Blogue da semana


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Acontecimentos é o título do excelentíssimo blogue que o poeta e filósofo brasileiro Antonio Cicero mantém há dez anos. Nele encontramos sobretudo poesia (a dele e a de muitos outros grandes poetas) e reflexões sobre poesia: trata-se de um blogue dedicado ao que realmente acontece para lá da superfície, do acontecimento contrário à trovoada de irrelevâncias em que tantas vezes nos deixamos submergir. Vale a pena procurar os textos das crónicas que escreveu para a Folha de São Paulo (por exemplo, nas entradas “barbárie”, “civilização” e “direitos humanos”), desmontando, com lucidez, saber e arte, a mitologia contemporânea do relativismo cultural. Encontram-se também textos e entrevistas de outros autores (como o seu muito amigo Caetano Veloso) sobre estes temas. Antonio Cicero é, além de um poeta de altíssima qualidade, um dos filósofos mais estimulantes e argutos do nosso tempo. Como bónus, o poeta a dizer um dos seus mais belos poemas, aqui .      

REGRAS DA CASA


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Cansada de perder o meu precioso tempo a responder a comentários de “Anónimos”, detestando a prática da peroração sob camuflagem, seja essa opinião positiva ou negativa, informo que, de hoje em diante, não publicarei qualquer comentário anónimo aos meus posts. A democracia é linda, sobretudo porque não usa burka.  

Anotação


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Em Portugal, dizer bem de A é sistematicamente interpretado como dizer mal de B. Uma rosa é uma rosa é uma rosa; não tem de ser um anti-cravo nem uma contra-estrelícia. A vida pode viver-se de absoluto em absoluto; comparar é diminuir e apoucar.

Convite


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Tenho uma enorme alegria e orgulho em publicar, na Sibila Publicações, a editora que recentemente criei, este livro de reportagens de Maria Antónia Palla, pioneira do jornalismo feito por mulheres, cujo trabalho me serviu de inspiração e referência, quando decidi estudar Ciências da Comunicação e ser jornalista. Considerem-se convidados para a festa de lançamento, no próximo dia 5, às 18.30, na livraria Ferin, em Lisboa. Acresce que ouvir Laborinho Lúcio é sempre um privilégio.    

De como um prémio pode ser uma forma de assédio moral


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Atribuir a Maria Teresa Horta, em 2017, o quarto lugar ex-aequo do Prémio Oceanos, que é o mais importante prémio literário para literatura de língua portuguesa ( à excepção do Prémio Camões, claro – mas esse é um prémio de consagração pela totalidade da obra, e aliás é também escandaloso que Maria Teresa Horta ainda não o tenha recebido) representa uma forma de assédio moral, uma humilhação que a obra da autora de Minha Senhora de Mim e As Luzes de Leonor de forma alguma merece, e a que as regras mínimas da mais elementar educação deviam tê-la poupado. Não achavam Anunciações – a obra em causa neste prémio – digna do Prémio? Não a premiassem, e assumissem essa decisão. Dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino é que não é coisa que se faça a uma autora que, desde 1960, quando publicou a colectânea de poemas Espelho Inicial, até hoje, construiu uma obra ímpar, com mais de 40 livros publicados. 

Maria Teresa Horta é uma voz absolutamente singular, original e renovadora na poesia contemporânea de língua portuguesa; isso mesmo tem sido realçado por alguns dos mais notáveis poetas e críticos – como Ana Luísa Amaral, que se estreou na poesia em 1990 com Minha Senhora de Quê, glosando e dialogando com Minha Senhora de Mim (1967).  Escreve sobre o desejo das mulheres pelo corpo dos homens com um desassombro, uma exactidão e uma liberdade que abala todos os preconceitos e incomoda visivelmente muitas e mui solenes eminências pardas. Tem talento e tem leitores, dois pecados que só se admitem a um escritor do sexo feminino se aparecerem separados, com fumos de humildade e contrição, para exorcizar o poder que unidos representam. 

Os prémios podem ajudar a divulgação e a tradução dos livros, é certo, mas, em última análise, são fenómenos temporais e temporários; nenhum conjunto de jurados tem o poder de fazer entrar na posteridade, ou excluir dela, nenhum autor. Tolstoi perdeu o primeiro Prémio Nobel da Literatura, em 1901, para o escritor francês Sully Prudhomme, que ninguém hoje lê nem se sente tentado a publicar. Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras e Clarice Lispector nunca o receberam, e continuam a deslumbrar gerações sucessivas de leitores. Para quem se sente permanente e infinitamente grato à obra de Maria Teresa Horta, como é o meu caso, é indiferente que os seus livros cintilantes como relâmpagos sejam ou não reconhecidos por este ou por aquele grupo de inteligências críticas suas contemporâneas; mas que, ao cabo de 57 anos de um trajecto literário de raro pioneirismo e inovação se lhe ofereça um prémio de consolação e a meias com outro escritor, é simplesmente ofensivo.       

Dir-me-ão que o Prémio Oceanos contempla livros e não carreiras. Fraca e frequente desculpa, nesta nossa época de imorais relativismos, em que a literatura se tornou uma passarela de moda onde só brilha – e brevemente – a carne fresca. Mas mesmo assim, pergunto: leram Anunciações? A sério? 

Depois de arrumada a cozinha do Panteão


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Não alinho em morais públicas que não sirvam toda a gente de igual forma; acresce que, certamente para minorar outros défices, tenho uma memória maior do que a de uma dúzia de robots Sofia, até porque pude desenvolvê-la, já que, por sorte, não nasci na Arábia Saudita. Assim, estranhei os brados e a indignação geral (a que prestamente se juntou o senhor primeiro-Ministro) quanto ao fruste jantar no Panteão Nacional, porque ainda me recordava bem de ter visto em vários canais televisivos hordas de crianças aos pulos, à meia-noite, no referido Panteão, então transformado em laboratório de feitiçarias, por mor do lançamento de um qualquer volume da saga Harry Potter, nos idos de 2002. Soube, depois, que naquele sítio se realizaram entretanto diversos repastos, um dos quais com o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa e da EGEAC, empresa municipal de cultura, num período em que o agora indignado primeiro-Ministro presidia aos destinos municipais e em que a EGEAC era presidida pelo actual secretário de Estado da Cultura. 

