Metropolis


Bandeira,

Foram anos de aturada investigação e tremendo sacrifício pessoal para concluir que sou 75% céptico pirronista, 30% epicurista, 20% estóico e mau a matemática. É este o meu sistema filosófico para o resto do mês de Junho. E agora o leitor assim com a mania que é espirituoso dizia: “Isso não é um sistema filosófico, é uma União Europeia, hahaha”, e eu, fiel aos meus princípios, replicaria “Tenho opinião sobre o assunto, mas sou frontalmente contra ela”.

Depois faríamos as pazes e combinaríamos beber uma imperial assistindo a Metropolis, mais logo, no auditório ao ar livre da Gulbenkian.

Cabelo ao vento


Bandeira,

Olhe o que diz o escritor irlandês Colm Tóibín ao JN de hoje:

 

“A Europa não precisou de Bruxelas para conseguir, durante séculos, a livre circulação de ideias. Tudo mudou quando os actuais burocratas chegaram ao poder. Tentaram convencer-nos de que a cultura não é importante, mas sim a livre circulação de capitais. Ainda por cima, todos têm péssima imagem e maus cortes de cabelo. As suas vidas espirituais não estão desenvolvidas. Cada vez mais, chego à conclusão de que estamos a ser regidos por gente com espíritos dissecados.”

Nunca li nada de Tóibín (vou ler, vou ler), mas estou de acordo com tudo – em particular com a parte dos maus cortes de cabelo. Era tempo de alguém dizer isto a Durão Barroso. Sem medos. Cabelo ao vento.

Deus existe, eu não


Bandeira,

José Bandeira

O editor pedira-me algo entre um mínimo de 12 000 e um máximo de 20 000 caracteres. Pelos números, não precisei de muito tempo para deduzir que não estava a falar de bonecos. Comecei o texto alguns dias atrás. Até à madrugada de hoje, pelas duas da manhã, havia sangrado apenas 4718 caracteres. Parecia-me pequenito, o número, para tanto texto. Mas sei como o tamanho dos tipos de letra e das entrelinhas, o nível de zoom, o grau de embriaguez e pormenores técnicos do género alteram a nossa percepção das coisas. Não é o mesmo que escrever num linguado de 80 por 25 (preferia não revelar a minha idade desta forma, mas nada a fazer). Percebi que, tendo em conta os outros compromissos, todos eles inadiáveis, iria ser muito difícil cumprir os prazos sem passar algumas noites em claro. E fui tomar um ansiolítico com um pingo de uísque irlandês e duas pedrinhas de gelo: a situação exigia-o e eu sou, acima de tudo, um profissional.

Hoje chegou-me, por e-mail, um texto de um autor amigo. Destina-se a publicação no mesmo livro e está sujeito às mesmíssimas regras que o meu. Antes sequer de o ter lido, deu-me ideia de ser demasiado pequeno, liliputiano até: mais ou menos 60 Kb, era o que pesava o anexo.

 

Estremeci com a ideia de contactar o desacautelado autor e, correndo o risco de lhe provocar uma síncope, dizer-lhe que seria necessário abandonar por completo os animais de estimação, a família, o mundo e, o que é pior, as sessões de hidroterapia para escrever, em dois ou três dias, seis ou sete vezes mais do que as 2544 palavras que ali se viam. Mas entretanto li o texto e a inveja falou mais alto. “Que se dane”, pensei—

 

Espere. “Palavras”?

Olhei de novo. À frente do número 2544 estava claramente escrito “palavras”. Pus-me branco, depois verde cinza e por fim de uma cor indeterminada que associo a algo saído da conduta muscular membranosa que vai da faringe ao estômago e a que alguém não tão mete-nojinho quanto eu daria o nome de “esófago”. E no entanto, eu podia jurar que, no local onde agora lia “palavras”, dantes se lia “caracteres”.

 

Abri o meu texto. Lá estava: 4718 palavras. Cliquei em “palavras” e abriu-se uma janelinha informando-me, entre receitas de sopa de peixe, previsões sobre o fim do mundo e outras coisas utilíssimas que o Word traz, que o meu texto ia já em 27 267 caracteres, espaços incluídos, que espaços também são uma espécie de gente e ocupam—aah—espaço.

 

Respirei como há dias não respirava, na sequência certa, inspira–expira, inspira–expira, sabe como é. Tratei do IRS, fiz umas festas à gata, peguei na tesoura e coloquei a impressão do texto à minha frente. E agora chegue-se para lá, melindroso leitor, cubra os olhos, cubra os olhos que isto vai ser um massacre.

Questões de género


Bandeira,

José Bandeira

A simpática inglesinha que mostra Monserrate aos visitantes trai a sua origem insular quando, usando de uma irrepreensível dicção coimbrã, deixa escapar “o fonte”. Eu tenho o mesmo problema com a mais antiga ponte, dita a velha, de Florença: custa-me dizer “o Ponte Vecchio”, que por aqueles lados “ponte” é substantivo masculino, onde é que já se viu tamanho disparate, uma ponte macho. A locução “a ponte velha” também não é lá muito elegante e pouco ou nada nos diz sobre o muito que aquela ponte é. Talvez o ideal seja fazer que se é inglês (diz que, em matéria de língua, eles pouco ligam ao sexo) e escrever simplesmente “em Ponte Vecchio”. Hmm.

