Bandeira de Papel
Bandeira,
Sei que há muito quem não goste de petições, portanto aqui vai uma que me é particularmente cara (tempo é dinheiro e tal): a “Petição em defesa da Missão do Jardim Botânico e da sua sustentabilidade ambiental, social e económica a longo prazo. Revisão imediata do Plano de Pormenor do Parque Mayer, Jardim Botânico, Edifícios da Politécnica e Zona Envolvente”. Apesar do nome, é uma Coisa Boa. Funciona assim: o leitor, cómoda e rapidamente, assina; os responsáveis, alertados, apercebem-se de que existem muitas pessoas preocupadas com o que eles estão a planear fazer na zona do Parque Mayer e Jardim Botânico; por fim, lavados em lágrimas, arrependem-se e alteram os seus pontos de vista, salvando as árvores e outras plantas nossas amigas (tirando os cardos, os escoceses que se ralem com eles, e as urtigas, agora assim de repente não me lembro de mais nenhuma) de um destino cruel.
Dizem que para compreender um homem devemos andar um quilómetro com os seus sapatos. É uma posição filosófica razoavelmente segura: se ainda assim não o compreendemos, estamos a um quilómetro de distância e temos os sapatos dele.
Na contracapa de um livro que tenho em mãos (não importa que livro, é sobre sexo, ok?), pode ler-se (tradução caseira, realçados meus):
“UMA EDIÇÃO DOVER CONCEBIDA PARA ANOS DE USO!
Não nos poupámos a esforços para fazer deste o melhor livro possível. O nosso papel é opaco, com um grau de transparência mínimo; não descolorará nem ficará quebradiço com o tempo. As páginas são encadernadas em fascículos, no método tradicionalmente usado para os melhores livros, e não se separarão. Os livros permanecem facilmente abertos para eficaz consulta. A capa não criará fendas nem se destacará. Este é um livro permanente.”
Emocionei-me, chorão leitor. Examinei demoradamente a capa. Assentei o volume numa mesa para averiguar se era capaz de se manter aberto num local contendo a reprodução de uma foto… ahm… interessante. Estudei a lombada, a textura das folhas, a sua opacidade. Lembrei os tempos, não tão longínquos assim, em que o papel era fabricado a partir de algodão ou linho: na I Grande Guerra, Londres ainda pedia roupa velha para o fabrico de panfletos e qualquer outro produto que contribuísse para o esforço de guerra, como mortalhas de cigarro e cartas de jogar. A coisa durava os conflitos regionais e mundiais que fosse preciso.
Depois, a celulose; e com ela, o papel de desgaste rápido. No processo, alterou-se o carácter das nossas florestas e fauna. Simpáticos koalas preguiçam hoje um pouco por todo o nosso lindo país de eucaliptos (ninguém os vê, mas isso é porque serão koalas, mas não são parvos). Papel feito a partir do pinheiro possui razoáveis qualidades, mas a nobre árvore leva o seu tempo a crescer; eucalipto é bem mais rápido. Não, tem toda a razão, experimentado leitor, de facto o papel não fica tão bom, mas isso é coisa para as crianças mais tarde terem alguma coisa para resolver para além do défice, da Segurança Social ou das alterações climáticas, não queremos que fiquem com a vida demasiado facilitada, queremos? Por todas as vezes que nos obrigaram a levantar da cama às quatro ou cinco da madrugada, não, um categórico NÃO.
Enfim, se acha que vale a pena deixar uma pequena biblioteca aos rebentos mas não tem espaço e a vizinha do lado não permite que instale mais estantes em casa dela, reflicta um pouco. Há por aí uns discos baratos que levam monstrabytes de livros digitais e duram, quê?, uma eternidade (desde que mantenha os seus filhos longe do teclado e o Universo não seja finito). E não me venha com a conversa de que não consegue ler num computador. Livros digitais podem sempre ser passados a papel. Pelo menos os que não estão protegidos contra impressão por essas empresas amigas do… eh… meio ambiente, digamos assim.