Em muitos países europeus (não sei mesmo se em todos), o aluguer de monumentos para banquetes, festas de empresas, filmagens, casamentos ou baptizados, é prática comum e devidamente regulamentada. Evidentemente que as regulamentações deixam sempre espaço à interpretação individual e à decisão dos responsáveis pelos edifícios patrimoniais. Por exemplo: o convento de Cristo, em Tomar, tem uma tabela de preços para filmagens (e a fita mediática que se fez, há meses, por causa dos danos, afinal inexistentes, que ali teria causado um filme de Terry Gilliam, foi também épica). Mas parece-me óbvio que a proposta de realização de um filme pornográfico naquele cenário seja rejeitada. Ou de um manifesto partidário. No Panteão, o problema prender-se-ia, segundo os indignados, com o facto de se tratar de um monumento funerário: jantar junto dos Grandes Mortos, ao que parece, é ofendê-los. Sucede que nos Jerónimos também estão sepultadas Grandes Figuras. E, a bem dizer, em toda a cidade, por toda a parte, caminhamos sobre túmulos – de mortos tão antigos e anónimos que, felizmente, já não contam para a Honra Nacional, senão morríamos todos à fome. 

Há quem condene, pura e simplesmente, toda e qualquer rentabilização do património. Pergunto: então, como fazemos? Aumentamos os impostos? Onde é que se vai buscar o dinheiro? A cultura portuguesa é muito resistente ao mecenato – precisamente porque temos uma cultura empresarial muito pouco culta, o que aliás se reflecte desde logo na baixa produtividade do país. Deveria, em meu entender, criar-se um sistema de apoio ao mecenato cultural que realmente funcionasse, isto é, que incentivasse as empresas a investir no apoio às artes e na preservação do património de uma forma eficaz e, sobretudo, desburocratizada. Porém, para animar os responsáveis de museus e monumentos a procurar mecenas, seria necessário que os patrocínios granjeados fossem aplicados no equipamento cultural que trabalhou para os alcançar. Não é isso o que acontece: os apoios são canalizados para a Direcção Geral do Património Cultural, que depois os reparte, segundo os seus critérios. Enquanto não houver reconhecimento pelo trabalho e pelo mérito individuais não haverá estímulo nem responsabilização dos dirigentes. Temos uma Função Pública recheada de chefes que não mandam nada – e, se forem espertos, procurarão mesmo nunca decidir coisíssima nenhuma, porque quem nada faz nunca tem problemas e, de diuturnidade em diuturnidade, chega à reforma remediada e tranquilamente. É nisto que ainda estamos.

CONVITE


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O Encontro Internacional Mulheres nas Artes – Percursos de Desobediência decorre segunda e terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian. Programa completo aqui: https://gulbenkian.pt/evento/mulheres-nas-artes/

Estão todas e todos convidados. 

Convite extensivo ao lançamento do primeiro livro da minha editora, Sibila, que acontecerá neste Encontro.  

Às 18 horas, antes do lançamento, Joumana Haddad fará uma palestra sobre a situação das mulheres árabes. 

Celebrar Agustina


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Agustina Bessa-Luís completa hoje 95 anos. Deixo aqui o prefácio que fiz para o livro As Chamas e As Almas, que reúne Crónica do Cruzado Osb. e As Fúrias, dois brilhantíssimos romances que a escritora escreveu no imediato pós-25 de Abril, sobre os tempos da revolução. 

 

A orquestra do imprevisível 

 

«Que gente tinha saído da revolução dos cravos? Os que abriam o coração aos acontecimentos e os que abriam o guarda-chuva.» (Crónica do Cruzado Osb., p. 186)

 

         Quem, porque não fosse ainda nascido ou porque andasse por outras partes, não pôde experimentar o tempo e a singularidade da revolução portuguesa, viverá nestes dois romances todos os acontecimentos e emoções desses anos turbulentos. Em pleno caudal revolucionário, Agustina concebeu um par de ficções nas quais realidade e reflexão fluem em paralelo, conseguindo captar, por dentro, o magma dos sentimentos e das revoltas das diferentes camadas sociais e pensar, por fora – como se pudesse observar a vertiginosa sucessão dos factos a partir de uma curva temporal posterior –, as consequências futuras do que estava a acontecer. Nesta extraordinária capacidade de descrever uma época e de antecipar o seu desfecho, com o rigor daquela isenção a que em literatura se chama compaixão, ou partilha da paixão dos outros, reside a mais imediata qualidade desta obra de inúmeras qualidades. O tempo pousa sobre as palavras escritas como um revelador – mostra o brilho dumas e a irrelevância doutras. Os trinta anos que decorreram sobre estes livros, escritos em tempos de lume, mostram a perfurante capacidade de análise da Escritora – e a força da sua profecia. Um escritor genial é sempre um profeta, um historiador do invisível, alguém que vê a coreografia temporal do espírito humano e consegue imaginar-lhe as configurações futuras, para lá dos concertos actuais do bem e do mal. A precisão dessa profecia dá-nos a medida de eternidade de uma obra; Agustina é já uma autora de todos os futuros – como o foi o Padre António Vieira, o seu único antepassado verdadeiro na História da Literatura Portuguesa, quer pela ousadia de exposição e asserção, quer pela transfiguração da matéria anímica através da acção política ou do sentimento dela.     

