Não sei dizer como começou. Talvez com um pingo de papa no bibe da creche. Ou uma colher de sopa tocando o babete. Não importa. O que importa é que não me é possível sair de qualquer lugar onde sirvam refeições com a camisa ou a t-shirt na condição em que estava quando entrei. Resumindo, atraio as nódoas de toda a gente em redor de mim.
Sou capaz de produzir uma mancha indelével munido apenas de uma pevide ou usando um pingo de água mineral. E ao contrário do que o nome sugere, crédulo leitor, os tira-nódoas, pelo menos os dos restaurantes, não tiram nódoas. Pelo contrário, eles convertem o mais insignificante pontinho de molho de escabeche num gigantesco halo impossível de remover sem recurso a lixívia ou ácido sulfúrico. O objectivo, julgo, é disfarçar a nódoa criando uma outra substancialmente maior.
Com o tempo, desenvolvi a minha técnica e comecei a criar nódoas com a forma de manchas Rorschach. Isso fazia as delícias da mesa, sobretudo se estavam psicólogos presentes (o que, por motivos que agora não cabe mencionar, sucedia com frequência). Hoje sou capaz de produzir espécimes que, analisados à lupa, reproduzem – dependendo do tipo de alimento – quadros de Tiepolo ou os mármores de Elgin. Quando as nódoas se acumulam – por exemplo, em casamentos, tomadas de posse de governos e outras ocasiões sociais –, os padrões podem tornar-se muito complexos. Nessas alturas, fico muito parecido com um papel de parede vitoriano ou um Raul Meireles sem roupa.
A dada altura da minha vida, decidi utilizar esse meu tremendo poder em prol da Humanidade. Escolhi um nome que não chamasse a atenção, “Cark Klent”, como identidade secreta e passei a entrar em restaurantes, tasquinhas e casas de pasto sempre que sinto um espacinho disponível no estômago. Ok, engorda um pouco, mas não há nada que pague a satisfação de contemplar a roupa imaculada da restante clientela à medida que a minha se enche de nódoas. Isso pode ser um pouco chato porque tende a afastar os amigos, mas presto um serviço à comunidade e antes super-herói com manchas de bom tinto na camisa que um que use daquelas roupinhas apertadinhas em lycra, como o Super-Homem ou os ciclistas da Marginal.

Delicioso, como sempre, parabéns, José Bandeira.
Fiquei com inveja das suas nódoas de iguarias a sugerirem “A Procissão do Cavalo de Tróia” – eu que passava que era boa a tingir tecidos mas nunca fui além da técnica – “batick “.:))
Muito obrigado, Maria. E ok, ok, sou capaz de ter exagerado um poucochinho no Tiepolo. Mas aquilo das manchas Rorschach é a mais pura verdade.
jb (digo, Cark Klent) :o)
Na melhor Humanidade cai o Nódoa. Confirma-se que o povo nem sempre tem razão…
O povo, razão? Quase nunca a tem a não ser quando está certo (por exemplo, no que toca ao bacalhau à lagareiro). ;o)
Gostei do modo metafórico como criticaste o Governo. Parabéns.
Topaste-me!
E agora que o Eça faz 110 anos, nada melhor que celebrar com benzina, a minha kriptonite.
Faz 110 anos que morreu, bem entendido (até como comentador sou uma nódoa)
Fico preocupada por saber que atrais nódoas que se acumulam em tomadas de posse… olha que a quantidade é sempre considerável, pode ser uma overdose letal!
Obrigado pela solidariedade, Ana. Sabe Deus o estado em que saio daquelas cerimónias. Os convidados chegam a dar-me moedas à saída.
Aproveita, aproveita. Essa gente é mais do género de nos tirar moedas do que de dá-las…
🙂