Um escritor continua vivo enquanto tiver leitores. Maria Isabel Barreno não foi apenas uma das magníficas Três Marias; seria injusto que a excepcionalidade de Novas Cartas Portuguesas apagasse a obra desta escritora, menos conhecida do que a das suas duas companheiras de aventura e risco – Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa -, mas forte, singular, composta por uma série de romances fundamentais para compreender o Portugal contemporâneo. Destacaria A Morte da Mãe (1979), Inventário de Ana (1982), Célia e Celina (1985) ou Crónica do Tempo ( 1990 – Prémio Fernando Namora). Ao longo dos anos, fui escrevendo nos jornais sobre vários dos seus livros – deixo aqui um excerto do texto que escrevi em 1990 para o Expresso sobre Crónica do Tempo, esperando estimular potenciais leitores para a descoberta desta voz woodyalleneana da nossa literatura.
“Maria Isabel Barreno dá-nos a fala das cidades, geração após geração. E um dos principais méritos desta Crónica do Tempo é o de não enquistar na perspectiva e na voz da uma geração, escapando assim à vulgata dos lugares comuns e dos juízos cataclísmicos sobre a decadência do mundo. A narradora ( ou narrador, pouco importa) olha todos os seus personagens, sejam eles o avô Jorge, colonialista, ou o neto Miguel, surfista, com um mesmo e intenso amor relativo. O amor relativo é o que mora na única assoalhada imutável do coração. Trata-se de um amor desapaixonado, meigo, atento, que permanece para além da fúria dos mitos e que procura compreender em vez de devorar. Um olhar lúcido e cáustico, como só o olhar da ternura pode ser, pousado sobre os pais da ditadura, os filhos do «vício da sua geração, a palavra. Que aliás já deixara perplexa a geração anterior. A nova geração trazia o ouro do silêncio, talvez fosse isso.» (p.115) Um amor estranho, sobretudo num país de resignações e raivas absolutas. Um país ajoelhado em frente a Nossa Senhora Lá de Fora: « Lá fora é o país onde todos os escritores são ricos e reconhecidos como geniais, onde os pintores pintam entre honrarias diversas, onde não há burocracia(…)» Assim fala Maria Isabel Barreno, através das palavras de Rosa. Jorge: «São os preconceitos contra o dinheiro que nos fazem pobres.O preconceito é inveja» (p. 46) « As casas diminuíram, as mulheres devem ter sentido reduzido seu espaço. As meninas de boas famílias começaram a falar com voz de quem ocupa um espaço pequenino no mundo e se esforça por mostrar isso aos outros. Eu sou doce e frágil, não ameaço ninguém, tratem-me bem.» (p. 66) «Construímos os nossos ideais políticos tão por fora das realidades como as donzelas românticas constroem seus príncipes encantados no silêncio dos quartos. O confronto com a ditadura em nada nos ajudava, só agudizava a nossa febre, a nossa urgência. Um pai tirano não prepara a donzela para o amor, para o casamento.» (p. 127) «Salazar, tirano triste. Há tiranos benévolos, tiranos loucos. O nosso foi um tirano triste e solitário, este era o seu carisma. De tristeza e solidão convenceu os portugueses, como de um destino natural.» (p. 127).Jorge: «Se os nossos intelectuais não vivessem tão embasbacados defronte da França e da Inglaterra, não teriam dado o monopólio da identidade nacional a Salazar.» (p. 141) Rosa: « O que nos acontece de pior é essa vivência miserabilista de todas as coisas, a grandeza vive-se, não se inventa».”


Nasci, cresci e trabalhei alguns anos no Antigo Regime.
Participei no 25 de Novembro do lado militarmente errado da barricada.
Como julgo não ter andado distraído, sinto-me em condições e sem medo de poder contribuir para a desmistificação de certas verdades abrilescas, universais e absolutas, que nos querem continuar a impingir.
E a primeira poderia ser esta:
– Salazar foi, de facto, um tirano solitário e triste. Mas seria ele a causa ou o efeito? Ou seja, Salazar não terá sido o tirano que este Povo merecia ou até exigia? É que o que a ele se seguiu não me parece muito alegre – solitário deixou de ser, mas para, quase sempre, se associar a companhias pouco recomendáveis.
Onde eu quero chegar é aqui:
– Deve haver por aí um meio termo qualquer por onde este Povo possa fazer o SEU caminho.
E nós deveríamos empenhar-nos mais na procura desse caminho e menos em bater mais no ceguinho.
João de Brito
Salazar perseguiu, bateu, matou, empobreceu e ignorou. Não há meio termo. Tudo o que for próximo ou vier de Salazar, é nocivo.
«Excepcionalidade» é um rico adjectivo. É todo um conceito, de quem diz, do que se diz, numa só palavra. Menos que isso, num só rodriguinho.
Cumpts.