         Nesses anos em que, de repente, como se lê no início de Crónica do Cruzado Osb., «a política ocupava todo o horizonte humano», Agustina conseguiu continuar a radiografar a alma humana – da qual as vestes políticas são sempre e só um epifenómeno, a espuma (às vezes arrasadora) de uma história oculta de sangue e afectos – e perscrutar o desenvolvimento da sociedade, para lá desse cerrado nevoeiro da política. No subconsciente da política está a luta pelo poder, e no inconsciente dessa luta o drama particular da afirmação de si, que envolve o segredo dos sentimentos e da inteligência dos homens e das mulheres. Nunca foi outro o tema – caudaloso, inesgotável – de Agustina, isso que a Escritora inúmeras vezes sintetizou, com uma simpatia rápida, para corresponder à rapidez borbulhante dos jornais, como «as relações humanas». Costuma dizer-se que escreve sobre famílias, e fica tudo sossegado – como se a família fosse um lugar pacífico. O tema incessante de Agustina é o poder, que desvenda como autêntico microscópio da vida humana: na lamela desse microscópio, paixão e ódio, energia e morte, crime e culpa formam uma rede romanesca. Acontece que em Portugal, país pequeno e antigo, o poder aparece sempre profundamente imbricado nesses complicados enredos do sangue a que damos o nome de «família». Agustina afirmou uma vez, à entrada de uma das suas subversivas crónicas: «Eu não gosto de me meter em assuntos de família, mas não há outros». Ironizava sobre a arrumação fácil, e tão frequente, dos seus romances como uma colecção de histórias de grandes famílias do Douro – porque as famílias, e o brilho enigmático do Douro, as brumas do Norte são, na sua obra, apenas o ponto de partida, o lugar familiar de onde se parte para o desconhecido inquietante, o princípio do desassossego.

         Só quem nunca leu Agustina pode considerá-la uma «conservadora». Nenhum grande escritor pode ser um «conservador» ou um «revolucionário», porque o que faz um grande escritor é, antes de mais, esse dom de liberdade que não se compadece com classificações. Diz Olga Rodom, na página 266 de As Fúrias: «A liberdade é uma serpente que rasteja como a inveja primeiro, e depois açoita como a vingança». Sim, a liberdade açoita inexoravelmente as limitações mentais de cada época, expondo-as em carne viva. Num dos seus aforismos fulgurantes como haikus, escreve Agustina, na página 343 de As Fúrias: «Os preconceitos são o espírito do tempo mal compreendido». O rótulo de «conservadora» tem limitações às quais a escrita e o pensamento torrencial de Agustina não se acomodam – precisamente, não é uma escrita acomodada às modas da estação, nem um pensamento que se deixe pastorear, e é isso o que, muitas vezes, ainda hoje, não lhe perdoam. Consagram-na para a encarcerarem no sossego dos clássicos, e a escrita de Agustina – desconcertante, sábia, imprevisível – não tem arrumação nem catalogação possível. Onde quer que se abra a página, uma frase nos incendeia e nos leva a pensar o mundo de novo. Num texto belíssimo, Maria Velho da Costa descreve Agustina como «menina total e raciocinante» («Maria Agustina, a trânsfuga», revista Egoísta, Fevereiro 2007). É preciso ter um pensamento vigoroso, indomável, para conseguir pôr ordem e justiça no tempo de uma revolução. Não há nada de anti nem pró-revolucionário nestes romances – há a busca do entendimento das causas e das consequências, uma análise que não poupa os «novos feudais» da revolução («novos feudais» que ela define, em versão actualizada ao início do milénio, no seu mais recente romance, o prodigioso A Ronda da Noite) como nos velhos feudais da ditadura. O tom sentencioso da sua escrita conduz também os espíritos mais ligeiros a catalogações apressadas – ela revela verdades profundas, mas essas verdades não são portáteis e adaptáveis ao politicamente ou espiritualmente correcto em curso, transporatndo antes uma visão aguda, de uma lucidez extrema, sobre a natureza humana, com todos os seus paradoxos e contradições. Por isso Agustina pode parecer cruel como a verdade, ou audaciosamente conservadora como uma criança; tem a consciência cortante de que o ser humano muda menos do que julga, e teve sempre – sobretudo nos tempos de maior agitação – a coragem de não o esquecer, e de o declarar. Agustina não fornece respostas, amplia as perguntas – escava e escavaca as evidências. Silvina Rodrigues Lopes descreveu cirurgicamente os efeitos deste labor: «a escrita [de Agustina] produz um pensamento indeterminado, simultaneamente inteligência contagiante, revelação que interfere na formação do leitor e abertura de múltiplas hipóteses, também elas sem outra legitimação que não seja a que adquirem na sua própria prática» (Agustina Bessa Luís – As Hipóteses do Romance, Asa, 1992, p. 302).

         Estes dois romances compõem, de facto, uma obra única, o romance da revolução desde o seu arranque militar, masculino, táctico e frontal, aos seus desenvolvimentos políticos, femininos, estratégicos e sub-reptícios. Logo no início de Crónica do Cruzado Osb., escreve: «A revolução do 25 de Abril não mudara o fundo do complexo humano. Esbarrara mesmo com esse fulcro de inútil consciência das coisas, uma espécie de neurose da queixa, de expiação, talvez. O sangue de muitos povos alimentava o carácter racial da contradição; celtas garridos e sombrios iberos existiam em oposição no contexto da natureza provinciana e que pesava em todos os actos da vida comum e privada» (p. 30). Mais adiante, dirá que a revolução tocava «alguma coisa de mais profundo, talvez a extinção do medo milenário, do desprezo por si próprio», e simultaneamente verifica como «no campo das profissões grassava já a baixa manobra para obter lugares, assegurá-los no futuro mercê duma fluidez de compromissos» (p. 48). A justa serenidade da Escritora mantém-se imune à atmosfera convulsiva da época – o ponto final de Crónica do Cruzado Osb. data de 7 de Maio de 1976. O decidido esculpir de uma justiça visceral que constitui a força motriz do entendimento agustiniano conduz-nos através deste romance que vai organizando a desorganização revolucionária, do inicial período de festa e ruptura com o medo, à fase do «terror branco» em que se prenderam ao desbarato «inimigos verdadeiros ou fictícios», e ao progressivo nascimento de um «socialismo de ballet, pleno de fugas, suspensões, saltos e trémulos». Cáustica, a Escritora escalpeliza as diversas camadas da burguesia: «Toda essa gente cometeu a vulgaridade de se incomodar com a revolução, mais pelo facto de ela os ignorar, do que porque realmente ela os podia perder. (…) O primeiro movimento de muitos burgueses foi o de se adaptarem a uma atitude de vanguarda» (p. 44). Quanto ao revolucionário Movimento das Forças Armadas (vulgo, MFA), define-o numa frase: «Gente interessante, radiosa, que julgava o povo um público e a vida política uma actividade temperamental». E acrescenta, de imediato: «Mas o povo, e o povo português em especial, não concederia a ninguém a sua confiança. Se o fizesse, seria o mesmo que abdicar da sua parte de liberdade autenticamente permissível. A desconfiança é a única vantagem do povo sobre as minorias que o conduzem» (p. 48). Sobre as campanhas de alfabetização, escreve: «Achavam que saber coisas, estar cevados de conhecimentos, gordo de títulos, pletórico de razões, era a maneira de libertar as pessoas, de as tornar úteis e felizes. Não reparavam que a cultura assim ministrada não passava de uma nova superstição. Que o sexo, a física nuclear e o estudo dos clássicos ficavam tão obscuros como dantes, se não fossem respeitados como fenómenos independentes de qualquer versão vitoriosa; pois a obscuridade de todas as coisas só se dissipa quando o elementar delas se atinge – e o elementar delas é a relação entre elas e o homem» (p. 86). Sobre a desilusão inevitável, escreve: «As revoluções são tão incertas, que basta fazê-las triunfar para vermos quanto nos decepcionam. Isto, que parece efeito dum pensamento difícil, o povo sabe-o; e o povo português sabe-o primeiro do que qualquer outro. É uma raça privilegiada para entender o que não compreende» (p. 147).

