Memória de Eduardo Prado Coelho


blogprimario94472,

No passado dia 25 de Agosto, cumpriram-se 10 anos sobre a morte de Eduardo Prado Coelho. Republico aqui a crónica em forma de carta que escrevi para o Expresso quando ele morreu. A velocidade do esquecimento é um dos grandes problemas do nosso tempo. Onde andam os livros dele? 

 

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Eduardo

 

Sobre o teu caixão, um girassol aberto. Disseram-me que o gesto veio da Teresa Belo – tu terás sorrido, e o Ruy Belo floriu contigo nesse sorriso, estendendo-te a mão. Uma das tuas heranças são as amigas, várias, escolhidas a dedo – em geral, mulheres fortes, radiosas como girassóis, com as quais conversavas infinitamente de tudo e de nada. Mulheres que riem. No fundo, invejavam-te tanto esse dom de gerar e manter amizades longas com mulheres como os outros todos – a erudição, a inteligência plástica, a escrita iluminante, o sentido de humor, o prazer de viver, a capacidade de organização, a liberdade da palavra, a visibilidade. E invejavam-te descaradamente o dom da paixão retribuída, que possuías em alto grau. Uma vez, um escritor perguntou-te: «Como é que você faz para ter tanto sucesso com as mulheres quando eu, que sou um homem bonito, não consigo ter nem metade?» Ter-lhe-ás respondido, segundo me contaste: « Não sei, é de facto estranho. O melhor será perguntar-lhe a elas». Fulminante, com uma gargalhada elegantíssima. Também isso te perdoavam pouco: a gargalhada, a elegância.

As mulheres gostavam de conversar contigo porque tu sabias dançar de tema para tema, misturar o sério e o risível, o sublime e o quotidiano. Os homens ainda não são educados para deslizar assim entre os diversos níveis da existência. Tinhas uma curiosidade insaciável e genuinamente democrática: tudo te interessava. Transitavas entre pessoas e artes sem preconceitos de espécie nenhuma – estavas sempre disponível para a alegria da descoberta e do encantamento. Revelaste e estimulaste muitíssimos talentos, sem nunca adoptares a pose tutelar do pai ou do padrinho latino – antes pelo contrário, entregavas-te ao prazer de admirar, que é uma espécie de jóia rara, no nosso Portugal de hierarquias, vénias e trocas de favores.

Uma figura grada convocou-te certa vez para um encontro à chuva, e, depois de te deixar marinar bastante no meio de uma praça, lá veio dizer ao que vinha: queria que tu mexesses uns cordelinhos para que lhe atribuíssem um Prémio prestigiado e chorudo. Respondeste que nem membro do júri eras, mas a figura insistia que o teu poder de influência resolveria isso. Eu pasmava com a tua bonomia diante destes assaltos contínuos. Porque continuavas a disponibilizar a mesma atenção – nem mais, nem menos – para o trabalho das múltiplas pessoas que te tentavam usar como SOS-Promoção.  Eras generoso a fundo perdido, e fazias disso a tua riqueza: o que vivias, o que conhecias, o que aprendias. Pessoalmente, invejava-te sobretudo a capacidade de esquecer as ofensas. «Não é que perdoe, é que esqueço genuinamente. Não tenho arquivo para as coisas más, o que é que eu hei-de fazer?». E tornavas a rir. Era esse talento para o esquecimento o que te impedia de envelhecer.  Dizia Manuel Alberto Valente ao «Público», na bela e dolorosa edição que esse teu jornal de sempre te dedicou, que foste o grande intelectual da geração dele. O pior é que eu olho para a geração seguinte, a minha geração, e também não vejo ninguém como tu, capaz de fazer a ponte entre a universidade, as artes (todas as artes) e a vida, capaz de dar o corpo pelas causas (recordo-te muito doente, no Inverno passado, numa tarde gelada, no Rossio,  recolhendo assinaturas para o Movimento de cidadãos em prol da interrupção voluntária da gravidez), capaz de estar em tudo, e tão intensamente, como tu. Sendo simultaneamente, como tu eras, como tu és – porque os textos não morrem – um cintilante escritor. Várias vezes me pareceu que aquilo que escrevias sobre obras alheias era  melhor do que a obra em si. E tu, modestamente, incentivavas-me a que olhasse outra vez. Eu olhava – e, se nem sempre consegui gostar do que tu gostavas, consegui pelo menos descobrir novas dimensões e estímulos nas tuas razões. Tinhas um cânone estético bem definido, mas de forma alguma estanque – pouco te perdoavam, aliás, uma coisa e outra. E tu, nas tintas. A frontalidade foi o único traço que senti alterar-se em ti, com o tempo – em particular nos últimos anos: como se a ronda da morte te levasse a escolher palavras cada vez mais directas e límpidas. Essa liberdade paga-se, claro –há pouco tempo telefonaras-me perguntando se não me importaria de a ir ao tribunal atestar do teu bom carácter.    

         Creio que essa liberdade indomável te terá vedado o acesso a cargos que terias servido na perfeição – ocorrem-me vários, desde Ministro da Cultura a director de programas da RTP. As tuas incessantes ideias e o teu modo comunicante de viver teriam sido muito úteis ao país – os dez anos em que foste conselheiro cultural em Paris marcaram uma projecção exponencial da cultura portuguesa em França.             

         Consola-me saber que não sofreste. Que apenas adormeceste, ao lado da mulher que amavas, depois de mais um dia feliz. Sem incomodar ninguém – como era teu timbre. Se me pedissem uma definição humana para a suavidade, eu dizia o teu nome. Eduardo Prado Coelho. E continuarei a evocar o teu riso, as tuas palavras, o teu exemplo, como se rodasse um inesgotável girassol.

