Escolhas Sabáticas


tralhasdavida,

Em Maio de 66, Lisboa foi brindada com uma actuação de Morte e Vida Severina: uma peça de teatro brasileira que casava o belíssimo texto de João Cabral de Melo Neto com as notas cristalinas de Chico Buarque que na altura não passava de um anónimo estudante da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

A peça tinha tido um sucesso estrondoso no Brasil e a repercussão junto do público e da crítica foi tal que o espectáculo viajou para a França, onde recebeu o grande prémio do Festival Universitário de Nancy.

À boleia do festival gaulês, o elenco aproveitou para fazer uma paragem por Lisboa e apaixonou assolapadamente o público alfacinha, conseguindo a proeza de se fazer ouvir em eco progressivo para além das paredes do Teatro Avenida por muito e muito tempo.

Passados uns anos, a minha mãe, que na altura era professora da cadeira opcional de teatro no Liceu D. Filipa de Lencastre, tendo à sua frente uma data de raparigas de enfadados dezasseis anos, lembrou-se do fulgor da brisa trazida do lado de lá do Atlântico e propôs-lhes levar a cena uma versão nacional deste grande êxito do Chico.

Logo se juntaram várias alunas que entusiasticamente trataram de dar o seu melhor para que a empreitada fosse levada a bom porto. De entre todas, havia uma rapariga especialmente empenhada. Não havendo na altura forma de conseguir registos das composições musicais, muito menos site de internet de onde se fossem sacar as letras, a Ana, conhecida por ser um às da viola, levou a coisa a peito e, durante tardes a fio, tratou de passar repetidas vezes uma velha cassete no leitor e assim, só de ouvido, conseguiu reconstruir na íntegra toda a banda sonora da peça.

 Por alturas do segundo período, quando os ensaios andavam ao rubro e pelos corredores do liceu não se ouvia outra coisa que não fossem as canções da Morte e Vida Severina, a Ana foi chamada à reitora do liceu. Era excelente aluna, mas nos últimos meses as notas tinham caído a pique. A reitora avisou-a que, ou se aplicava, ou ia perder o ano. Que era melhor deixar-se de teatrices.

 A Ana, com uma serenidade pouco comum à sua idade, respondeu: “Minha senhora, perder um ano não tem qualquer importância. Anos há muitos. Mortes e Vidas Severinas é que há só uma”, e continuou a participar animadamente em todos os ensaios.

O ano lectivo acabou e a peça subiu ao palco com um sucesso equiparável ao da versão original brasileira. Os pais choraram, abraçaram-se, cantaram da plateia para o palco, as alunas retribuiram do palco para a plateia, enfim, uma emoção sem igual à conta das desventuras do retirante nordestino Severino.

A Ana teve realmente aproveitamento insatisfatório, pelo que foi obrigada a repetir o último ano do liceu.

Passada uma década, estava a minha mãe numa estação de metro quando repara numa rapariga que se aproxima com um grande sorriso. Cumprimentou-a, adivinhando tratar-se de uma antiga aluna (foram tantas que lhes perdeu a conta). Ela, percebendo que não estava ser reconhecida, apresentou-se pelo nome e remeteu a minha mãe para o contexto da Morte e Vida Severina. Contente por a ter reencontrado e curiosa por saber o que tinha sido feito daquela rapariga, a minha mãe perguntou-lhe se tinha seguido a carreira musical.

Ao invés da previsível réplica de perdição, ouviu-a, numa voz de mulher e em tom seguro, anunciar que agora era médica, que depois de ter repetido o sétimo ano tinha conseguido entrar na faculdade de medicina e formar-se com distinção. E fez questão de sublinhar que o ano da Morte e Vida Severina tinha sido a coisa mais extraordinária que lhe tinha acontecido na vida.

Quando a Vida Dá Um Filme


tralhasdavida,

Dás por ti numa estrada secundária da Europa Central, dentro de um táxi. O comboio onde seguias ficou parado a 45 quilómetros do destino. Para o teu táxi saltaram uma búlgara, que desatou a dar ordens a toda a gente, e uma albanesa que tinha um avião para apanhar. A búlgara deu-lhe logo uma descompostura porque devia ter previsto mais do que 1h40 para chegar ao check in. O motorista é um suíço francês. Dentro do táxi, num calor e aperto insuportáveis, fala-se francês com diferentes pronúncias duvidosas, excepto quando todos pegam no telefone que têm na mão e desatam a fazer chamadas na língua nativa. Tu e o teu marido percebem que se a albanesa perder o avião da Air Pristina só tem outro no sábado. Num acto solidário, acedem a meia hora de caminho extra para a deixar no aeroporto antes do vosso destino e pedem pressa máxima ao motorista. A búlgara é obrigada a acatar, primeiro com resistência, depois com resignação. Na rádio canta um senhor chamado Michel Sardou. O telefone do motorista toca e ele, o suíço francês, atende em brasileiro. Ficas desconcertada. Ele conta-te que morou alguns anos no Brasil e que é casado com uma brasileira. Acrescenta que lhe dá muito jeito dominar ambas as línguas porque ao domingo, quando vão à Igreja Evangélica, é ele quem faz de tradutor. É quando tu percebes que estás num filme do Kusturica.