Seria útil que se autonomizasse a constante indagação de Agustina em torno da identidade portuguesa num volume específico, de forma a que a sua arquitectura filosófica se pudesse observar como o edifício clarividente que efectivamente é. Eduardo Prado Coelho afirmou um dia, com uma inteligência exacta (em A Noite do Mundo, INCM, 1988), que o génio de Agustina não é o de um «maître à penser» mas o de uma «pensée sem maître» – e esse pensamento sem rédea nem dono desafia-nos tanto e tão desabrigadamente que chega a encandear-nos. Servido por uma escrita minuciosa e opulenta – «uma tapeçaria, mas dum género especial, aberta», como já em 1964 Eduardo Lourenço a definia (O Tempo e o Modo, nº 22, 1964)  – , esse pensamento atinge-nos intermitentemente como uma espada de sol demasiado forte. As personagens movem-se através dos seus romances como nuvens piedosas que nos protegem do sol abrupto da sabedoria de Agustina, mediadoras de infinitos, deusas de algibeira, precárias e pecadoras, tentando aconchegar-nos à intempérie desse pensamento extra-lúcido. Há um inacabamento voluntariamente esperançoso nos romances de Agustina; fechada a última frase, a vida daquelas pessoas continua, o que significa que continuam ao nosso lado, animando-nos a prosseguir sem o temor dos desenlaces. A profusão de micro-enredos e o desfibramento de protagonismos prende-nos ao longo de todas as páginas, e suaviza-nos o esforço de apreensão do pensamento profundo e profundamente livre da Escritora. Nos romances de Agustina, precisamente porque movidos por um democrático sentido de compaixão ou justiça, dilui-se a noção de personagem secundária; todas as figuras têm o seu momento de intervenção essencial – é isso o que de imediato torna os seus livros sedutores e acessíveis a leitores intuitivos e não-iniciados. Muitas vezes, aliás, esses leitores não-formatados entendem-na melhor do que os académicos puros, precisamente porque a escrita de Agustina parte de um contrato de autenticidade, de uma aceitação serena da contradição humana e de uma prática de indomável liberdade. Como escreveu Fernando Pinto do Amaral, «o que interessa à sua voz é ir abrindo portas, deixando a cada um a decisão de as transpor, quando e como quiser» (Uma «Incerteza Apaixonada», Diário de Notícias, 3 de Novembro de 2006). 

         Agustina Bessa-Luís herdou a curiosidade insaciável, a possante capacidade de trabalho e a força genuína de Camilo Castelo Branco – mas levou muito mais longe esses dotes, tornando-se uma espécie de super-Camilo. Teixeira de Pascoaes explicou que, nos livros de Camilo, «chegamos sempre à luta entre as forças espontâneas do ser e a lei que as subordina à sociedade. Tal luta é a mesma sociedade a fixar-se em formas inertes de encontro à acção renovadora do espírito» (O Penitente, Assírio& Alvim, 1985, p.85). Esta afirmação adequa-se igualmente à ficção agustiniana – que suplanta a de Camilo no que se refere à experiência abissal das paixões humana e ao entendimento desassombrado da dimensão caótica dos seus desejos. É verdade que, pelo menos à tona dos factos, a autora de Prazer e Glória terá experimentado menos vicissitudes morais e materiais do que o autor de Memórias do Cárcere. Mas o que sabemos da experiência do sofrimento alheio? Virginia Woolf meditou muito sobre a dose certa de raiva necessária a um escritor – não demasiada, para não obscurecer a justiça genérica da escrita, nem inexistente, para não amolecer a inspiração. Escrevemos sempre contra um silêncio ou uma submissão; em última análise, o génio globalizador de Agustina é, pura e simplesmente, da ordem do dom, ou do milagre – inexplicável. Podemos apenas congratular-nos com essa sua capacidade, absolutamente única, de nos dar a ver o movimento do mundo inteiro através das peripécias de uma série de famílias do Douro. Mais do que uma extraordinária criadora de aforismos, Agustina é uma artista da parábola. Os seus romances resistem a sínteses castradoras: para sermos fiéis ao enredo de Crónica do Cruzado Osb. teríamos de contar uma bateria de pequenas histórias, para lá do fio existencial desse Josué Silva que, em plena revolução, «magoado com uma desgraça que afinal se baseava no mau uso da sua juventude – ele fora saneado do jornal onde ocupava um cargo na redacção» decide escrever «uma sátira muito viva e espirituosa, e também mal-intencionada» a que deu o nome de Crónica do Cruzado Osb., declinação contemporânea da crónica de Osborne, militar inglês que assistiu ao cerco de Lisboa em 1147.

