos de outros.»
Escrevi aqui algo na mesma linha que aproveito para recordar:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/32
Concordo em absoluto, também eu, com esse teu texto de 2011 que me tinha escapado, Pedro. Claro que a omissão dos nomes teria de ser internacional, de outra maneira não funciona. Mas infelizmente o espírito corporativo raramente funciona para aquilo em que seria realmente importante, isto é, a defesa de princípios éticos.
Esta sua reflexão oferece-nos aspectos importantes sobre as diferentes versões de violência.
Os estudos provam que nos Estados onde foi introduzida a pena de morte o crime e a violência em nada diminuíram, pelo contrário. Portanto, parece-me que a abordagem sobre o prisma da supressão da imagem ou do facto e/ou da mera penalização do acto, social e juridicamente, tem falhado e continuará a falhar.
Contudo deve ser entendida a violência no seu exacto contexto. A violência da Cruz não é um acto de terror nem uma demonstração gratuita do tema que aborda.
É um sinal que nos diz que a vida deve ser vivida custe o que custar e não por qualquer preço (o preço é a medida que se estabelece para cada homem e mulher segundo o padrão de sucesso que também aborda neste tema. No fundo somos e temos vindo a ser uma sociedade de vendidos, cujo padrão de comodidade e importância se mede pela dimensão do níquel, ou da prata ou do ouro ou de um papelito qualquer, incluindo os certificados que se emitem), em particular quando esse custe o que custar tem como fundamento a Verdade e a Justiça.
Concluindo este aspecto: tal sinal revela que a violência nem sempre alcança seus propósitos: a propagação do medo, do terror, da coacção e do constrangimento.
Por um outro lado, advoga a Inês a «não divulgação pública do nome de autores de massacres – para não lhes conceder essa fama póstuma que os engrandece aos olhos de outros.», mas cita Estaline e Hitler. Em que ficamos?
Não podemos fingir viver numa sociedade de puros, varrendo a violência para debaixo do tapete, e deixar de através dela encontrar as raízes que a fazem despoletar; estas, sim, também merecedoras de análise e de uma intervenção oportuna e fundamentada.
A questão da violência psicológica, a que se insinua, é o quadro das sociedades catonianas que atravessaram a história; e esta, a violência psicológica, é uma simbiose do lápis azul com a língua afiada.
A reserva da vida privada não pode circunscrever-se somente ao direito da integridade psicológica. Hoje não se faz uma pequena e modesta transacção sem que o big brother do estado saiba tudo, pois tem organismos sentinelas, também estes constituídos por pequenos Catões, que revolvem o direito à privacidade.
A violência que surgirá no futuro será precisamente contra estas amarras estatais em que uma minoria entende poder aceder à reserva de todos. Como somos uma sociedade de frustrados, desejamos ultrapassar este conflito privado através da subjugação de outros a uma obediência efémera. A raiz da violência, portanto, está no poder.
A Cruz é o símbolo da renúncia da posse e do poder. É esta a matriz de quem pretende nascer do Alto ou de Novo.
“Estaline e Hitler usaram a prerrogativa da excepção contínua para manterem toda a gente – dos seus íntimos à população anónima – imóvel, obediente, submissa, incapaz de reacção, em permanente estado de aterrorização.”
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agora percebo aonde é que a União Europeia se foi inspirar…
Quanto ao culto da violência ele é ontológico, embora a violência e a competição, assim como a superação pela e na violência, tenham ganho um suporte moral com Darwin – afinal só os mais fortes ganham ( Darwin nunca nos disse não serem estes os mais aptos).
Posteriormente veio toda uma filosofia de vida e do Sucesso que previligia um autocentrismo que encara todo o tipo de compaixão como sinal de fraqueza e inadaptação, motivo de motejo, sendo isto verdade, sobretudo, no mundo econômico – uma luta selvática , um lago de tubarões – e bem sabemos que nos dias que correm a economia é tudo.
Quanto à publicidade da violência, pela transmissão de imagens, deveria a sua transmissão só ser possível a determinadas horas e haver um qualquer código deontológico que não fizesse da violência todo o conteúdo noticioso. Pois decerto existem outras notícias igualmente verdadeiras, mas suplamentarmente motivadoras – veja-se o campo das ciências, etc.
Quanto ao crucificado até nem é dos piores. Zeus matou o pai, e Urano comia os filhos. Além do mais com o judaísmo, acabaram os sacrifícios humanos, bem visíveis ainda no Indostão.
Quanto à submissão, pela violência, tomaria atenção àquela associada ao medo de perder o emprego. Uma violência bem mais subtil, típica das sociedades ditas modernas – subtileza com que exerce a coação, a violência – que geram frustrações apenas mitigadas de duas formas – ver que o ” vizinho do lado está pior, coitadinho “, ou ligar a tv , e através da “indústria do escapismo”
PS: é típica da modernidade exercer a violência usando métodos “não violentos”
Obrigado