Too old to rock’n’roll, too young to die


Bandeira,

(…) Em Abril de 1904, o cofre do Lazybones National Bank and Fiduciary Trust Co., de Illville, Illinois, foi arrombado. Se ali houvesse algo digno de ser roubado, teria sido fácil fazê-lo. Na verdade, o cofre não continha mais do que cem acções da Goldman Sachs, e os ladrões, em vez de as levarem, juntaram-lhes mais duzentas acções que traziam com eles. Depois fugiram, deixando o banco entalado com trezentas acções em vez de apenas cem. (…)

(Robert Benchley, Tell-Tale Clues, 1930, tradução caseira)

Do Simbólico


Bandeira,

Lisboa, cinema São Jorge, “Encontros para uma Esquerda Livre”. Um homem nos seus sessenta, camisa vermelha, magro e de cabelo desalinhado, coloca uma cabeça de alho no chão, ao lado da sua cadeira. A todas as intervenções ele assiste em silêncio. No fim, levanta-se, pega na cabeça de alho, coloca-a numa pasta que trazia consigo e sai.

“Eles comem tudo”, há-de estar a pensar.

Dos Gregos


Bandeira,
José Bandeira

Voidokilia, Messénia, Grécia. Águas jónicas. Perto daqui, homérico Nestor ergueu o seu palácio – ainda lá está, foi uma emoção visitá-lo. Por serem menos sofisticados do que nós, poderia pensar-se que os micénicos tomariam poucos banhos e em polibãs de plástico. Erro: a casa de banho de Nestor ostenta banheira de pedra decorada. O magnífico lar do rei Minos, em Creta, deu uma ajudinha a Ventris e Chadwick no processo de decifração do Linear B; mas foi no pequeno palácio da Messénia que mais de 4 mil tabuínhas permitiram aos dois homens concluir, sem qualquer espécie de dúvida, que a língua grega tinha as suas raízes ali. O “grego” da Ilíada era antepassado do grego. Sem aspas.

Um quilómetro e meio para Sul, a Baía de Navarino, onde aconteceu a última grande batalha naval entre veleiros (envolvendo russos, ingleses, franceses e otomanos). Dois milénios e meio antes, quando o local tinha o nome menos veneziano de Pylos (hoje ainda por ali está uma cidadezinha assim chamada), hoplitas espartanos entregaram-se vivos pela primeira vez na sua história, encurralados pela armada ateniense na ilhota de Sfakteria. Olhe para a foto: pode ver a ilha, ofídica, na linha do horizonte. Desonra e vergonha. A Guerra do Peloponeso podia ter acabado ali, mas tanto não cabia nas contas das Moiras. Atenas tinha crescido bicéfala. Um palácio de Cultura para todos os gregos; e um monstro imperialista que os restantes helenos, aliados incluídos, abominavam.
 
(Foto José Bandeira)

O problema com as fotos de miradouro


Bandeira,

Foto José Bandeira

O problema com as fotos de miradouro é serem tão… bom… fotos de miradouro, não é? Para se conseguir uma panorâmica verdadeiramente original de uma cidade há que encontrar um ponto de observação virgem, e todos sabemos o quanto eles são raros nos dias que correm. Arriscar a sua vida (ou pior ainda, a sua câmara) subindo a árvores altas ou atravessando rios tumultuosos não é verdadeiramente uma opção após os 45 (querendo com isto dizer que os seus entes queridos iriam sentir a sua falta durante pelo menos um dia ou dois, e se não tem entes queridos aos 45 é porque não está vivo, de qualquer forma). A melhor opção é, assim, colocar algo de verdadeiramente interessante em primeiro plano, como um guarda-chuva colorido ou um elefante. Infelizmente, as lojas estavam fechadas e os zoos indisponíveis quando tirei esta foto de Cuenca, Espanha.

Pára com isso, Millôr, vai


Bandeira,

A Cioran, o homem que elevou o pessimismo à categoria de arte, perguntaram certa vez por que razão, se a vida lhe era assim tão insuportável, não acabava com ela de uma vez por todas; ele respondeu, com o habitual pessimismo, que “do outro lado” era capaz de ser ainda pior.

 

Se pode ser ainda pior, sei lá eu se não é pelo menos um pouco melhor. Daí não ser dado a homenagens póstumas. O falecido passaria a eternidade a gozar-me, repetindo o meu discurso enternecido para depois rir muito por nunca me ter devolvido aquele dinheirinho que me devia e tal. Desta forma poderei olhá-lo nos olhos – ou em lá o que é que sobra nessas circunstâncias, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino não são completamente coincidentes no assunto – e dizer “Eu sabia que você estava a brincar” e rir-nos-emos muito e faremos libações, porque nesse outro mundo os comuns dar-se-iam com os génios e vice-versa.

 

A excepção é, naturalmente, Millôr: imagino que ele odiaria sentir-se homenageado por mim. E depois, tenho em incomum com ele (em Millôr nada havia de comum) o facto de termos trabalhado para o mesmo vespertino português, o Diário Popular, com a distância temporal de mais de uma vintena de anos. Claro, ao passo que ele fazia aumentar as vendas, eu estive presente no enterro do diário – mas qualquer responsabilidade que eu pudesse ter nisso já caducou, vire para lá esse seu olhar de vampiro.

 

Para terminar (antes que me torne mesmo, mesmo sentimental): o meu exemplar de “Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos” foi comprado na Poesia Incompleta, que como todos sabem acaba de fechar.

 

Como Millôr: sem dívidas.