A obra de Agustina tem essa característica, cada vez mais rara e preciosa, de abrir os seus salões, descontraidamente, ao convívio com obras e temas de outras eras, actualizando-os. Num tempo em que Cícero é citado sem ter sido lido e os plágios entre vizinhos se disfarçam de homenagens, Agustina distingue-se também por essa ciência do diálogo, tão erudita quanto despretensiosa. Crónica do Cruzado Osb. é um romance invulgar na obra de Agustina, porque é um romance macho; não só circula em torno de personagens masculinas, como tem uma mecânica narrativa organizada, cartesiana, quase espartana. Desenvolve-se claramente como um romance de ideias – a tal ponto que seria possível descolá-lo da narrativa e reconstrui-lo, à margem dela, como um ensaio sobre a Revolução. Ensaio que vem ao encontro do Portugal de hoje: «Basta que se promulgue a austeridade na economia, que se exponha o sudário das adversidades a suportar, para que a revolução sofra um retrocesso. Os governantes hábeis costumam usar deste meio para, directa ou indirectamente, culpar s massas e assim obterem delas uma certa docilidade. A litania da penitência sempre procurou obstáculo à contestação, É assim no campo religioso e é assim no campo político (p. 96)». Ensaio que não deixa pedra sobre pedra: «Não é possível mudar nada enquanto a luta constar apenas de um rolamento de lugares de vítimas e carrascos. Abrir todas as prisões tem que significar destruir as prisões, e não conservá-las à ordem de outros poderes» (p. 135). Romance da candura armada e da iniciação à política, Crónica do Cruzado Osb. elabora o perfil do amor idealizado, abstracto, que marca a História do Masculino, de Platão aos nossos dias. É a crónica do orgulho, sobre o qual a Escritora reflecte longamente, virtude máscula que interrompe a vida, enredando-a em estratégias equívocas, quase sempre fatais.

         As Fúrias surgem, um ano mais tarde, como contraponto íntimo, veemente, à crónica de estrada da Revolução representada pelo autor de Osb. e pelos seus pares. Neste romance de «pessoas em contra-luz», «cheias de trevas», como explica a Autora (p. 362), observamos os efeitos da revolução social no interior das casas e dos corações, e, em particular, as consequências da fúria desencadeada nos corações das mais improváveis mulheres – as grandes burguesas como as pequenas proletárias, que de repente desatam a falar e a agir por conta própria, contra as novas como contra as velhas convenções e expectativas. Habituámo-nos a ver a emancipação social e política das mulheres como um mero processo legal e de conquista de direitos – mas Agustina desmonta implacavelmente o paternalismo superficial das ideias feitas sobre as emancipações, mostrando-nos mulheres que, sob o vendaval da liberdade, se entregam aos seus desejos mais ocultos, rejeitando qualquer definição emancipatória exterior, da ordem do masculino. Perpassa por todas as páginas deste livro a aragem de um erotismo intenso, convulso, enigmático, um clima de «desintegração erótica» nascido da força carnal, subitamente descoberta, das mulheres, que se erguem contra «o mau romantismo dos tempos». Ao orgulho masculino da primeira fase da revolução, descrita em Crónica do Cruzado Osb., segue-se agora o tempo feminino da vingança: «as mulheres estavam entregues a esse espírito de vingança que não tinha como barreira o esteticismo dos homens capaz de produzir uma acção política e nacional» (p. 299).     

         Mitologicamente, as Fúrias nascem das gotas de sangue que caem sobre a Terra durante a castração de Urano. Ou são filhas de Hades e Perséfone, localizadas entre as sombras. São as forças de retribuição: Aleto, a ira incessante, Tisifone, a retaliação, e Megera, o ciúme. No romance de Agustina, este feminino incandescente é representado, antes de mais, pela velha Olga, que decide chamar a revolução para dentro de casa (uma casa com trinta quartos e dois salões de festas), e convocar a ocupação, em vez de se defender dela. Nesta altiva Olga que decide comandar e estabelecer as regras da invasão da sua casa pelo povo, encontramos muito da própria Agustina: «Olga não tinha a menor ideia de que agia democraticamente, nem isso lhe interessava; a política não interferira nos seus costumes, porque eles derivavam directamente da sua condição, duvidosa de resto, de espectadora (…) Olga não tinha qualquer academismo de pensamento nem disposição revolucionária. Em diversas situações da vida fora incontestavelmente quase uma marginal. (p. 237). «Havia nela uma propensão para derrubar o passado, para o esvaziar do seu conteúdo mais sagrado; e isto a par de uma aparente fidelidade aos costumes que ela respeitava com uma certa pretensão racista, uma certa abundância de programas. Mas no fundo odiava a sua escola de merecimento, o seu padrão de elegância, cada um dos objectos que lhe ensinavam a amar» (p. 247). Também em Ofélia, filha de Olga, se detecta a maneira de olhar da própria Escritora: «não impressionava senão por uma espécie de atenção, como a das aves de presa; uma maneira certeira de ver tudo quanto se move e se desloca numa paisagem, seja um ramo que de súbito se desprende, seja uma pista animal e fugaz» (p. 294). A outra filha de Olga, Mimosa, ocupará o lugar de terceira Fúria; mecenas de uma espécie de asilo para intelectuais pobres, com «um gosto pela instabilidade» e tendo «por arquétipo uma virgem de Fátima vestida pelo Dior (…) saboreava os equívocos como pastéis e deleitava-se a provar as contradições desses belos recuperadores da pátria» (p. 269). O olhar e o passo destas três mulheres marca a narrativa dos anos em que a revolução se diluiu na habitualidade, desfigurando-se, humanizando-se, criando um novo mundo, em muitos aspectos idêntico ao anterior, e em muitos outros – imperceptíveis e determinantes – irreversivelmente distinto.    