—–
Nota: Scott Vile (quem é Scott Vile? Não faço a mínima ideia) leu um panegírico muito parecido com o meu mas parece ter os “livros permanentes” da Dover em não tão boa conta (perdoe o litotes, mas é perfeitamente legal: já passa das cinco da tarde).
Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.
«A distinção social entre um autor e um escritor está bem retratada numa passagem de Aristófanes (A Paz: 1052-1119). Hierocles, trazendo a cabeça coroada com folhas de louro, aproxima-se de Trigueu e do seu escravo, que pergunta: “Quem raio pode ser este tipo? Parece um charlatão. Será um escritor?” Então Trigueu responde: “Não, por Zeus, é Hierocles de Oreus, o autor” (o itálico é meu, mas empresto). Por esta passagem (e por muitas outras, mas sou um académico fiel), dir-se-ia que a actividade de autor era mais prestigiante do que a de escritor. Tanto quanto podemos perceber, a graça – forçosamente datada, porque não tem graça – parece estar em que, na vida real, Hierocles jamais se teria referido a si mesmo como “um escritor”.
Por razões que não sabemos esclarecer por completo, os escritores quase desaparecem dos registos históricos após 413 a.C. É provável que o seu prestígio estivesse já em declínio, mas a machadada final foi certamente dada pelo fracasso da expedição ateniense à Feira de Frankfurt desse ano e a subsequente capitulação de Atenas, em 415 a.C., na Guerra do Peloponeso (Flower).
Gostaria de prosseguir a minha intervenção alterando ligeiramente o rumo e anunciando que estou a ler isto trazendo por baixo das calças uns calções de spandex.»
Escava a escavadora uma vala no areal da Nazaré. É sinal de que o Oceano acordou. Basta ver – e ouvir – o estardalhaço que faz. O velho pertence à estirpe dos titãs, que aliás traiu. No curso da guerra que em má hora o seu clã travou contra os olímpicos, fez saber que estava no Met (onde qualquer comunicação com o exterior é impossível durante os espectáculos) assistindo a uma coisa qualquer de Strauss. O diplomático gesto permitiu-lhe, finda a contenda, manter um domínio mais ou menos tácito sobre o Atlântico e outras águas então mal conhecidas ou desprezadas. A Poseidon, espécie de político medíocre e sem visão de futuro, bastava-lhe o Mediterrâneo. O único mar que, de qualquer forma, ele entendia. O Mediterrâneo que falava grego.
Olho para as altas vagas que a qualquer instante ameaçam, entre os oooohs e os aaaahs dos turistas de câmara em riste, levar a água salgada até à estrada marginal. O velho Oceano nem sequer pode justificar-se dizendo que se limita a cumprir ordens. Todos os anos assim, pronto, que é que se há-de fazer, e a gente da praia a perdoar o mau feitio ao paleco.
Cabia-me nomear o Blogue da Semana. Abri a Internet, coloquei o dedo sobre uma página e saiu-me o Rua da Abadia, da Rita F.
Agora diga lá se isto não foi sorte.
Não sei dizer como começou. Talvez com um pingo de papa no bibe da creche. Ou uma colher de sopa tocando o babete. Não importa. O que importa é que não me é possível sair de qualquer lugar onde sirvam refeições com a camisa ou a t-shirt na condição em que estava quando entrei. Resumindo, atraio as nódoas de toda a gente em redor de mim.
Sou capaz de produzir uma mancha indelével munido apenas de uma pevide ou usando um pingo de água mineral. E ao contrário do que o nome sugere, crédulo leitor, os tira-nódoas, pelo menos os dos restaurantes, não tiram nódoas. Pelo contrário, eles convertem o mais insignificante pontinho de molho de escabeche num gigantesco halo impossível de remover sem recurso a lixívia ou ácido sulfúrico. O objectivo, julgo, é disfarçar a nódoa criando uma outra substancialmente maior.
