Porque fotografo: passado e futuro


escafandro,

People who don’t have a past are the most fervent picture takers (…). Everyone who lives in an industrialized society is obliged gradually to give up the past.

Susan Sontag, On Photography.

 

Olho para estas frases uma e outra vez e penso no passado. No meu passado. Não me é fácil visualizá-lo. Ou melhor: não me é fácil visualizar momentos marcantes, que possam constituir verdadeiramente um passado. Há uma sensação, mais do que um conjunto de acontecimentos. (Terei vindo a apagar os acontecimentos deliberadamente e, se sim, porquê?) Não foi um passado rico – longe disso – mas também não foi especialmente pobre. Tive doenças mas não doenças graves. Houve momentos infelizes mas, fora dois ou três, tenho que fazer um esforço para me recordar deles. Na realidade, tenho que fazer um esforço para me lembrar de quase tudo. Não tenho sequer a certeza se foi um passado feliz, se infeliz. Foi um passado anónimo, apesar de ter sido – de ser – o meu. (Tavez isso seja bom: nem sempre a existência de momentos marcantes é um factor positivo.) De certa forma, o passado é para mim uma incógnita quase tão grande quanto o futuro. Pessimista e português que sou, é frequentemente para ele que olho em busca de momentos de esperança mas não tenho a certeza de os encontrar. Talvez Sontag tivesse razão. Por algum motivo gosto tanto de fotografias. Por alguma razão tiro tantas. Não exactamente a mim mas aos sítios por onde passo e às pessoas com quem me cruzo. As fotografias são uma confirmação de que algo aconteceu. São um substituto de memória. Ou os alicerces para a construção de uma. (São também outras coisas mas isso fica para uma próxima oportunidade.) Porque o conforto da velhice, não podendo já ser os sonhos para o futuro nem, muitas vezes, o conforto do presente, é o passado. Daqui a três ou quatro décadas espero poder olhar para as fotografias e confirmar a existência de momentos com interesse. Se as falhas e incertezas humanas, que ainda se vão sobrepondo aos avanços da tecnologia, não me traírem. Porque pode acontecer que, nessa altura, olhe para as fotos e nem sequer reconheça o que nelas vejo.

 

(Publicado originalmente aqui.)

5 comentários em “Porque fotografo: passado e futuro”

  1. Na minha opinião, todos temos um passado rico e digno de nota. Por boas e por más razões. Se o jaa tem tanta dificuldade em recordar quase tudo, não será por menorizar a importância do que viveu?
    “nem sempre a existência de momentos marcantes é um factor positivo” – é verdade. Por isso mesmo, tendemos a relativizar. E isso é bom ou mau? As opiniões dividem-se. Eu prefiro não relativizar. Às vezes (muitas vezes), dói. Mas, por outro lado, ao negar a importância de acontecimentos marcantes pela negativa, sinto que me estou a trair. Ou melhor, que estou a trair a criança/jovem que fui (principalmente, a criança).

    1. Cristina:
      Não é tanto dificuldade em recordar o que se passou. É mais dificuldade em encontrar momentos marcantes – pela positiva ou pela negativa. Uma certa monotonia, em que os dias se confundem uns com os outros, abrangendo também os tempos de criança. De memória, seria incapaz de escrever uma biografia – ou então, para evitar repetições, ela limitar-se-ia a meia dúzia de páginas.

    1. Obrigado, Teresa. Sim, Sontag tem razão. Sendo que, desde que escreveu estas frases, tudo se intensificou: a tendência para exacerbar o presente e para usar imagens (e vídeos – repare-se na quantidade de gente a gravar vídeos em concertos de música) como confirmação de que algo de importante aconteceu.

  2. Excelente texto, Jaa. Gostava de saber tirar fotografias como tu, e ainda mais de gostar de tirá-las. É uma arte tão reveladora do artista como do que ele vê através da lente.
    Também acho que a Sontag tem razão, mas parece-me que o maior medo de hoje é o de perdermos a memória das coisas, tal é a velocidade com que as vivemos e substituímos por outras. Talvez por isso os registos tecnológicos (artificiais) sejam tão importantes. O tempo mudou de ritmo e a nossa capacidade de acompanhá-lo é limitada. Ou, pelo menos, temos medo de que o seja. E ninguém quer perder o seu passado, nem mesmo aqueles para quem ele foi doloroso.

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