         Juntos, estes dois romances compõem um extradordinário vitral do período revolucionário português. Num tempo em que as livrarias se entopem dessa falsidade redundante a que se chama «romance histórico»  – a História nunca é só uma, e todo o romance digno do nome é uma formulação da História –, a ressurreição destas duas obras que nos oferecem a memória poliédrica do tempo inaugural da democracia, com o pressentimento certeiro das luzes e sombras que hoje ela desenha, e com a profecia do que continuamente a excede e corrói, é absolutamente fundamental. As palavras que a Escritora usaria, poucos anos depois destes dois romances, para definir a escrita epistolar da protagonista em Fanny Owen (1979), assentam-lhe como uma luva: «Não só escrevia com extraordinária correcção, como imprimia às palavras um fogo devorante, não pelo que elas significavem etimologicamente, mas pela sua escolha e aliança especial. Era como um jogo perfeito, sonoro, insensato e invulnerável, essa escrita produzida como por um anjo cego, cujos valores não fossem equiparados aos humanos» (p. 94). Nestes livros aprendemos tudo o que há para aprender sobre a nossa História contemporânea – e, sobretudo, apreendemos o que incessantemente nos escapa, ouvimos a voz dos silêncios, mágoas e sonhos desfeitos que a História e as histórias apagam. Porque na escrita de Agustina convergem todas as iluminações e misérias humanas, o segredo das maiores e menores almas, o dizível e o indizível, o tempo e a eternidade.

 

Maio 2007

O dia em que a nossa vida mudou


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Cumprem-se agora dez anos sobre o dia em que o mundo mudou. O massacre aéreo de Manhattan obrigou-nos a todos – a começar pelos americanos – a perceber que vivemos num mundo global e que o mal não acontece só aos outros. Não foi o primeiro nem o último massacre da História da Humanidade – mas foi o primeiro que visou uma civilização. Não nos equivoquemos: o ataque às Torres Gémeas não era dirigido contra os americanos, nem contra os judeus, nem sequer contra o capitalismo. A Arábia Saudita é um exemplo rutilante de como o islamismo radical convive santamente com o mais sofisticado capitalismo. Americanos, judeus ou não, tal como os europeus têm em comum a cultura da liberdade, da igualdade e da democracia –  foi essa cultura que a Al Quaeda pretendeu dizimar, com a matança de civis, que aliás repetiu em menor escala em Madrid, a 11 de Março de 2004.

         O 11 de Setembro tornou impossível a neutralidade; as posições ideológicas que, desde o fim do Muro de Berlim, boiavam num caldo morno de «humanismo» indiferenciado, tornaram-se quentes e vibrantemente opostas. O chamado multiculturalismo sofreu vários processos de filtragem e reflexão: serão todas as culturas de facto equivalentes? Haverá valores universais a defender? Onde ficam os limites da tolerância? Desenvolveu-se uma extensa literatura sobre estes temas, que se repartiu entre a condenação dos perpetradores e a condenação dos Estados Unidos – a literatura do «eles estavam a merecê-las», como me disse alguém com quem cortei relações. Não há forma de sustentar uma conversa quando o interlocutor sustenta que determinados «eles» merecem ser assassinados – ainda por cima, quando os «eles» são indiscriminados. Para muitos de nós, Setembro de 2001 significou uma revisão intensa e dolorosa de afinidades electivas.  

Entendi então com nitidez que há princípios básicos que unem e separam as pessoas, para lá das diferentes visões do mundo e simpatias ou filiações partidárias. A raiz desses princípios é o amor – ou esse particular traço do amor a que se chama compaixão, isto é, partilha da paixão alheia.  Emmanuel Lévinas, cuja obra ecoa cintilantemente sobre o silêncio do horror nazi, define a ética como um «acontecimento», um «desfalecimento do ser em humanidade» através do súbito encontro de um rosto. O rosto inesperadamente humano do inimigo com que esbarramos no campo de batalha, por exemplo. Mas esse encontro ético é uma intermitência, um afluxo de sangue cuja surpresa pode ser – e foi-o, no caso do holocausto dos judeus – antecipadamente extirpada. O que se passou no nazismo como no estalinismo foi a total objectivação do outro. O outro tornou-se, simplesmente, coisa. Coisa que estrebucha, ou sangra ou grita, como um autómato à experiência, nunca como ser humano.

      No século XIX, Tocqueville verificava que «cada um só vê o seu semelhante nos membros da sua casta». No século XXI, observamos que a má-consciência leva muitos a encontrar o seu semelhante apenas e só naqueles que o querem aniquilar. Negar a existência de uma guerra é prolongá-la – e, por mais que se pretenda o contrário, ser conivente com uma das partes. O 11 de Setembro mostrou a diferença entre uma cultura que reconhece a dignidade dos seres humanos e outra que não reconhece senão a sua vontade de mando –  e que não reconhece os outros como seus iguais, nem olha a meios para atingir fins. Não são visões equivalentes: uma é pela vida, outra é pela morte. Há coisas que são barbaramente simples.

 

( crónica publicada no semanário Sol a 9/9/2011)

