Excerto da minha contribuição para a Feira de Frankfurt


Bandeira,

«A distinção social entre um autor e um escritor está bem retratada numa passagem de Aristófanes (A Paz: 1052-1119). Hierocles, trazendo a cabeça coroada com folhas de louro, aproxima-se de Trigueu e do seu escravo, que pergunta: “Quem raio pode ser este tipo? Parece um charlatão. Será um escritor?” Então Trigueu responde: “Não, por Zeus, é Hierocles de Oreus, o autor” (o itálico é meu, mas empresto). Por esta passagem (e por muitas outras, mas sou um académico fiel), dir-se-ia que a actividade de autor era mais prestigiante do que a de escritor. Tanto quanto podemos perceber, a graça – forçosamente datada, porque não tem graça – parece estar em que, na vida real, Hierocles jamais se teria referido a si mesmo como “um escritor”.

 

Por razões que não sabemos esclarecer por completo, os escritores quase desaparecem dos registos históricos após 413 a.C. É provável que o seu prestígio estivesse já em declínio, mas a machadada final foi certamente dada pelo fracasso da expedição ateniense à Feira de Frankfurt desse ano e a subsequente capitulação de Atenas, em 415 a.C., na Guerra do Peloponeso (Flower).

 

Gostaria de prosseguir a minha intervenção alterando ligeiramente o rumo e anunciando que estou a ler isto trazendo por baixo das calças uns calções de spandex.»

10 comentários em “Excerto da minha contribuição para a Feira de Frankfurt”

      1. Já me habituei às tuas leituras, quanto à questão autor/escritor nada como o Philippe Lejeune e O Pacto Autobiográfico para te responder, agora o spandex? Spandex, Zé???????? É claro que estou precocupada.

        1. Eu jamais poderia cumprir o pacto dele, Leonor, muito menos trazendo calções de spandex (a mulher desenha faz bonecos muito giros). E o spandex dá uma sensação de… enfim, não sei explicar, acho que começo a compreender os ciclistas.

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