Postais de um Fotógrafo de Bairro


Bandeira,

José Bandeira

Manhã cedo no Café Africano, Dafundo: o habitual ajuntamento de reformados, desempregados e especialistas ocasionais em todos os trabalhos de construção, canalização, electricidade e o mais que calhe nesta época de sabe Deus. Tiro da mochila uma impressora portátil (pense no sistema como uma Polaroid em esteróides), instalo-a sobre uma mesa e pergunto à assistência quem se chega à frente para uma fotografia. Não tenho dificuldade em arranjar voluntários. Os habitués conhecem-me, sentem-se à vontade com o meu trabalho, muitos têm em casa retratos que lhes tirei. Quem primeiro se apresenta é o Sr. Sequeira, um cavalheiro reformado que nunca bebe nada, nem mesmo oferecido. Da avenida Ivens, e do Tejo para lá dela, chega um brilho imenso. Decido aclarar um pouco as sombras e peço ao Fernando para segurar um flash. O Fernando chama-me “amigo Zé”. Ele vive debaixo da ponte ferroviária que anuncia a estação da Cruz Quebrada e anda a tentar poupar 5 euros para um corte de cabelo, mas as moedas encontram sempre o caminho do balcão de Euclides. Depressa se torna um especialista em iluminação de estúdio. Quando chega a vez do Fernando, peço ao Sr. Marinho para segurar o flash por ele. Então o Fernando dá-lhe algumas dicas muito profissionais. “Tem de me ver através desse buraquinho no papelinho branco”, diz. O Sr. Marinho aquiesce. Caramba, eu nunca teria pensado nisso.

13 comentários em “Postais de um Fotógrafo de Bairro”

  1. Pelo buraco no papel que nos ilumina vemos,há muito,há muito,moedinhas a rodar para gavetas que se não vêem na sombra.
    À saúde dos compinchas da foto e do retratista!

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