Cadáver esquisito (5)


Bandeira,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR

5

IN VINO VERITAS

 

João Cosme dedicou algum do seu tempo à leitura de Wise Blood. A história do cágado não lhe saía da ideia. “Se o sonso do Eduardo tiver a razão que assiste aos simples e aquilo que busco estiver mais perto do que eu pensava, o que há a fazer é parar e ficar atento ao que se passa à minha volta”, decidiu. Fechou o livro sem se preocupar em marcar a página. “Wise blood” era, para um dos personagens de O’Connor, o conceito algo irreligioso de que algumas pessoas nascem já equipadas com um instinto orientador do rumo da sua própria vida, sem necessidade de guia ou conselho, espiritual ou outro. Pareceu a João Cosme que a definição lhe assentava como uma lapa assenta na rocha. Não terminaria o livro. Se já antes se tinha em boa conta, estava agora seguro de que trazia em si, como um vinho centenário, todas as respostas para todas as perguntas do mundo. O que lhe faltava era o saca-rolhas; e o saca-rolhas só podia ser, dizia-lho a glândula pineal (ou outra parte do cérebro mais obscura ainda) a Vivelinda. A partir desse momento, os olhos antes cegos de João Cosme estariam atentos a todos os movimentos da criada.

Vivelinda deitara-se no seu esconso quarto das águas-furtadas. Tinha o hábito de gozar, logo após a azáfama do almoço, uma sesta de uma hora. Era o momento em que toda a gente, à excepção da madrinha de João Cosme (que há anos julgava tricotar um qualquer peça de roupa quando mais não fazia que agitar desajeitadamente as agulhas) estava fora de casa. Sem a sesta, talvez Vivelinda não aguentasse a carga: a sua não era uma vida fácil. Os dedos finos e compridos de pianista, dantes habituados à delicadeza dos pincéis, estavam agora calejados e embrutecidos pelo serviço de todos os dias. E depois, sentia a falta da algazarra das crianças. Como pudera João Cosme, uma delícia de menino quando cego, transformar-se no arrogante empedernido que passara a ser depois do milagre no incêndio d’Os Freixos? Depois de nisto reflectir, fechou Vivelinda os olhos e sonhou sobre o destino redentor que João iria dar ao livro que ela lhe deixara, furtiva, sobre a cama.

Ao jantar, como era seu hábito, Eduardo e João Cosme deitavam olhares furtivos à janela de portadas sempre abertas que dava para os lados da torre. Ambos tinham uma secreta esperança de que, por uma vez, nada sucedesse. E no entanto, pelas nove e meia, uma luz amarelada cintilou através de uma fresta da velha ruína. Recordando o fugaz episódio do pequeno-almoço, o professor José Augusto perorava sobre a visita que recentemente fizera a uma exposição sobre a vida e obra de Calouste Gulbenkian na fundação a que o mecenas arménio dera o nome e  muito mais. João Cosme olhou para Eduardo. Este devolveu-lhe o olhar. Uma estranha resolução, invulgar nele, cobria-lhe a face. Parecia dizer: “Não. Hoje vais sozinho”.

(Este é o quinto capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é da Cláudia Köver.)

24 comentários em “Cadáver esquisito (5)”

    1. Muito obrigado, Ana. 😉 Veremos quem abre esta garrafa… confesso que passei mais tempo a juntar os pedacinhos para não deixar pontas soltas do que a escrever o texto propriamente dito:)

  1. Este cadáver está cada vez mais esquisito.

    (Também gosto de ver o Bandeira a sair da casca, esticando-se ao sol, agora que entramos na Primavera.)

    1. Bota esquisito nisso, Padrinho. 😉 Pois se até mete a Flannery O’Connor… Eu passei o fim-de-semana a ver Chagall, o que em termos de esquisitez não ajuda muito.

          1. É como a casca das árvores, diria o Woody Allen, é muito difícil de perceber como se põe;) Beijo para ti também, miúda gira

    1. Aquieta-te, amiga, porque antes de ti sou eu e já perdi o fio à meada. Depois, a coisa está a ficar intelectual e eu sou só planuras.
      A minha Vivelinda é que anda entusiasmada e todas as semanas me pergunta o que lhe aconteceu. Sente-se uma heroína e hoje pediu-me que a não matasse.
      Disse-lhe que não mas que lhe iria descobrir a careca
      já que tinha muito por onde se lhe pegar. Esbugalhou os olhos e respondeu-me “todos temos os nossos segredos”.
      Prepara-te Ivone porque vai ser este o meu mote!

  2. Olha o Bandeira! Salvé! Já tinha saudades tuas!
    Não repares, mas eu não vou comentar, porque decidi não ler nada do cadáver até ao dia em que me calhar a sorte. Para sair tudo espontâneo e de rajada 🙂

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