Cadáver esquisito (5)


Bandeira,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR

5

IN VINO VERITAS

 

João Cosme dedicou algum do seu tempo à leitura de Wise Blood. A história do cágado não lhe saía da ideia. “Se o sonso do Eduardo tiver a razão que assiste aos simples e aquilo que busco estiver mais perto do que eu pensava, o que há a fazer é parar e ficar atento ao que se passa à minha volta”, decidiu. Fechou o livro sem se preocupar em marcar a página. “Wise blood” era, para um dos personagens de O’Connor, o conceito algo irreligioso de que algumas pessoas nascem já equipadas com um instinto orientador do rumo da sua própria vida, sem necessidade de guia ou conselho, espiritual ou outro. Pareceu a João Cosme que a definição lhe assentava como uma lapa assenta na rocha. Não terminaria o livro. Se já antes se tinha em boa conta, estava agora seguro de que trazia em si, como um vinho centenário, todas as respostas para todas as perguntas do mundo. O que lhe faltava era o saca-rolhas; e o saca-rolhas só podia ser, dizia-lho a glândula pineal (ou outra parte do cérebro mais obscura ainda) a Vivelinda. A partir desse momento, os olhos antes cegos de João Cosme estariam atentos a todos os movimentos da criada.

Vivelinda deitara-se no seu esconso quarto das águas-furtadas. Tinha o hábito de gozar, logo após a azáfama do almoço, uma sesta de uma hora. Era o momento em que toda a gente, à excepção da madrinha de João Cosme (que há anos julgava tricotar um qualquer peça de roupa quando mais não fazia que agitar desajeitadamente as agulhas) estava fora de casa. Sem a sesta, talvez Vivelinda não aguentasse a carga: a sua não era uma vida fácil. Os dedos finos e compridos de pianista, dantes habituados à delicadeza dos pincéis, estavam agora calejados e embrutecidos pelo serviço de todos os dias. E depois, sentia a falta da algazarra das crianças. Como pudera João Cosme, uma delícia de menino quando cego, transformar-se no arrogante empedernido que passara a ser depois do milagre no incêndio d’Os Freixos? Depois de nisto reflectir, fechou Vivelinda os olhos e sonhou sobre o destino redentor que João iria dar ao livro que ela lhe deixara, furtiva, sobre a cama.

Ao jantar, como era seu hábito, Eduardo e João Cosme deitavam olhares furtivos à janela de portadas sempre abertas que dava para os lados da torre. Ambos tinham uma secreta esperança de que, por uma vez, nada sucedesse. E no entanto, pelas nove e meia, uma luz amarelada cintilou através de uma fresta da velha ruína. Recordando o fugaz episódio do pequeno-almoço, o professor José Augusto perorava sobre a visita que recentemente fizera a uma exposição sobre a vida e obra de Calouste Gulbenkian na fundação a que o mecenas arménio dera o nome e  muito mais. João Cosme olhou para Eduardo. Este devolveu-lhe o olhar. Uma estranha resolução, invulgar nele, cobria-lhe a face. Parecia dizer: “Não. Hoje vais sozinho”.

(Este é o quinto capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é da Cláudia Köver.)

Recapitulação V


Bandeira,

Numa remota região da China, tão remota que ali os rios desaguam
uns nos outros por desconhecerem a existência do mar, habita um povo do qual
jamais houve notícia. O que mais o distingue dos outros povos é a sua estranha
língua: cada indivíduo pode pronunciar cada uma das palavras do léxico uma
única vez. Talvez por isso, existem – de acordo com a última contagem – 271
palavras diferentes para significar «facécia», 6525 para «pórtico», 895477 para
«linda» e 9003226635910 para «não».

Os habitantes desta região remota da China possuem nomes ainda mais compridos
do que os dos reis de Portugal.

Recapitulação III


Bandeira,

Um velho muito velho e estragado encontrou o rei de França junto a um Mercúrio em bronze e entabulou conversa com ele. Sentaram-se nas conchas de uma fontezinha rococó com peixes encarnados e tritões de pedra e contaram as suas vidas um ao outro. O velho falou das imensas provações por que havia passado na sua muito longa existência; o rei, do seu extraordinário poderio. Quando já não tinham mais nada para dizer um ao outro, o velho perguntou ao monarca se trocaria de vida com ele. O rei de França respondeu: «O diabo seja cego, surdo e mudo!» E o pobre diabo ficou cego, surdo e mudo.

Recapitulação II


Bandeira,

“Pode tirar-me tudo menos o Direito à Indignação”, indignava-se um Homem Indignado. “Não posso tirar-lho, mas posso taxá-lo”, respondeu o Governante Insensível. E quanto mais o Homem Indignado com isto se indignava, mais o Governante Insensível, com a ajuda de um Indignómetro, via o lado da receita subir.

Recapitulação


Bandeira,

O inspector dobrou a gabardina, poisou-a cuidadosamente sobre as costas da cadeira, encheu o peito de ar e disse, ao mesmo tempo que expirava:

«Foi o Marcelo.»

«O Marcelo, inspector…?», escandalizou-se o guarda Caetano.

«O Marcelo, Caetano.»

Tomás entrou de rompante no gabinete, corado ainda do opíparo almoço.

«Viva, inspector! Viva, Caetano!»

«O Américo, Tomás?», perguntou o inspector.

«Pensei que estava consigo.»

«Comigo? Não o vejo desde ontem. Preciso que você vá com ele e com o Caetano.»

«Fazer o quê, inspector?»

«Buscar o Marcelo», suspirou o guarda. Tomás voltou a sua incredulidade para o cívico:

«O Marcelo, Caetano?»