Diário Secreto


tralhasdavida,

Ando a ler o quinto livro de crónicas do Lobo Antunes e que bom que é. A prosa lembra-me sempre a do meu pai, pela época, pelos temas e pelo pingar de ternura das coisas de antigamente que amolece cada virar de página.

Ontem lia que, enquanto ele esperava à esquina por uma fulana, estava para ali “com o coração aos baldões”. O coração aos baldões é uma expressão maravilhosa. Toda a gente já andou com o coração aos baldões, mas passa a vida a dizer que o coração lhe batia descompassadamente, o que não tem nada tanta graça.

Passagem de Nível


tralhasdavida,

Olhou tristemente para Pockey Protero, a sua melhor amiga, sentada do outro lado da mesa, toda esparramada na cadeira e a largar as cinzas do cigarro sobre o prato cheio de gelado derretido e restos de bolo encharcado, com as deploráveis maneiras à mesa que só os muito ricos se podem dar ao luxo de exibir.

 

(Mary Maccarthy, em O Grupo)

Laços Fraternos (ou como Caim elimina Abel)


tralhasdavida,

À nascença calhou-me na lotaria ser bafejada com uma grande, unida e bem disposta família. E, não obstante ao longo dos anos ter andado à chapada com as minhas estimadas irmãs sempre que se afigurou necessário, é verdade que não há semana em que não sejam trocados vários telefonemas de prolongada duração onde ficamos a saber montes de pormenores das vidas uns dos outros.

Não é linear que, em caso de avaliação, o grau de importância dos temas das conversas fosse considerado o mais relevante por alguém de outro apelido, já que pode acontecer, por exemplo, um de nós estar com uma gripe de caixão à cova mas esquecer-se de o mencionar porque ligou só para partilhar um trocadilho hilariante que acabou de passar num filme argentino.

Os meus filhos costumam ignorar este transe familiar e, ao fim de uns quantos minutos, falam comigo como se eu não tivesse um aparelho agarrado ao ouvido e não estivesse, efectivamente, em pleno diálogo com terceiros.

Ora na semana passada, tinha eu desligado uma destas chamada infinitas onde se falava de um par de livros e se recomendavam outros tantos filmes quando o Prietito mais velho comenta que, apesar de não saber com quem eu estava a falar, estava capaz de jurar que era com o tio Zé. Eu ri-me, confirmei as suas suspeitas e aproveitei para me lançar na evangelização de Caim e Abel. Que um dia gostaria muito de ver os meus quatro filhos a serem amigos, a ajudarem-se uns aos outros, enfim, a manterem contacto regular. E, na esperança de lhes dar uma imagem mais explícita, perguntei ao Rodrigo se ele não achava giro daqui a uns trinta anos fazer como eu e o tio Zé e pegar no telefone para ligar ao Manel.

O Manel, que é o primogénito e que, desde tenra idade, nunca percebeu onde é que nós estávamos com a cabeça quando resolvemos levar aquela abécula lá para casa, fez uma cara horrorizada e apressou-se a responder: “aviso já que se ele me ligar eu não atendo”.

Lições


tralhasdavida,

O gosto pela escrita herdei-o do meu pai. Foi sempre o meu pai quem, em dias de festa, em momentos apartados ou apuros declarados soube construir longas missivas com todas as palavras nos lugares certos.

 

A minha mãe, por seu lado, domina uma capacidade mais discreta mas igualmente difícil. Sabe, como ninguém, prescutar as almas dos filhos e, quando acha que é preciso, escolhe um postal da sua vasta colecção, escreve no verso uma frase curta e trata de o enfiar num dos nossos bolsos. Acabamos por dar de caras com um alento insperado que nos faz suspirar até às profundezas mais reconditas da alma e depois, já com os níveis de oxigénio repostos, arrumamos a casa e seguimos com a vida.