Maylis de Kerangal, Cuidar dos Vivos


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  ” O rosto de Sean no fundo do ecrã – esses olhos rasgados sob pálpebras índias – ilumina-se no seu telefone. Marianne, ligaste-me. Desfaz-se imediatamente em lágrimas – química da dor –, incapaz de articular uma palavra enquanto ele pronuncia de novo: Marianne? Marianne? Ele julgaria sem dúvida que o eco do mar no estreito da doca lhe dificultava a escuta, atribuiria sem dúvida às interferências a baba, o ranho, as lágrimas enquanto ela mordia as costas da mão, tetanizada pelo horror que lhe inspirava bruscamente esta voz tão amada, familiar como só uma voz sabe ser mas que de repente se tornava estrangeira, abominavelmente estrangeira, porque surgida de um espaço-tempo em que o acidente de Simon nunca tivera lugar, um mundo intacto situado a anos-luz deste café vazio; e agora destoava, aquela voz, desorquestrava o mundo, dilacerava-lhe o cérebro: era a voz da vida de antes. Marianne ouve este homem que a chama e chora, percorrida pela emoção que sentimos às vezes diante do que, no tempo, sobreviveu incólume, e desencadeia a dor dos impossíveis retornos  – um dia ela precisaria de saber em que sentido se escoa o tempo, se é linear ou traça os círculos rápidos de um hula-hoop, se forma anéis, se se enrola como a nervura de uma concha, se pode assumir a forma desse tubo que enrola a onda, aspira o mar e o universo inteiro no  seu reverso sombrio, sim, ela precisaria de compreender de que é feito o tempo que passa. Marianne aperta o telefone na mão: medo de falar, medo de destruir a voz de Sean, medo de que nunca mais possa voltar a ouvi-la tal como ela é, que nunca mais possa experimentar esse tempo desaparecido em que Simon não estava numa situação irreversível, quando todavia sabe que deve pôr fim ao anacronismo daquela voz para a reimplantar ali, no presente do drama, sabe que tem de o fazer, e quando finalmente consegue exprimir-se, não é nem concreta, nem precisa, mas incoerente, tanto que, perdendo a calma, porque tomado também ele pelo terror – acontecera qualquer coisa, qualquer coisa de grave –, Sean começa a perguntar-lhe, atormentado, é o Simon? o que se passa com o Simon? no surf? um acidente, onde? O rosto recorta-se-lhe na textura sonora, tão preciso como na foto do fundo do ecrã. Imagina que ele podia deduzir um afogamento, corrige-se, os monossílabos tornam-se frases que a pouco e pouco se organizam e formam um sentido, e pouco depois diz-lhe tudo o que sabe, por ordem, fechando os olhos e apertando o aparelho contra o esterno ao som do grito de Sean. Em seguida, controlando-se, explica-lhe a toda a velocidade que sim, o prognóstico vital de Simon é complicado, está em coma mas vivo, e Sean, por sua vez desfigurado, como ela desfigurado, responde vou já, estarei aí em dois minutos, onde estás? – e a sua voz é agora trânsfuga, reuniu-se a Marianne, atravessou a membrana frágil que separa os felizes dos condenados: espera por mim.”

Memória de Eduardo Prado Coelho


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No passado dia 25 de Agosto, cumpriram-se 10 anos sobre a morte de Eduardo Prado Coelho. Republico aqui a crónica em forma de carta que escrevi para o Expresso quando ele morreu. A velocidade do esquecimento é um dos grandes problemas do nosso tempo. Onde andam os livros dele? 

 

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Eduardo

 

Sobre o teu caixão, um girassol aberto. Disseram-me que o gesto veio da Teresa Belo – tu terás sorrido, e o Ruy Belo floriu contigo nesse sorriso, estendendo-te a mão. Uma das tuas heranças são as amigas, várias, escolhidas a dedo – em geral, mulheres fortes, radiosas como girassóis, com as quais conversavas infinitamente de tudo e de nada. Mulheres que riem. No fundo, invejavam-te tanto esse dom de gerar e manter amizades longas com mulheres como os outros todos – a erudição, a inteligência plástica, a escrita iluminante, o sentido de humor, o prazer de viver, a capacidade de organização, a liberdade da palavra, a visibilidade. E invejavam-te descaradamente o dom da paixão retribuída, que possuías em alto grau. Uma vez, um escritor perguntou-te: «Como é que você faz para ter tanto sucesso com as mulheres quando eu, que sou um homem bonito, não consigo ter nem metade?» Ter-lhe-ás respondido, segundo me contaste: « Não sei, é de facto estranho. O melhor será perguntar-lhe a elas». Fulminante, com uma gargalhada elegantíssima. Também isso te perdoavam pouco: a gargalhada, a elegância.

As mulheres gostavam de conversar contigo porque tu sabias dançar de tema para tema, misturar o sério e o risível, o sublime e o quotidiano. Os homens ainda não são educados para deslizar assim entre os diversos níveis da existência. Tinhas uma curiosidade insaciável e genuinamente democrática: tudo te interessava. Transitavas entre pessoas e artes sem preconceitos de espécie nenhuma – estavas sempre disponível para a alegria da descoberta e do encantamento. Revelaste e estimulaste muitíssimos talentos, sem nunca adoptares a pose tutelar do pai ou do padrinho latino – antes pelo contrário, entregavas-te ao prazer de admirar, que é uma espécie de jóia rara, no nosso Portugal de hierarquias, vénias e trocas de favores.

Uma figura grada convocou-te certa vez para um encontro à chuva, e, depois de te deixar marinar bastante no meio de uma praça, lá veio dizer ao que vinha: queria que tu mexesses uns cordelinhos para que lhe atribuíssem um Prémio prestigiado e chorudo. Respondeste que nem membro do júri eras, mas a figura insistia que o teu poder de influência resolveria isso. Eu pasmava com a tua bonomia diante destes assaltos contínuos. Porque continuavas a disponibilizar a mesma atenção – nem mais, nem menos – para o trabalho das múltiplas pessoas que te tentavam usar como SOS-Promoção.  Eras generoso a fundo perdido, e fazias disso a tua riqueza: o que vivias, o que conhecias, o que aprendias. Pessoalmente, invejava-te sobretudo a capacidade de esquecer as ofensas. «Não é que perdoe, é que esqueço genuinamente. Não tenho arquivo para as coisas más, o que é que eu hei-de fazer?». E tornavas a rir. Era esse talento para o esquecimento o que te impedia de envelhecer.  Dizia Manuel Alberto Valente ao «Público», na bela e dolorosa edição que esse teu jornal de sempre te dedicou, que foste o grande intelectual da geração dele. O pior é que eu olho para a geração seguinte, a minha geração, e também não vejo ninguém como tu, capaz de fazer a ponte entre a universidade, as artes (todas as artes) e a vida, capaz de dar o corpo pelas causas (recordo-te muito doente, no Inverno passado, numa tarde gelada, no Rossio,  recolhendo assinaturas para o Movimento de cidadãos em prol da interrupção voluntária da gravidez), capaz de estar em tudo, e tão intensamente, como tu. Sendo simultaneamente, como tu eras, como tu és – porque os textos não morrem – um cintilante escritor. Várias vezes me pareceu que aquilo que escrevias sobre obras alheias era  melhor do que a obra em si. E tu, modestamente, incentivavas-me a que olhasse outra vez. Eu olhava – e, se nem sempre consegui gostar do que tu gostavas, consegui pelo menos descobrir novas dimensões e estímulos nas tuas razões. Tinhas um cânone estético bem definido, mas de forma alguma estanque – pouco te perdoavam, aliás, uma coisa e outra. E tu, nas tintas. A frontalidade foi o único traço que senti alterar-se em ti, com o tempo – em particular nos últimos anos: como se a ronda da morte te levasse a escolher palavras cada vez mais directas e límpidas. Essa liberdade paga-se, claro –há pouco tempo telefonaras-me perguntando se não me importaria de a ir ao tribunal atestar do teu bom carácter.    

