Na contracapa de um livro que tenho em mãos (não importa que livro, é sobre sexo, ok?), pode ler-se (tradução caseira, realçados meus):
“UMA EDIÇÃO DOVER CONCEBIDA PARA ANOS DE USO!
Não nos poupámos a esforços para fazer deste o melhor livro possível. O nosso papel é opaco, com um grau de transparência mínimo; não descolorará nem ficará quebradiço com o tempo. As páginas são encadernadas em fascículos, no método tradicionalmente usado para os melhores livros, e não se separarão. Os livros permanecem facilmente abertos para eficaz consulta. A capa não criará fendas nem se destacará. Este é um livro permanente.”
Emocionei-me, chorão leitor. Examinei demoradamente a capa. Assentei o volume numa mesa para averiguar se era capaz de se manter aberto num local contendo a reprodução de uma foto… ahm… interessante. Estudei a lombada, a textura das folhas, a sua opacidade. Lembrei os tempos, não tão longínquos assim, em que o papel era fabricado a partir de algodão ou linho: na I Grande Guerra, Londres ainda pedia roupa velha para o fabrico de panfletos e qualquer outro produto que contribuísse para o esforço de guerra, como mortalhas de cigarro e cartas de jogar. A coisa durava os conflitos regionais e mundiais que fosse preciso.
Depois, a celulose; e com ela, o papel de desgaste rápido. No processo, alterou-se o carácter das nossas florestas e fauna. Simpáticos koalas preguiçam hoje um pouco por todo o nosso lindo país de eucaliptos (ninguém os vê, mas isso é porque serão koalas, mas não são parvos). Papel feito a partir do pinheiro possui razoáveis qualidades, mas a nobre árvore leva o seu tempo a crescer; eucalipto é bem mais rápido. Não, tem toda a razão, experimentado leitor, de facto o papel não fica tão bom, mas isso é coisa para as crianças mais tarde terem alguma coisa para resolver para além do défice, da Segurança Social ou das alterações climáticas, não queremos que fiquem com a vida demasiado facilitada, queremos? Por todas as vezes que nos obrigaram a levantar da cama às quatro ou cinco da madrugada, não, um categórico NÃO.
Enfim, se acha que vale a pena deixar uma pequena biblioteca aos rebentos mas não tem espaço e a vizinha do lado não permite que instale mais estantes em casa dela, reflicta um pouco. Há por aí uns discos baratos que levam monstrabytes de livros digitais e duram, quê?, uma eternidade (desde que mantenha os seus filhos longe do teclado e o Universo não seja finito). E não me venha com a conversa de que não consegue ler num computador. Livros digitais podem sempre ser passados a papel. Pelo menos os que não estão protegidos contra impressão por essas empresas amigas do… eh… meio ambiente, digamos assim.
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Nota: Scott Vile (quem é Scott Vile? Não faço a mínima ideia) leu um panegírico muito parecido com o meu mas parece ter os “livros permanentes” da Dover em não tão boa conta (perdoe o litotes, mas é perfeitamente legal: já passa das cinco da tarde).

