Deus existe, eu não


Bandeira,

José Bandeira

O editor pedira-me algo entre um mínimo de 12 000 e um máximo de 20 000 caracteres. Pelos números, não precisei de muito tempo para deduzir que não estava a falar de bonecos. Comecei o texto alguns dias atrás. Até à madrugada de hoje, pelas duas da manhã, havia sangrado apenas 4718 caracteres. Parecia-me pequenito, o número, para tanto texto. Mas sei como o tamanho dos tipos de letra e das entrelinhas, o nível de zoom, o grau de embriaguez e pormenores técnicos do género alteram a nossa percepção das coisas. Não é o mesmo que escrever num linguado de 80 por 25 (preferia não revelar a minha idade desta forma, mas nada a fazer). Percebi que, tendo em conta os outros compromissos, todos eles inadiáveis, iria ser muito difícil cumprir os prazos sem passar algumas noites em claro. E fui tomar um ansiolítico com um pingo de uísque irlandês e duas pedrinhas de gelo: a situação exigia-o e eu sou, acima de tudo, um profissional.

Hoje chegou-me, por e-mail, um texto de um autor amigo. Destina-se a publicação no mesmo livro e está sujeito às mesmíssimas regras que o meu. Antes sequer de o ter lido, deu-me ideia de ser demasiado pequeno, liliputiano até: mais ou menos 60 Kb, era o que pesava o anexo.

 

Estremeci com a ideia de contactar o desacautelado autor e, correndo o risco de lhe provocar uma síncope, dizer-lhe que seria necessário abandonar por completo os animais de estimação, a família, o mundo e, o que é pior, as sessões de hidroterapia para escrever, em dois ou três dias, seis ou sete vezes mais do que as 2544 palavras que ali se viam. Mas entretanto li o texto e a inveja falou mais alto. “Que se dane”, pensei—

 

Espere. “Palavras”?

Olhei de novo. À frente do número 2544 estava claramente escrito “palavras”. Pus-me branco, depois verde cinza e por fim de uma cor indeterminada que associo a algo saído da conduta muscular membranosa que vai da faringe ao estômago e a que alguém não tão mete-nojinho quanto eu daria o nome de “esófago”. E no entanto, eu podia jurar que, no local onde agora lia “palavras”, dantes se lia “caracteres”.

 

Abri o meu texto. Lá estava: 4718 palavras. Cliquei em “palavras” e abriu-se uma janelinha informando-me, entre receitas de sopa de peixe, previsões sobre o fim do mundo e outras coisas utilíssimas que o Word traz, que o meu texto ia já em 27 267 caracteres, espaços incluídos, que espaços também são uma espécie de gente e ocupam—aah—espaço.

 

Respirei como há dias não respirava, na sequência certa, inspira–expira, inspira–expira, sabe como é. Tratei do IRS, fiz umas festas à gata, peguei na tesoura e coloquei a impressão do texto à minha frente. E agora chegue-se para lá, melindroso leitor, cubra os olhos, cubra os olhos que isto vai ser um massacre.

8 comentários em “Deus existe, eu não”

  1. Ehehehe…
    Curiosa a forma espantosa como descreveu aquela situação (e a sucessão de sensações que lhe subjazem) pela qual todos nós de certo já passámos por um ou outro motivo. A sensação de alívio é simplesmente libertadora, sim!

    1. A minha filha pergunta-me, sempre que faço uma destas e ela lê o texto no blogue: “Mas isto aconteceu-te mesmo?”, e a resposta, invariável, é “Sim”. Cada vez mais, “Sim”. ;o)

      1. É um original fazedor de histórias em que se atribui espontaneamente o papel principal. Está visto! 🙂

  2. Ah, que alívio! Estava a ver que não ias ao nosso jantar por causa dessa mania picuinhas de escrever caracteres por encomenda. Quando acabar o massacre, aparece. (mas leva a tesoura, que é um acessório essencial para uma reunião de delituosos…)
    🙂

    1. Até me deu uma insónia, Ana, adormeci passava das duas e às seis já estava a pé. Mas logo lá estarei, espero que bem acordado e com a tesoura de podar na mão.

  3. Primeiro, este texto é uma frescura. Depois, tu és mesmo um profissional. Sabes há quanto tempo eu não ouvia (e menos ainda lia) “linguado”? Senti a vida recuar. Venha de lá a tesoura para abrir a fralda, que eu não me dou bem com alfinetes-bebé.

    1. Eu diria que há mais de quinze, talvez vinte anos, João. Quiçá mais ainda (aposto que o Pedro odeia a palavra “quiçá” 😀 ).
      Era tão giro, o ambiente nas redacções. “Que tamanho tem isso?”
      “Seis linguados.”
      “Corta dois.”
      “Chato de *****.”
      “Vai tu”, etc.

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