


Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate “é uma chata”, sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).
Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir – e na contramão – da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais – dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica – e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.
O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem – nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na “ciência” da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.
A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração.

Quem escreveu essa tal crítica, no Expresso, ao «Ponto Pé-de-Flor»?
Clara Ferreira Alves.
Geração esquecida é o título adequado para este “post”
“1983 – Anda uma mãe a criar filhas para isto[2]. A Regra do Jogo
1984 – Agrião![1] Relógio d’Água
1985 – Um esquema. Rolim
1985 – Adeus, princesa[1]. Relógio d’Água/Círculo de Leitores
1985 – Não podemos obrigá-los a amarem-se em co-autoria com Margarida Bon de Souza. Relógio d’Água
1986 – O sapo Francisquinho. Contexto
1986 – E se tivesse a bondade de me dizer porquê? em co-autoria com Mário de Carvalho[1]. Rolim
1987 – O príncipe imperfeito.
1987 – Campos de morangos para sempre. Rolim
1988 – Um sinal dos tempos. Relógio d’Água
1988 – O príncipe imperfeito. Rolim
1989 – Canções das crianças mortas. Relógio d’Água
1990 – Ponto pé de flor.”
in wikipédia
Entre o (suposto) primeiro e o (suposto) segundo livro da escritora [concordamos na definição, qualquer pessoa que escreve é escritora] há uma data de coisas publicadas se têm ou não qualidade é outra questão, quanto à opção da Gallimard se calhar foi motivada pela análise pragmática do forma e conteúdo dos textos e não pela crítica do Expresso.
Para alguns escritores, a culpa é sempre dos árbitros, é como no futebol, é mais fácil atirar pedras aos “outros”.
Quanto à bibliografia de Clara Pinto Correia, que conheço bem, os dois primeiros livros são reportagem, aquilo a que hoje se chama não-ficção, o terceiro é um conto ilustrado; entre o primeiro romance e o segundo, a autora publicou uma reportagem ( em co-autoria), um conto infantil e um folhetim de jornal (em co-autoria); não percebo que relação possa existir entre essas outras publicações e a história – verdadeiríssima – que contei, em relação à rescisão do contrato francês, e que se prende com a recepção do 1º e do 2º ROMANCES da autora. Menos entendo a referência a árbitros, culpas e pedras. Trata-se apenas de uma análise pessoal sobre a minha geração, baseada na minha experiência concreta. Não sei porque é que uma tão simples reflexão o incomoda tanto.
Então andamos todos aqui a tentar apagar a Clara Pinto Correio e a Sra. escreve um post desses? CPC estava tão sossegada, no esquecimento. Subverter esta ordem para quê?
Cara Inês, permita-me que sublinhe:
«este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam».