Vê esse corredor que parece sair da parede, aí à direita, para depois levar as suas arcadas pelo lungarno e, após um cotovelo para a esquerda, seguir por sobre a ponte velha? Dante não chegou a vê-lo, ele nunca se levantava antes do séc. XIV e a coisa foi projectada apenas no séc. XVI por Vasari, a mando e expensas de Cosimo de Medici. A ideia era unir o Palazzo Vecchio, sede do governo, ao recém-adquirido Palazzo Pitti, na outra banda do Arno, onde Cosimo cismou que havia de botar residência porque tinha mais sol para as plantinhas dele. Passando por aquele corredor, os Medici eram poupados ao esforço de ter que abrir caminho por entre chatos mendigando-lhes um autógrafo ou uma camisola – ou adeptos das (muitas) equipas adversárias atirando-lhes isqueiros, garrafas de água natural sem gás e adagas mesmo muito afiadas.
Mais tarde, os açougueiros, que desde sempre haviam feito negócio na ponte velha, viram-se forçados a abandonar o local: gente delicada e sensível, os Medici não aguentavam o cheiro das vísceras e as imprecações dos magarefes. Desde então e até hoje, apenas inodora joalharia se vende nas lojas medievas sobre o Arno. O corredor de Vasari, esse, encontra-se encerrado; e de noite só ali passeiam, que eu saiba, os precários ectoplasmas da velha dinastia medicea.


Muito bom.
Obrigado, João, e os ectoplasmas dos Medici também agradecem (pareceu-me ouvi-los).
Pudera. Habituaram-se a assombrar aquela zona e agora ninguém os cala.
Inodora joalharia, ó insensível Bandeira?? Ora essa! Pelo contrário, ali cheira-se beleza de uma ponta à outra da ponte. E calor humano também. I diamanti sono i migliori amici di una ragazza…
És uma serva do capitalismo, é o que és.
Mea culpa, mea massima culpa.
(Mas também quem te manda trazeres para aqui Florença-de-cima, que só apela ao luxo? Se ao menos fosse Queluz-de-baixo…)
Não foste tu que trouxeste, foi o Bandeira. Baralhei-me com as jóias.
Sobra sempre p’ra mim, nem que seja por engano.
Hoje estás Calimero?
João, percebi mal, ou existe uma remota possibilidade de que a Ana nos estivesse a chamar “jóias”? Hmm… ná, já ninguém hoje faz elogios bonitos e subtis como esse.
Não percebeste mal, era isso mesmo o que eu queria dizer. Duas jóias do DO, infelizmente sem registo de aquisição legal e por isso pouco vendáveis. Mas ficam muito bem penduradas ao pescoço ou nas orelhas deste blogue!
Vendável??? Eu?!? Que achas, Bandeira?
Se me pendurar ao teu pescoço é para te esganar! A não ser que eu esteja em dia-sim…
Aqui para nós, de quantos quilos estamos a falar…?
LOL
Davvero, Ana, davvero, e tenho fotos que o provam: o adjectivo não era derrisório. Um deslumbre. E as lojas em si, se não são adamantinas, nem por isso são menos belas que os diamantes, apenas mais chatas de pendurar ao pescoço ou nas orelhas.
Um derrisório amarelo também fica sempre bem num anel, ladeado por duas adamantinas azuis.
🙂
Um derrisório e duas adamantina? Isso cheira-me a ‘ménàge à trois’.
Hmmm. Sim, acho que consigo imaginar o efeito. ;o)