9 comentários em “Memória de Eduardo Prado Coelho”

  1. Carta tão bonita! Enobrece tanto o remetente como o destinatário. E é um prazer lê-la.
    Para quem contactou com Eduardo Prado Coelho apenas pelos escritos, é um bálsamo saber que em alguém das letras ele não morreu.
    Obrigada, Inês.

    1. Obrigada, Beatriz. É que me choca que ele tenha morrido tão depressa no coração de muitos que lhe devem muitíssimo, e que passavam a vida a pedir-lhe apoio e propaganda…

      1. Para muitas de Nós não morreu mesmo, único Professor que me abriu as Janelas para o Conhecimento. Sim está Vivo! Ele está no meio de Nós! abraço Professor!

  2. Nunca o conheci, excepto das páginas diárias do Público e uma ou outra publicação.
    Quando morreu disse num post esquecido algures (não aqui no DdO) que teria sido o primeiro blogger português. Ainda hoje penso nele assim, mas desses bloggers do início, límpido, frontal, conflituante e honesto intelectualmente. Ainda me lembro dele como o melhor.
    Também tenho ainda em casa um texto dele, que recortei do Público, sobre a importância das elites. Ter sido escrito por alguém de esquerda iluminou-me, na altura. É ainda um mantra para mim.

    Concordei, discordei e amiúde não o compreendi. Quando reencontro textos dele descubro novos temas, novos mundos, mesmo quando são enquadrados num tempo e numa situação que não recordo. Mesmo quando ancorados temporalmente, os seus textos são frequentemente intemporais.

    Faz falta.

    1. É exactamente isso, João André. Honestidade intelectual significa sermos capaz de entender e valorizar discursos e obras ideologicamente afastadas de nós. É um exercício difícil e essencial, muito pouco praticado. Eduardo Prado Coelho e Vasco Graça Moura tinham essa límpida integridade que, num país culturalmente mesquinho ( embora não pequeno), chega a ser uma forma de coragem. Ambos tiveram problemas com escritores “próximos” por atribuirem prémios a obras de escritores “distantes” aos quais reconheciam, objectivamente, maior mérito. Essa isenção faz muitíssima falta à atmosfera cultural contemporânea, intoxicada de cliques, claques e trocas de favores.

  3. A morte é uma interrupção involuntária. Que fazer? Será que alguém recolhe assinaturas para isto?
    Só não é involuntária quando se é capaz de caminhar, custe o que custar, para que a história do Homem continue a ser (re)escrita.
    A morte dos homens é isso mesmo, um esquecimento. Só não é esquecido quem permite que ao Homem se junte o Divino.

    A tónica humorística nesta nova construção centra-se em conduzir-mo-nos para a cidade Eterna não a cavalo, mas montado num burrito ou num jumentinho.

    “O meu intimo era uma casa dividida contra si própria. No coração do feroz conflito que eu provocara contra a minha alma na nossa habitação comum, o meu coração, virei-me para Alípio. O meu olhar traía a comoção do meu espírito quando exclamei: «Que se passa connosco? Qual o significado desta história? Estes homens não tiveram a nossa educação e, no entanto, levantam-se ao assalto dos portões do céu enquanto nós, apesar de toda nossa erudição, jazemos aqui rastejando neste mundo de carne e sangue! Será porque seguiram o caminho que temos vergonha de palmilhar? A nossa posição não é pior que um revés?»”
    Agostinho de Hippone in Confissões de um Pecador.

  4. Informo que não publicarei qualquer comentário referente a polémicas com Eduardo Prado Coelho, que infelizmente não está cá para se defender. Entendo que as polémicas se travam entre pessoas vivas, e repugna-me a perseguição a mortos.

    1. Como andam sempre em polémicas é natural que na sua geração, Inês, não tenham surgido homens e mulheres capazes de fazer a verdadeira arte.

      O grande problema estrutural que hoje se vive reside no facto de não se aplicar um antigo princípio que até era canónico: «quod omnes tangit, ab omnibus adprobari debet», «o que a todos toca por todos deve ser deliberado».

      Umas das incongruências desta sociedade também se nota no facto de dizerem que hoje as mulheres são mais inteligentes e mais mais mais, mas aparentemente menos capazes. E como prova, lá vêm as quotas por decreto para separá-las daquelas que ao longo da história conquistaram posições por mérito. Mas não ficamos por aqui, as novas mulheres agora também gostam mais de azul. Não é de estranhar quando as cores começam a ser invertidas. Sou capaz de compreender o fenómeno, porque a própria comissão para a igualdade do género, aparentando defender a mulher, para fingir a igualdade, lá vai tentando uns enxertos.
      Está a ocorrer uma nova criação, a costela do homem volta a ser necessária. E até mesmo para aparar frustrações.
      Felizmente que o homem não necessita de comissões para o defender, ele sabe que a liberdade está na capacidade de suas mãos e mente em a conquistar. Nunca deixou em mãos alheias e nos decretos aquilo que lhe pertence pela Lei Natural. E houve mulheres que também o fizerem.

      Costa é que anda agora a fazer que descobriu a pólvora. Ele quer abrir uma caixa de Pandora para revelar que, depois de saírem os fantasmas, não está lá a verdadeira Esperança, mas sim a esperança dos que são somente esperançosos. Ele e Catarina andam a oferecer banda desenhada, e as mulheres desta e algumas – não tão poucas quanto isso – da sua geração já começam a sentir-lhe o peso. A solidão transformou-se nas suas mortalhas. Outras fazem-se avançadas para fazer parecer que apoiam a causa.

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