Do princípio ao fim (15)


blogprimario94472,

Republica-dos-Sonhos_capa.jpg

 

“Eulália começou a morrer na terça-feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. À cabeceira, Madruga presidia os festejos e os hábitos implantados na casa desde a sua chegada à América. Olhava então os presentes com certo tédio, deles cobrando sangue e apreço pelas travessas com a comida adornada.”

Assim arrancam as 705 páginas de A República dos Sonhos, romance de 1984 recentemente reeditado em Portugal pela Temas e Debates. Os romances inesquecíveis são longas conversas sobre política, lendas, memórias, sentimentos, mágoas e descobertas. A ficção de Nélida Piñon pertence a este caudal. Os seus romances são ensaios, experiências existenciais em que o passado se esclarece e o futuro se revela; os seus textos ensaísticos convocam memórias, descobertas e esse dom da surpresa próprio do ficcionista – a associação atrevida, a brincadeira com os círculos imprevisíveis do tempo, a elasticidade da escrita.

         A República dos Sonhos narra a saga de uma família de emigrantes galegos no Brasil, de um modo muito original, a partir dos três dias em que a matriarca decide morrer – a grande decisão da sua vida – e convoca filhos e netos para a despedida. A vida do patriarca e dos seus descendentes entretece-se com as vicissitudes do Brasil ao longo do século XX. Quando Getúlio Vargas chegou ao poder, em Novembro de 1930, pondo fim à chamada República Velha, o Brasil quis acreditar que poderia transformar-se numa República dos Sonhos.  A brutalidade da ditadura, com o seu cortejo de torturas e ignomínias, adiou esse sonho, mas nunca conseguiu matá-lo, talvez porque a omnipresença da morte exalte os impulsos da vida. Madruga, o emigrante bem sucedido, avisa o seu contraponto Venâncio, emigrante falhado, mas nunca desistente: “ Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e Espanha. Você terá de abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por matá-lo.” (p. 173). O paralelo permanente entre a Espanha e o Brasil, “países vorazes e movediços”  é a pedra de toque deste romance. Nélida, como Breta – a neta escritora de Madruga, que partilha com ele e com a autora o relato da história – assume-se como uma voz claramente brasileira e americana, mas arqueóloga das suas raízes galegas e europeias. Essa ligação a dois territórios tão distantes permite-lhe o entendimento profundo que advém da conjugação entre intimidade e estranheza, estar dentro e fora do tempo, num lugar, não de omnisciência, mas de límpida ciência do particular. O retrato minucioso do tempo da ditadura militar, e do modo como ele se reflecte nos comportamentos e destinos individuais, é particularmente rico e pormenorizado. Os ditadores não caem do céu – nem os Madrugas desbravadores, sobreviventes à fome e avessos à resignação.

8341277330326G.jpgNélida Piñon tem um talento particular para cruzar o pessoal e o político. As múltiplas personagens deste romance, com o seu lastro e as suas vozes singulares, dão-nos a conhecer as forças e fraquezas do Brasil e também da Galiza, reconciliando-nos com o oceano do tempo ao qual, enquanto mortais, estamos sujeitos. Nós morremos – mas a República dos Sonhos não. Nélida Piñon consegue ser simultaneamente estilista da língua, historiadora, psicóloga, socióloga, filósofa, pintora. “É preciso buscar a linguagem certa. Pobre do escritor que se equivoque nessa escolha. Sobretudo há que se escrever na língua principal que o país está produzindo naquele momento. Se Montaigne tivesse escrito em latim, ninguém o recordaria agora.” ( p. 669). A aliança com uma língua representa um compromisso com a memória dos povos que a utilizam. Romancista que não domine todas as áreas das artes e ciências do humano, não é nada. Há menos romancistas do que se pensa, neste tempo de especialização e fragmentação aguda.

         Breta permanece sempre menina porque é escritora. Isso permite-lhe confiar na palavra e ousar as ilusões e desilusões que são a matéria fundamental da escrita e do conhecimento. A arte cria uma película de candura que nos protege da vida e nos ensina a não desistir dela. Diz o avô Madruga à neta escritora: “Essa graça que temos de narrar se deve ao facto de sermos celtas, Breta. É a nossa maior herança. Mas, também, o que sobra de um povo sem o seu imaginário? Deve ser por isso que o primeiro ato das ditaduras é proibir a imaginação. Nada asfixia mais do que sermos privados de inventar.” ( p. 79).  Na imaginação radica a liberdade. Hannah Arendt explicou como o totalitarismo esmaga o indivíduo, retirando-lhe qualquer espaço de acção, anulando-o na massa. O romance é um dispositivo de combate anti-totalitário – e A República dos Sonhos é um vigoroso e clarividente exemplo disso. Eulália, a mulher apagada que se ilumina quando decide morrer, explica-nos em que consiste o ofício de sonhar: “O sonho é uma distinção, Madruga. É como saber construir com perfeição uma gaiola ou um barco, fazendo-os parecer um palácio mourisco”. Saibamos merecer este palácio.

12 comentários em “Do princípio ao fim (15)”

    1. Mas em português de onde que se diz “posta”? Em português do Alentejo? De Belém do Pará? De Díli? Que visão provinciana e redutora d língua é essa, Lavoura?

        1. Olha que “blogue” é um anglicismo. Cuidado.
          – –
          Implica com “armada” no lugar de “posta” e depois escreve “blogue”. Só visto, contado ninguém acredita.

      1. Eu sabia lá que fosse brasileira…
        Vi o nome Piñon, pensei que fosse de língua espanhola.
        Seja como fôr, não me dá vontade de ler um texto escrito com tantas coisas em que tropeço como constituindo erros gramaticais ou lexicais.

        1. Então já aprendeu que as pessoas de um país lusófono podem ter nomes provenientes de outras línguas… só falta aprender que não existe só o “português de Portugal”.
          Mas isso é com o tempo.

  1. Quem me falou pela primeira vez nesta autora – e especificamente nesta obra – foi Maria José Nogueira Pinto há quase 20 anos. É uma lacuna que quero colmatar sem mais demora (tal como no caso de Juan Rulfo, que o Rui Herbon aqui nos trouxe anteontem).
    Parabéns por este breve ensaio literário, Inês: é uma notável introdução à ‘República dos Sonhos’. Nélida Piñon vai lê-lo, espero. E só pode gostar.

  2. Excelente escolha, Inês.
    É um romance magnífico que adorei ler.
    Também gostei imenso de ler o ‘Livro das Horas’ – comprei este livro de memórias quando andava a ler as crónicas da Clarice Lispector, outra escritora brasileira que adoro ler e reler.
    🙂 Antonieta

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *