Eiafeméride


Bandeira,

Há precisamente trezentos anos, o alemão Händel estreava a ópera italiana Rinaldo num palco inglês. O clip em baixo é do filme Farinelli, de Gérard Corbiau (se tem mesmo de saber, belga). Quem cantou esse Lascia ch’io pianga na estreia de 24 de Fevereiro, contudo, não foi o idolatrado castrato italiano, mas uma tal Isabella Girardeau; um estrondo, apesar das críticas mete-nojinho nos jornais do dia seguinte.

Almirena, filha do Godofredo – o líder baixinho da Primeira Cruzada, o leitor lembra-se – canta o seu desgosto por as coisas não estarem a correr muito bem com o namorado, o valente cruzado Rinaldo, sobre cujas largas espaldas se joga o sucesso (na verdade, foi um massacre) do cerco e subsequente assalto a Jerusalém. Não me peça para explicar a roupinha. O pavão, esse é autóctone da Terra Santa. Ou então eles levavam para lá – sabe, para dar um pouco de cor ao deserto.

Mas o que importa mesmo é o parabéns a ele, ao Händel, quero dizer, e ao Rinaldo também.

 

Pensamentos do Exílio


Bandeira,

Não sinto grandes melhoras com as lentes progressivas. O mundo continua igual.

Não ando desaparecido, apenas tenho dias em que não acredito em mim.

Sou tão céptico que não acredito em S. Tomé.

Deus fez o mundo em apenas seis dias. Não é estranho? Porquê tanta pressa?

O ateu prudente usa chapéu.

Sartre, vá lá dizer numa perfumaria que a existência precede a essência.

Espiral é uma recta vivendo em clima muito húmido.

Rica galinha, põe ovos de Fabergé.

Todo o suburbano é um excêntrico.

Sempre quis ser autodidacta, mas nunca havia alunos suficientes para formar uma turma.

Mantenha a cabeça fria e ela durará mais tempo.

Ninguém com dois dedos de testa usa um boné com pala.

Não perder a cabeça é importante, em particular se já não se é uma pessoa alta.

Impressão: Sol Nascente


Bandeira,

“O John Locke acha que o povo detém sempre o direito de derrubar um governo injusto e repor o seu estado de liberdade original”, disse Camille. Ela vinha acompanhando com paixão, pela Internet, os acontecimentos no Oriente Médio. “Ele diz que numa revolução justa o verdadeiro fora-da-lei é o governo, não o povo”.

Claude Monet não se deixou impressionar. Como Hobbes, tinha pouca fé nesse estado de liberdade original. “E então? Nada de novo debaixo do Sol. Vou pintar. Há um salgueiro que…”. “Mas o que há de novo aqui é esse ‘o povo’, Claude!”, entusiasmou-se Camille. “Até o John publicar o tratado dele, houve muito quem defendesse o direito à revolta – desde que não partisse da rua”.

“Mas todos os governos, de uma forma ou de outra, são injustos, ma belle. Se isso fosse o suficiente para justificar a revolução, o que impediria as massas de se rebelarem por dá-cá-aquela-palha? Seria impossível tomar um absinto no café ou uma carruagem a horas”, brincou Claude, tentando aliviar a tensão. Camille tomou-lhe as mãos papudas. “O John diz que o povo não é assim tão revolucionário. Que só mesmo após uma longa sucessão de abusos um governo corre o risco de ser deposto pela rua. Olhe o que está a acontecer no Egipto, meu querido. Há trinta anos que esse Mubarak vem esticando a corda”. Monet cofiou a longa barba. “É certo que os egípcios tiveram uma paciência de múmia”, admitiu. “Mas suponha que instalam ali um regime pior ainda do que o actual, uma teocracia, sei lá. Que dirá o seu amigo John então?”. “Se isso acontecer, o povo terá mais uma vez o direito de se revoltar”, respondeu Camille, olhando um ponto indefinido para lá da janela. “Nem que seja apenas daqui por outros trinta anos”.

Claude fez que sim com a cabeça. Achou-se tonto por imaginar que a mulher pudesse ter um caso com Locke: demasiada diferença de idades. Depois veio-lhe à mente o que Cioran escrevera sobre como não existem mudanças de regime, apenas de polícia, mas não disse nada. Camille deu-lhe um beijo apressado e voltou para o portátil. Então ele calçou as galochas, colocou o chapéu e saiu para pintar nenúfares.

As nuvens


Bandeira,

Vai-se ao campo e não se tem electricidade. Aprende-se que é porque caiu um raio muito grande mesmo no centro da aldeia. O leitor não quereria estar por perto de um acontecimento como este. Para lhe dar uma ideia de quão perturbador pode ser, numa área de cinco metros em redor teria sido muito difícil usar o seu telemóvel.

Por uma vez, é bom não ter de culpar o governo. Mas o homem que ficou com a casa destruída não concorda. Ele acreditara que um raio saberia distinguir um pára-raios das suas góticas antenas de TV. Quer muito poder imputar responsabilidades a alguém (isso revela, é claro, um desejo reprimido de dormir com a mãe e matar o pai). Mas quando é assim, diz o senhor da luz que vem dar apoio psicológico e substituir o disjuntor, quando é assim, quer dizer, a Natureza ou Deus ou seja lá quem for que lança os raios, é muito difícil: eles alegam causas naturais e pronto.

Agora já há electricidade no campo. Dou graças. Uma hora sem energia numa noite glacial, aqui, é equivalente a cinco horas de uma actividade divertida, como a lipoaspiração ou um telefonema de marketing. E para o raio também não deve ser fácil. Já pensou? Ele tem tão pouco tempo para si.

Mínimas


Bandeira,

A ponte mais longa não é a da baía de Hangzhu ou a de Niterói ou a Vasco da Gama. A ponte mais longa é a que liga o lugar onde não mora ninguém ao lugar onde ninguém quer ir.

Conto curto


Bandeira,

Um Homem Seguro de Si passeava pela avenida e pensava para com os seus botões: “Um Arquitecto Famoso desenhou-me a casa; um amigo, Designer de Interiores, mobilou-ma; visto apenas a roupa que um Estilista Premiado desenha para mim e não como senão em restaurantes aconselhados pelo meu mordomo. Sou finalmente uma Pessoa de Bom Gosto”.