No outro dia, assistindo ao meu desespero enquanto enfiava a vasta prole no carro, entre gritos (dos mais velhos) e choradeiras (das mais novas), resolveu, passadas umas horas, mandar-me um SMS que dizia: “Deus te dê paciência. Neste momento é este o teu lugar. Mas tens a vida toda.”

 E, da última vez que lá passei por casa, enfiou-me na carteira um envelope azul e recomendou-me que o abrisse depois, no sossego da intimidade.

Continha um poema que o meu pai escreveu há mais de dez anos. Chama-se “Por Fim” e diz assim:

 

Apanhar humildemente

as lágrimas caídas.

Deixar a casa limpa

de tristeza.

Aprender a chorar

com um sorriso

e o silêncio activo

de quem reza.

 

Fiquei a pensar que os meus pais são esta combinação perfeita entre saber traduzir uma forma de viver e saber escolher as palavras de cada dia.

A nós, ensinaram-nos tudo o que vem neste poema. A apanhar as lágrimas caídas e a varrer a tristeza de casa. Tantas vezes quantas forem necessárias.

Diário Secreto


tralhasdavida,

Não escrevo no diário vai para uns tempos. Tenho lá paciência para andar dissecar os dias. Mas agora resolvi que uso este espaço para pequenas notas literárias que me vão ocorrendo no dia a dia.

Ainda ontem, no supermercado, pensei que era uma situação divertida ter uma personagem feminina no supermercado, com um pacotão de rolos de papel higiénico na mão, que esbarra contra o tipo por quem anda apaixonada e para quem gostaria de fazer boa figura.

Trecho para um livro que nunca vou escrever


tralhasdavida,

 

F  G  T  D  A

 

– – – – – – – – – – – – –

 

Trrrrrrrrrrrrrrrr

 

J  T  P  E  R

 

Tlim

 

(linha abaixo)

 

Ontem escrevia-te de saudades. Deixei correr os dedos ao acaso, como se os caracteres aleatórios do significando pudessem produzir a alquimia do significado.

Escrevo agora  S  A  U  D  A  D  E  S

A léguas de ti.

Passagem de Nível


tralhasdavida,

– Um biquino novo? – É, pai. – Você comprou um no ano passado! – Não serve mais, pai. Eu cresci. – Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim. – Não serve, pai. – Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior. – Maior não, pai. Menor.

Aquele pai, também, não entendia nada.

 

(Luís Fernando Veríssimo, em  O Melhor das Comédias da Vida Privada)

O Postal do Anacleto


tralhasdavida,

Todos os Natais, impreterivelmente e durante vários anos, não falhava a chegada do postal do Anacleto.

A mensagem era, em tudo, semelhante à do ano anterior e chegava sempre no momento de colocar a última figura no presépio. Desejava umas boas festas à professora Marta e a toda a família, e agradecia, em tom cerimonioso e sempre com algum erro ortográfico, a enorme influência da minha mãe na sua vida. Um dia atrevi-me a perguntar quem era o Anacleto, nome alegórico, a fazer lembrar uma personagem de circo.

O Anacleto, juntamente com o irmão, fazia parte de um grupo de miúdos do Casal Ventoso que, algures nos anos 70, frequentavam actividades de tempos livres onde a minha mãe era animadora. Era um grupo difícil. Todos analfabetos, das letras e do mundo, entre os seis e os doze anos, com rostos endurecidos pela vida e sem grande perspectiva de futuro capaz.

As actividades eram simples, adaptadas à audiência, e tinham como objectivo ajudar aquelas crianças a desenvolver capacidades tão primárias como a atenção, a memória ou a coordenação motora.

Um dia, entraram de rompante pela porta num fulgor de entusiasmo.Tinham visto o Auto da Barca do Inferno na televisão e queriam fazer a peça. Mediante tal euforia, a minha mãe não lhes soube dizer que não. Simplificou o texto, improvisou um cenário à altura, distribuiu papéis e ensaiou milhentas vezes as entradas e saídas de cena, as falas, os gestos e as posições em palco.

O irmão do Anacleto tinha um muito provável atraso mental. Foram-lhe dados alguns papéis à experiência e, incapaz de sequer acertar o passo com os cavaleiros, acabou por fazer de moço que levava a cadeira onde o fidalgo se sentava.

Lá pelo meio dos ensaios chegou a altura de tratar dos trajes. Arranjou-se maneira de irem em excursão ao Guarda-Roupa Paiva, no Parque Mayer. Quando transpuseram a porta daquele armazém repleto de charriots, cabides e prateleiras foi como se tivessem entrada na gruta de Ali-Babá. Nunca tinham visto tal coisa e esbugalhavam os olhos no deslumbramento de experimentar chapéus, asas de anjo, mantos, coroas, espadas e floretes.

