José Bandeira/DN
Bandeira de Papel
Bandeira,
O João, madeirense de 53 anos, trabalhava na indústria do cinema e da publicidade como técnico de geradores. Já teve ocasião de testemunhar um apagão de estúdio? Há um som de whooooom e depois BANG! – o Universo colapsa numa partícula. Eis o que o João faz: ele previne regressões paroquiais do Big Bang. Ou prevenia, porque a crise e a austeridade deixaram-no sem trabalho.
Quando a maré está “grande” (eu não conhecia a expressão, quer dizer que a maré está mesmo muito baixa), o João vai apanhar ameijoas para Alcochete. Um dia, já combinámos, vou com ele para tirar fotografias. “Tudo o que precisas”, diz, “é de um par de galochas. E de um seguro de equipamento”. Como muitos dos habitantes do bairro Clemente Vicente, no Dafundo, o João passa algum do seu tempo na faixa de terreno onde se estende a linha Lisboa-Cascais. Ele alimenta os pombos, cultiva vegetais e, havendo companhia, deita-se a um jogo de cartas regado a vinho tinto com Seven-Up. Já o vi muito zangado com o Euclides por causa da Seven-Up. O Sr. Pedro, pai do Euclides e dono do Café Africano, não pode dar-se ao luxo de abrir uma garrafa de litro e meio e não a gastar até ao fim. O João anda irritadiço com a falta de trabalho, mas também é verdade que o vinho pede Seven-Up com muito gás.
Mesas e cadeiras sobrevivem entre barcos sem uso, pilhas de garrafas vazias e tralha de toda a espécie. O Zé (um natural do Dafundo: ele lembra-se até de ter andado ao colo da Condessa de Ribamar, hoje com uns cem anos) foi o primeiro a trazer-me a este reduto, meses atrás, e a mostrar-me a engenhosa cadeira que se vê no postal. Aponto-a ao João que, não sem orgulho, avoca para si a autoria da peça: fê-la a partir de dois objets trouvés. Tiro-lhe o retrato com a sua obra de arte.
Alheados da significância do momento, ciclistas e joggers insistem em passar.
Manhã cedo no Café Africano, Dafundo: o habitual ajuntamento de reformados, desempregados e especialistas ocasionais em todos os trabalhos de construção, canalização, electricidade e o mais que calhe nesta época de sabe Deus. Tiro da mochila uma impressora portátil (pense no sistema como uma Polaroid em esteróides), instalo-a sobre uma mesa e pergunto à assistência quem se chega à frente para uma fotografia. Não tenho dificuldade em arranjar voluntários. Os habitués conhecem-me, sentem-se à vontade com o meu trabalho, muitos têm em casa retratos que lhes tirei. Quem primeiro se apresenta é o Sr. Sequeira, um cavalheiro reformado que nunca bebe nada, nem mesmo oferecido. Da avenida Ivens, e do Tejo para lá dela, chega um brilho imenso. Decido aclarar um pouco as sombras e peço ao Fernando para segurar um flash. O Fernando chama-me “amigo Zé”. Ele vive debaixo da ponte ferroviária que anuncia a estação da Cruz Quebrada e anda a tentar poupar 5 euros para um corte de cabelo, mas as moedas encontram sempre o caminho do balcão de Euclides. Depressa se torna um especialista em iluminação de estúdio. Quando chega a vez do Fernando, peço ao Sr. Marinho para segurar o flash por ele. Então o Fernando dá-lhe algumas dicas muito profissionais. “Tem de me ver através desse buraquinho no papelinho branco”, diz. O Sr. Marinho aquiesce. Caramba, eu nunca teria pensado nisso.
Uma cidade é sempre duas: a que se vê à luz do dia e a que se adivinha de noite. Banalidade, eu sei, sempre foi assim e tal. Mas a luz do néon, mesmo se sem o fulgor e o fascínio de outrora, quase sempre surpreende no caminho escuro. Olhando-a por algum tempo sobrevém-nos a melancolia. E tem-se um vislumbre do encanto sórdido que atrai o insecto para a sua própria morte.
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(Guimarães, 2012, foto José Bandeira)
Penso ter finalmente compreendido. Se Portugal vencer a Holanda mas a Dinamarca ganhar à Alemanha por 3-2, caímos fora. Caso Portugal perca com a Holanda por 1-0 e a Alemanha vença a Dinamarca, estamos dentro. Imagine (faça um esforço) que Portugal vence com triplo hat-trick de Postiga e a Alemanha se vai abaixo com um auto-golo de Mario Gomez: A dívida pública portuguesa desaparecerá sem deixar rasto e Ratzinger, que ficará com muita vergonha, abdicará, sendo Paulo Bento eleito papa com o nome de Bento XVII. A Irlanda regressará ao Euro, tendo Leopold e Molly Bloom como adjuntos de Trapattoni, na eventualidade de todas as selecções (todas mesmo) perderem amanhã, Bloomsday. Caso a Dinamarca vença a Alemanha e Portugal perca contra a rainha da Holanda em badminton, Passos Coelho enviará um beijinho à senhora Merkel (que perderá o cargo de chanceler para António Borges), mas não conseguirá evitar que a Moody’s atire Portugal para a categoria de Vinagre de Tinto- (com perspectivas negativas). Se, porém, a Alemanha perder por 50 golos ou mais, a Grécia será repescada do fundo lodoso do rio Meandro, onde agora se encontra, e atirada ao Egeu (perdoe a vírgula antes da copulativa), desta feita com cópias em tamanho real do Hermes de Praxíteles presas aos artelhos ou, em alternativa, artigos seleccionados das nossas sucessivas Leis do Arrendamento Urbano. Se acha que nada disto faz sentido, consulte as regras da UEFA e depois falamos.