Feliz Dia da Mãe Cruel


Bandeira,

Sucede por vezes que certas ideias incongruentes, por jamais nelas investirmos um pouco do nosso capital reflectivo ou as havermos absorvido em muito novos, se colam ao nosso cérebro, um pouco como cartões de crédito sem plafond às carteiras de administradores de empresas públicas. Por exemplo, eu recordava-me muito bem de haver habitado no 4º andar de certo prédio de Algés; eu nunca pusera em dúvida o facto de haver habitado no dito 4º andar do supracitado prédio de Algés; mas certo dia, passando de automóvel pela rua do tal prédio de Algés em cujo 4º andar me recordava de indubitavelmente haver habitado, e tendo eu partilhado esse importante dado autobiográfico com os restantes ocupantes da viatura, alguém chamou a atenção para a circunstância de o prédio em questão não contar mais que dois andares bem contados, verdade que, de coração apertado, atestei visualmente alguns segundos antes de ligar para o meu neurologista, não sem antes apreciar o facto de ainda haver alguém que presta atenção ao que eu digo.

 

Já ontem, debatia-se num pequeno círculo de amigos (mas podia ser uma elipse, não tenho a certeza de nada) a justeza ou injusteza de gémeos monozigóticos terem o mesmo direito ao casamento que os heterozigóticos. Lembrei-me de trazer à colação o caso da minha mãe e do meu tio M., ambos viúvos, logo ex-casados, “apesar de gémeos verdadeiros”. Então a sempre ladina A. arqueou uma sobrancelha, chegou o pé esquerdo um pouco à frente, olhou-me por cima dos óculos e lançou a terrível pergunta:

“Verdadeiros cooooomo, se um é homem e o outro mulher?”

Não precisei de mais que um segundo para perceber que havia repetido a estultícia do episódio do 4º andar. Eu não podia negar o óbvio sem entrar no domínio do absurdo, algo para o que estou, diga-se, permanentemente disponível, mas que na situação em apreço não colhia, uma piada no auge de uma tragédia é um erro de dramática. E no entanto, esse contra-senso científico vivera demasiado tempo à solta no vão do meu crânio para que eu aceitasse passivamente a brutalidade da revelação. Baldados os esforços da consciência para me levar a atirar a toalha ao betão, o meu subconsciente tentou ainda um pouco de luta e balbuciou uns dislates sobre genes, cromossomas, o Dragão de Komodo, Kim-Jong-Il, coisas assim.

Em queda livre e após uma última tentativa pouco empenhada de envolver a Mecânica Quântica e seus arcanos, decidi ligar para a minha mãe e fazer-lhe a pergunta, na esperança de um daqueles milagres de que só as mães são capazes. Ela podia, sei lá, confirmar a excepção dizendo simplesmente que “nem o médico conseguia perceber”, algo do género. Ou então, isso seria o mínimo, explicar-me de onde me podia vir esta ideia destrambelhada, confessar que me haviam pregado uma partidinha era eu criança. Mas ela nada, antes alinhou com as multidões ululantes:

“Que disparate, filho. Então se eu sou mulher e o meu irmão é homem, como é que havíamos de ser gémeos verdadeiros? Não tem lógica.”

Desta forma cruel destratado pela própria mãe, hoje venho adiando o telefonema e posterior visitinha do Dia da Cuja, para ela não pensar que, lá porque sou gémeo falso, não tenho sentimentos.

11 comentários em “Feliz Dia da Mãe Cruel”

  1. Levanta esse ânimo. Lembra-te de quantos filhos têm de visitar hoje a mãe, sem saber se devem visitar a mãe A ou a mãe B. Ou se devem dirigir-se ao pai X ou ao pai Y e chamar-lhe mãe. A vida está um Z, isso é que está.

    Será inevitável passar a haver o Dia da Mãe Biológica e o Dia da Outra Mãe? E o Dia de Qualquer Um dos Pais-pais? Estará o futuro para acabar com o Dia da Mãe Há Só Uma e com o Dia do Vai Chamar Pai a Outro?

    1. “Dia de Vai Chamar Pai a Outro” é muito, muito bom, João. O meu mais novo (que já leva 16 – anos, não pais), quando tinha dois ou três anos e ia comigo à praia, costumava agarrar-se à perna de qualquer homem cujo fato de banho fosse parecido com o meu, gritando “Papá! Papá! Papá!”, hábito que não deixou de criar alguns equívocos.

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