A simpática inglesinha que mostra Monserrate aos visitantes trai a sua origem insular quando, usando de uma irrepreensível dicção coimbrã, deixa escapar “o fonte”. Eu tenho o mesmo problema com a mais antiga ponte, dita a velha, de Florença: custa-me dizer “o Ponte Vecchio”, que por aqueles lados “ponte” é substantivo masculino, onde é que já se viu tamanho disparate, uma ponte macho. A locução “a ponte velha” também não é lá muito elegante e pouco ou nada nos diz sobre o muito que aquela ponte é. Talvez o ideal seja fazer que se é inglês (diz que, em matéria de língua, eles pouco ligam ao sexo) e escrever simplesmente “em Ponte Vecchio”. Hmm.
Em 1944, as tropas alemãs em retirada tiveram um assomo de consciência: Ponte Vecchio, habituada a violências – muitos séculos antes, o brutal assassinato de Buondelmonte de’ Buondelmonti, quando este ali se preparava para atravessar o Arno, levara à escalada das hostilidades entre guelfos e guibelinos – foi a única ponte sobre o Arno que não dinamitaram, provavelmente por ordens do general a cargo das operações (embora haja quem, ignoro se com justificação documentada ou apenas vontade de dar face humana a Cila e Caríbdis, avente uma intervenção de Hitler). A alternativa, porque alternativa tinha que haver, foi devastar todas as construções contíguas às extremidades da ponte num perímetro de duas centenas de metros, mais centímetro, menos centímetro. O entulho que daí resultaria, calcularam, seria suficiente para retardar o inexorável avanço do inimigo e sempre haveria um crime a menos inscrito no sinistro livro de contas da II Grande Guerra.
Todas as outras pontes de Florença foram, depois dos anos 50, reconstruídas segundo a traça original; e o efeito é tão conseguido que até a patina – olhei de bem perto – parece genuína.




É muito bom saber que as pontes de Florença foram reconstruídas de acordo com a traça original. Espero que não façam o mesmo com os trajes da ópera e do teatro, que a traça não perdoa…
Parafraseando o saudoso António Silva, elas até roem as sacas da naftalina.
Bem lembrado. Eheh…
Muito bom. Gostei da surpresa: saber que tb ‘traça’ caracteres de leitura… e não só comics 🙂 Continue com os 2!
Obrigado, Chloé, continuarei, sim. :o)