 

Em 1944, as tropas alemãs em retirada tiveram um assomo de consciência: Ponte Vecchio, habituada a violências – muitos séculos antes, o brutal assassinato de Buondelmonte de’ Buondelmonti, quando este ali se preparava para atravessar o Arno, levara à escalada das hostilidades entre guelfos e guibelinos – foi a única ponte sobre o Arno que não dinamitaram, provavelmente por ordens do general a cargo das operações (embora haja quem, ignoro se com justificação documentada ou apenas vontade de dar face humana a Cila e Caríbdis, avente uma intervenção de Hitler). A alternativa, porque alternativa tinha que haver, foi devastar todas as construções contíguas às extremidades da ponte num perímetro de duas centenas de metros, mais centímetro, menos centímetro. O entulho que daí resultaria, calcularam, seria suficiente para retardar o inexorável avanço do inimigo e sempre haveria um crime a menos inscrito no sinistro livro de contas da II Grande Guerra.

 

Todas as outras pontes de Florença foram, depois dos anos 50, reconstruídas segundo a traça original; e o efeito é tão conseguido que até a patina – olhei de bem perto – parece genuína.

Florença de cima


Bandeira,
José Bandeira

Vê esse corredor que parece sair da parede, aí à direita, para depois levar as suas arcadas pelo lungarno e, após um cotovelo para a esquerda, seguir por sobre a ponte velha? Dante não chegou a vê-lo, ele nunca se levantava antes do séc. XIV e a coisa foi projectada apenas no séc. XVI por Vasari, a mando e expensas de Cosimo de Medici. A ideia era unir o Palazzo Vecchio, sede do governo, ao recém-adquirido Palazzo Pitti, na outra banda do Arno, onde Cosimo cismou que havia de botar residência porque tinha mais sol para as plantinhas dele. Passando por aquele corredor, os Medici eram poupados ao esforço de ter que abrir caminho por entre chatos mendigando-lhes um autógrafo ou uma camisola – ou adeptos das (muitas) equipas adversárias atirando-lhes isqueiros, garrafas de água natural sem gás e adagas mesmo muito afiadas.

Mais tarde, os açougueiros, que desde sempre haviam feito negócio na ponte velha, viram-se forçados a abandonar o local: gente delicada e sensível, os Medici não aguentavam o cheiro das vísceras e as imprecações dos magarefes. Desde então e até hoje, apenas inodora joalharia se vende nas lojas medievas sobre o Arno. O corredor de Vasari, esse, encontra-se encerrado; e de noite só ali passeiam, que eu saiba, os precários ectoplasmas da velha dinastia medicea.

Feliz Dia da Mãe Cruel


Bandeira,

Sucede por vezes que certas ideias incongruentes, por jamais nelas investirmos um pouco do nosso capital reflectivo ou as havermos absorvido em muito novos, se colam ao nosso cérebro, um pouco como cartões de crédito sem plafond às carteiras de administradores de empresas públicas. Por exemplo, eu recordava-me muito bem de haver habitado no 4º andar de certo prédio de Algés; eu nunca pusera em dúvida o facto de haver habitado no dito 4º andar do supracitado prédio de Algés; mas certo dia, passando de automóvel pela rua do tal prédio de Algés em cujo 4º andar me recordava de indubitavelmente haver habitado, e tendo eu partilhado esse importante dado autobiográfico com os restantes ocupantes da viatura, alguém chamou a atenção para a circunstância de o prédio em questão não contar mais que dois andares bem contados, verdade que, de coração apertado, atestei visualmente alguns segundos antes de ligar para o meu neurologista, não sem antes apreciar o facto de ainda haver alguém que presta atenção ao que eu digo.

 

Já ontem, debatia-se num pequeno círculo de amigos (mas podia ser uma elipse, não tenho a certeza de nada) a justeza ou injusteza de gémeos monozigóticos terem o mesmo direito ao casamento que os heterozigóticos. Lembrei-me de trazer à colação o caso da minha mãe e do meu tio M., ambos viúvos, logo ex-casados, “apesar de gémeos verdadeiros”. Então a sempre ladina A. arqueou uma sobrancelha, chegou o pé esquerdo um pouco à frente, olhou-me por cima dos óculos e lançou a terrível pergunta:

“Verdadeiros cooooomo, se um é homem e o outro mulher?”

Não precisei de mais que um segundo para perceber que havia repetido a estultícia do episódio do 4º andar. Eu não podia negar o óbvio sem entrar no domínio do absurdo, algo para o que estou, diga-se, permanentemente disponível, mas que na situação em apreço não colhia, uma piada no auge de uma tragédia é um erro de dramática. E no entanto, esse contra-senso científico vivera demasiado tempo à solta no vão do meu crânio para que eu aceitasse passivamente a brutalidade da revelação. Baldados os esforços da consciência para me levar a atirar a toalha ao betão, o meu subconsciente tentou ainda um pouco de luta e balbuciou uns dislates sobre genes, cromossomas, o Dragão de Komodo, Kim-Jong-Il, coisas assim.

Em queda livre e após uma última tentativa pouco empenhada de envolver a Mecânica Quântica e seus arcanos, decidi ligar para a minha mãe e fazer-lhe a pergunta, na esperança de um daqueles milagres de que só as mães são capazes. Ela podia, sei lá, confirmar a excepção dizendo simplesmente que “nem o médico conseguia perceber”, algo do género. Ou então, isso seria o mínimo, explicar-me de onde me podia vir esta ideia destrambelhada, confessar que me haviam pregado uma partidinha era eu criança. Mas ela nada, antes alinhou com as multidões ululantes:

“Que disparate, filho. Então se eu sou mulher e o meu irmão é homem, como é que havíamos de ser gémeos verdadeiros? Não tem lógica.”

Desta forma cruel destratado pela própria mãe, hoje venho adiando o telefonema e posterior visitinha do Dia da Cuja, para ela não pensar que, lá porque sou gémeo falso, não tenho sentimentos.