         Creio que essa liberdade indomável te terá vedado o acesso a cargos que terias servido na perfeição – ocorrem-me vários, desde Ministro da Cultura a director de programas da RTP. As tuas incessantes ideias e o teu modo comunicante de viver teriam sido muito úteis ao país – os dez anos em que foste conselheiro cultural em Paris marcaram uma projecção exponencial da cultura portuguesa em França.             

         Consola-me saber que não sofreste. Que apenas adormeceste, ao lado da mulher que amavas, depois de mais um dia feliz. Sem incomodar ninguém – como era teu timbre. Se me pedissem uma definição humana para a suavidade, eu dizia o teu nome. Eduardo Prado Coelho. E continuarei a evocar o teu riso, as tuas palavras, o teu exemplo, como se rodasse um inesgotável girassol.

Pensamento da semana


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Imobilizamo-nos a olhar para o que existe nas mãos de outros – e tornamo-nos estátuas falantes do ressentimento. Quando confinamos o absoluto do sonho ao relativo da comparação, ele deixa de ser viagem interestelar e torna-se casebre prisional. Imagino um mundo incomparável, onde as estrelas fossem elementos do céu e não adereços da crítica, a ambição uma corrida de cada um com os seus íntimos e inalienáveis sonhos, e o sucesso a capacidade de descobrir o novo dentro do velho conhecido, isto é, a mais perfeita das artes e aquela em que nos temos mostrado mais imperfeitos – o amor.   

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Blogue da semana


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Pipa não sabe voar  é o nome do blogue de “uma bibliófila convicta” que se chama Paula, mora em Brasília e diz que “ler é a sua forma de voar”. O blogue é exclusivamente dedicado à literatura, quer através de poemas ou  excertos de livros, quer sobretudo – e nisso reside a sua força e o seu apelo – através de sólidas resenhas dos livros que esta leitora lê. E lê muito, de variados países – com um destaque comovente para a literatura portuguesa, que o blogue acompanha com tanta intensidade quanto a literatura do seu país, o Brasil. Pipa tem uma escrita inteligente e límpida que motiva para a leitura. Acresce que, de um modo geral, os seus critérios coincidem com os meus. Sim: ela já escreveu, e bem, sobre vários livros meus, foi assim que descobri este blogue. Mas não é só nem essencialmente por isso que o recomendo, como poderão concluir se o forem visitar.   

Os pregadores do modo de vida


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Em contraponto aos hábitos do islamismo radical, é comum ouvirmos a expressão “o nosso modo de vida”. Ora uma das alegrias fundadoras das sociedades democráticas e laicas é a de, ao contrário das ditaduras (de esquerda ou de direita, se é que esta distinção faz algum sentido prático para alguém), não definirem nenhum “modo de vida” – nem sequer, para raiva dos invejosos de serviço, “estilos de vida”. O estreitamento da democracia que temos vindo a sofrer nas últimas décadas, alegadamente por causa da crise financeira internacional, tem feito o seu caminho nos corredores mentais das pessoas, afunilando-os também. A ideia, milhões de vezes repetida, de que não há alternativa à austeridade, acabou por diminuir os sonhos e as expectativas de populações inteiras, empurrando-as para os caminhos da desistência – esse monstro que nos impede de criar verdadeiras alternativas.

 As ciências e as artes têm demonstrado, desde o início do mundo, que a vida é um mar de possibilidades. Da invenção da agricultura à luz eléctrica, da anestesia às viagens a Marte, a humanidade não parou de encontrar outros “modos de vida” diferentes dos estabelecidos. Há um problema de base quando quase metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% dos seres humanos – e um estudo recente da Oxfam prevê o agravamento deste descalabro nos próximos dois. Garantir um equilíbrio mundial que passa por uma redistribuição da riqueza não é uma questão de “modo de vida”, mas de civilização. À medida que o conceito de “competição” se foi tornando central e obrigatório na cartilha económica e ética dos tempos modernos, descartou-se o termo “civilização” para abolir a ideia, tida por primária, de comparação. Interessante paradoxo, que entretanto faz muito mal a muita gente.

 Na sequência do massacre à redacção do Charlie Hebdo, esgotada a união inicial em torno do choque, entrou-se no tempo do “mas” com o seu cortejo de elucubrações filosóficas escapistas – incluindo aquela, aventada por boas e cultas almas, de que a “nossa liberdade de expressão”, descendente de Lutero e de especificidades europeias, deve parar à porta da não-liberdade dos outros, que não têm a mesma genealogia. É o esplendor do paternalismo condescendente (e cobardolas, pormenor pouco filosófico mas pertinente). Recordo que hoje mesmo (se nada mudar entre a terça-feira em que escrevo e a sexta em que este texto é publicado) será de novo chicoteado em praça pública, na Arábia Saudita, um homem que entendeu, apesar de árabe, ter direito a pensar pela sua própria cabeça. E que milhões de seres humanos são torturados e mortos apenas por quererem pensar e viver livremente. A liberdade não admite “mas” – e, sobretudo, não pode continuar a ter filhos e enteados, consoante as culturas. O terrorismo de Estado é tão terrorista quanto aquele que não tem sede nem nação.

 Um conjunto de opinadores supostamente liberais aproveitou o massacre para dizer que ele resulta da atenção da Europa às chamadas “causas fracturantes” em vez de se preocupar com a segurança e a economia. Como se a atribuição de direitos a mulheres e homossexuais impedisse os restantes aspectos da governação. A mensagem implícita é a de que a manutenção de sociedades mais “tradicionais” não excitaria tanto os radicais islâmicos. A eterna mensagem do medinho e da resignação. Não, isso é que não é modo de vida.

      

Publicado no jornal Sol,23.5.2015