Com o tempo, desenvolvi a minha técnica e comecei a criar nódoas com a forma de manchas Rorschach. Isso fazia as delícias da mesa, sobretudo se estavam psicólogos presentes (o que, por motivos que agora não cabe mencionar, sucedia com frequência). Hoje sou capaz de produzir espécimes que, analisados à lupa, reproduzem – dependendo do tipo de alimento – quadros de Tiepolo ou os mármores de Elgin. Quando as nódoas se acumulam – por exemplo, em casamentos, tomadas de posse de governos e outras ocasiões sociais –, os padrões podem tornar-se muito complexos. Nessas alturas, fico muito parecido com um papel de parede vitoriano ou um Raul Meireles sem roupa.
A dada altura da minha vida, decidi utilizar esse meu tremendo poder em prol da Humanidade. Escolhi um nome que não chamasse a atenção, “Cark Klent”, como identidade secreta e passei a entrar em restaurantes, tasquinhas e casas de pasto sempre que sinto um espacinho disponível no estômago. Ok, engorda um pouco, mas não há nada que pague a satisfação de contemplar a roupa imaculada da restante clientela à medida que a minha se enche de nódoas. Isso pode ser um pouco chato porque tende a afastar os amigos, mas presto um serviço à comunidade e antes super-herói com manchas de bom tinto na camisa que um que use daquelas roupinhas apertadinhas em lycra, como o Super-Homem ou os ciclistas da Marginal.
Mesmo em Portugal, a experiência de conduzir ouvindo uma senhora a gritar “PORCA! PORCA!” na faixa do lado tem o seu quê de aviltante. Sobretudo quando se possui carta há apenas duas ou três semanas, como sucede com a minha filha. Se eu teria ficado incomodado, imagine a menina, para mais estando o automóvel dela tão lavadinho. Que canhestra manobra poderia ter levado uma senhora com ar de quem esteve presente na inauguração do Martinho da Arcada a comportar-se como um motorista de táxi do aeroporto de Lisboa a quem houvessem pedido uma corrida para, sei lá, a Portela de Sacavém?
A idosa acabou por mudar de direcção e o meu trémulo rebento lá seguiu o seu caminho, procurando controlar os nervos e retirar algum sentido de tão afrontoso trato por parte da colega automobilista. Eis senão quando outro condutor se lembrou de abrir o vidro eléctrico do lugar do passageiro do carro dele e gritar: “PORCA! PORCA!”.
Há que admiti-lo: seria de mais até mesmo para mim, que já conduzi em Itália (aqui o leitor estremece). Aterrorizada, a menina ponderou encostar o carro à berma, ligar os quatro piscas, vestir o colete, colocar o triângulo à distância regulamentar – perdoemos-lhe essas ingenuidades, praticamente acabou de tirar a carta – e pedir boleia para o resto do caminho. Parecia-lhe tão mais seguro. Foi aí que o olhar dela se prendeu na porta. “Não estava muito bem fechada, pai”, disse-me com aquela candura que me dá sempre vontade de a fazer co-titular da minha conta bancária.
Então expliquei-lhe como em finais do séc. XIX ficou cientificamente provado que algumas consoantes, a uma velocidade superior a 40 Km/h, são difíceis de discernir quando gritadas de um outro objecto em andamento a mais de quatro metros de distância (ficou também provado que, a velocidades acima de 50 Km/h, os ocupantes das viaturas explodem; o mesmo sucedendo debaixo de água, mas por motivos completamente diferentes. A explicação não tem aqui cabimento porque é demasiado técnica e deixa tudo numa imundície).
A menina, eu nem precisava de o dizer, ficou muito contente. Até porque, não se tratando propriamente de um elogio, a locução “PORTA! PORTA!” está longe de poder ser classificada como injuriosa. Em tribunal, renderia quando muito um double cheeseburguer. Em todo o caso, sei-a agora muito mais preparada para outro tipo de locuções, quiçá não tão coloridas mas bem menos simpáticas, como “És ceguinha ou quê, pá?” ou “Os seus documentos, por favor”.
Leve sempre um livro para a farmácia. Dão prioridade a casos urgentes.