Cabelo ao vento


Bandeira,

Olhe o que diz o escritor irlandês Colm Tóibín ao JN de hoje:

 

“A Europa não precisou de Bruxelas para conseguir, durante séculos, a livre circulação de ideias. Tudo mudou quando os actuais burocratas chegaram ao poder. Tentaram convencer-nos de que a cultura não é importante, mas sim a livre circulação de capitais. Ainda por cima, todos têm péssima imagem e maus cortes de cabelo. As suas vidas espirituais não estão desenvolvidas. Cada vez mais, chego à conclusão de que estamos a ser regidos por gente com espíritos dissecados.”

Nunca li nada de Tóibín (vou ler, vou ler), mas estou de acordo com tudo – em particular com a parte dos maus cortes de cabelo. Era tempo de alguém dizer isto a Durão Barroso. Sem medos. Cabelo ao vento.

20 comentários em “Cabelo ao vento”

  1. E as gravatuchas, Tóibín, as gravatuchas monocromáticas. Sobre camisas que constrastam com o negrume que ressalta daquelas almas e tombam irremediavelmente nas directivas anti-culturais.

  2. Caro Bandeira,
    E já que aqui se aprende a escrever bom português…!!! atrevo-me a «corrigir» Tóibín e em vez de dizer espíritos dissecados diria espíritos secos. Já deram o que tinham a dar…
    Abraço
    João

    1. Caro João, o meu entusiasmo pela dissecação de burocratas de Bruxelas só encontra paralelo no que sinto pelas couves homónimas e pelo “curling”, aquele magnífico desporto… eh… hiperbóreo. [eu tossindo] Não, espere, o “curling” é mais entusiasmante, mas as couves de Bruxelas não, essas não. Começo a sentir-me confuso, mas sei (tinha escrito isso num papelinho antes de começar a responder) que concordo plenamente consigo. Um abraço para si também.

    1. E eu é que estou a ser mauzinho :DDD
      Pois fica sabendo, preclara Ana, que este poste é, todo ele, movido a inveja: a inveja de quem, como eu, todos os dias vê os parcos cabelos grisalhos do cocuruto agonizando no remoinho do escoador da banheira enquanto aquele cujo nome me recuso a pronunciar, mais velho alguns 500 anos que eu, se passeia com uma rija cabeleira negra. Houvesse justiça!

  3. Pertinente reflexão: livre circulação de capitais vs. livre circulação de ideias. A ideias acorrentadas a uma lógica capitalista, que delas se aproveita e se alimenta e que cerceia o espírito.
    É, talvez o cabelo ao vento seja a solução para o apaziguamento da dita dicotomia…!

    1. Aqui entre nós, Sílvia: não sei se percebi o que ele disse (sou um ignorante de primeira água), mas achei que o mínimo que devia ao homem, depois daquela da má figura e dos penteados, era dizer que concordava com tudo. Já descarreguei o último livro dele para o Kindle: depois direi se continuo concordando ou se, pelo contrário, fui mal interpretado.
      ;o)

      1. Hum…ignorante não sei…mas solidário é!
        Aqui entre nós, parece-me que interpretou bem. Repare:
        1. Um bom corte de cabelo favorece a circulação do ar e logo uma refrigeração aprimorada das ideias;
        2. Por outro lado, convém não esquecer as consequências desastrosas de um mau corte de cabelo na auto-estima; desencadeia uma espiral de pensamentos negativos e de autodestruição, que só podem ser travados pelo recurso ao capital em abundância, e que não favorecem a livre circulação de ideias;
        Mas não só!
        3. Um cabelo mal “amanhado” vai desencadear no dia-a-dia do indivíduo reacções adversas por parte da comunidade envolvente (feminina…leia-se, principalmente), o que (claro!) acentua a vivência negativa acima referida decorrente do facto de ainda não ter despedido o espelho do wc (sempre que está prestes a acontecer, um assomo de esperança apodera-se dele, dando-lhe falsas expectativas…um ingénuo); impreterivelmente mergulha o nosso homem num estado de depressão não controlável que aniquila por completo a circulação livre das ideias e que só pode ser contrariado pela livre circulação de capitais que tão agradáveis reacções causa!
        Ora, resumindo e concluindo, circulação de capitais, circulação de ideias e corte de cabelo são três realidades intimamente relacionadas e com efeitos recíprocos da extrema importância.
        De qualquer modo, irei gostar de saber acerca da sua dis/concordância. 😉

        1. Sílvia, que dizer? Eis-me esmagado. Li três vezes e concordei com todas. Proporei a elevação do seu comentário à categoria de ensaio… que digo? Ensaio? Tese de doutoramento!
          Ah, e adorei esse “reacções adversas por parte da comunidade envolvente (feminina…leia-se, principalmente)”. A mais bela pérola de um colar perfeito. ;o)

          1. Ehehe!
            Esse “Li três vezes (…)” deixa-me algumas dúvidas… Os botões que me acompanham saberiam dizer porquê. Não os incomodemos! A sua condição de botões não lhes permite tais veleidades.
            E, afinal, trata-se apenas de certezas ausentes, que não fazem ruído.
            😉

  4. Eu não tenho a certeza de estar de acordo com tudo (o que significa exactamente terem tentado convencer-nos de que a cultura não é importante?) mas, apesar de só ter lido «O Navio-Farol de Blackwater», confirmo que ele escreve mesmo muito bem.

    1. No Bloomsday do ano passado, assisti a uma representação no S. Luís supostamente evocativa do Ulisses de Joyce. Fui para lá convencido de que falo mais e melhor inglês do que qualquer londrino e de que o actor declamaria o seu monólogo com, vá, um poucochinho de sotaque. Infelizmente, se percebi 30% do que ele disse, foi muito. Desde então, e excepção feita ao Bushmills, tenho muito cuidado quando digo que concordo ou discordo de um irlandês. ;o) Mas que fazer, o homem arrebatou-me com aquilo do cabelo. E quanto à escrita (que a mim, confesso-o, é o que mais me interessa), obrigado pela dica, começarei pelo Brooklyn e depois talvez leia esse.
      Abraço, jb

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