Chegou a noite de actuação. A minha mãe mandou-os vestir e deu instruções para que, no fim da peça, colocassem a roupa num cesto para ser depois devolvida à procedência.

E assim avançaram pelo palco, sem temor, anjos, diabos, cavaleiros, judeus, fidalgos e sapateiros. Com tal brio e compenetração que, ao cair do pano, a casa veio abaixo em aplausos estrondosos.

A minha mãe ficou sentada na plateia à espera da rapaziada. Esperou, esperou, e ninguém aparecia. Resolveu então ir investigar o que se passava. Quando chegou ao camarim improvisado deu com o elenco ainda vestido. Pediram-lhe: “Senhora, deixe-nos fazer outra vez”. E assim se sentou a minha mãe na plateia vazia a assistir, de fio a pavio, à repetição da encenação enquanto lágrimas grossas e indisfarçáveis lhe corriam pela cara abaixo.

O Anacleto foi mantendo contacto. Na altura tinha 11 anos e andava ainda na primeira classe. Soube-se que nos quatro anos seguintes conseguiu acabar a primária e que arranjou emprego num hotel no Algarve. 

O irmão, um dia, encontrou a minha mãe na rua e fez-lhe uma grande festa. Quando indagado sobre o que andava a fazer, respondeu, de peito inchado, com orgulho e convicção: “Estou a viver em Trás-os-Montes. Tenho um grupo de teatro e estou a ensinar aos outros aquilo que a senhora me ensinou a mim”.

 A minha mãe não perguntou mais nada. Porque embora duvidando do ritmo cénico dos cavaleiros deste grupo de teatro de Trás-os-Montes, não teve qualquer dúvida de que, naquele momento, a badalada do seu coração batia a um ritmo muito mais descompassado.

Trecho para um livro que nunca vou escrever


tralhasdavida,

 

Girl travelling.jpg

 

Ontem dei com estas duas telas inacabadas, ou melhor, com esta tela em versão díptico. Coisas das minhas artes plásticas caseiras que tinha feito, há já uma data de tempo, para ti. Faltava aperfeiçoar uns quantos pormenores que tinham ficado toscos na experiência original.

Um dia conserto os borrões, volto a fotografá-las, e ofereço-te.

Ou se calhar, não. Se calhar somos mesmo assim, um par inacabado com meia dúzia de borrões que nos tornam imperfeitos e, por isso, irremediavelmente humanos.

 Eu gostava de ser a miúda das pernas esguias da tela da esquerda, e embarcar no comboio da direita rumo à Patagónia. E tu, o que gostavas de ser?

 

Velho o comboio e desgastados os carris. Deve ser assim na Patagónia. Nunca lá fui senão pela prosa de Chatwin e de Sepúlveda.

Imagino uma jornada longa, com muitas paragens inexplicáveis em lugares onde faz frio.

(nós os dois encostados ombro a ombro e tu a tapares-me as pernas com uma camisola de pêlo grosso)

Não se viaja pelo mundo de calções. Não se abraçam continentes com blusas de manga curta. Para correr mundo exige-se um casaco, ou duas embalagens de Tylenol.

(atchim. pingo no nariz. beijo a 37 graus centígrados)

Vê-se logo que a rapariga da tela foi recortada de uma Vogue. As miúdas da Vogue nunca chegam a lado nenhum por causa dos resfriados. Não se agasalham como deve ser.

Diário Secreto


tralhasdavida,

Ontem tive falta aqui no diário, mas era Sábado por isso não conta.

Hoje achei que, para não perder a mão, tinha de me pespegar defronte do computador pelo menos cinco minutos a dissertar sobre uma parvoeira qualquer.

Costumo dizer que o maior problema de uma mãe de família é o facto de viver numa Nova Zelândia do quotidiano. A verdadeira hora de ponta é ao fim de semana, com a miudagem a ter de ir para festas, jogos de futebol, escuteiros e afins. Nada da tranquilidade que paira de segunda a sexta, quando os abençoados estabelecimentos de ensino cumprem a sua missão.

Agora, por exemplo, é domingo à noite, o que quer dizer que venho exercitar a minha verve no estado em que estaria após uma reunião estratégica de new business para ganhar a conta do Pingo Doce. Vá lá uma pessoa arranjar criatividade para ser espectacular todos os dias.