Diário Secreto


tralhasdavida,

Comecei o dia a fazer de mãe horrorizada na escola dos miúdos, a propósito de um deles ter sido apanhado com um papel que continha uma canção ordinária de sua autoria. Embora estivesse mortinha para ver a prova do crime, não tive lata para pedir. De qualquer maneira, a professora deixou escapar que a trova rimava muito bem e que o rapaz tinha escrito 5 (CINCO) estrofes. Fiquei super orgulhosa do meu malcriadão.

O Rodrigo confidenciou-me que quando era mais novo e chovia ele achava que eram as nuvens a chorar. Achei tão poético.

Xiquinha, a cromossómica da família,  foi às análises. Não metia lá os pés há uns dois anos mas, assim que chegou, agarrou-se ao braço e apontou para o gabinete onde tiram sangue. Pergunto-me onde andará o défice.

Levei o pai a São Francisco Xavier para medir os níveis do Varfine. No caminho a mãe cantou uma cantiga de revista do João Villarett sobre o Salazar. Podia ter sido pior.

O pai disse uma frase inteira.

Fraternidades Perdidas


tralhasdavida,

O tio Pedro vivia a sépia numa moldura de arabescos por cima da cómoda da avó Dorotheia.

Tinha ficado eternizado aos vinte anos a descer uma escadaria, generosamente untado em brilhantina, de casaco assertoado e cigarro na mão esquerda.

 

O tio Pedro era um número de telefone que a minha avó me pedia para rodar no mostrador quando deixou de ser capaz de ler letra miudinha. Eu era pequena e só ouvia uma metade da conversa que circulava pelo auscultador, mas era fácil adivinhar as deixas devolvidas às frases ladaínhadas mais ou menos uma vez por mês. “Então filho, como estás?”, “E a Lurdes?”, “Os dias estão a ficar mais compridos” (ou mais curtos, consoante a época do ano). E depois, o fatal “Então e quando é que me vens visitar?”.

Só conheci o tio Pedro no ano passado. O que quer dizer que a fatídica pergunta provavelmente ficava no ar na maior parte das vezes. Era sabido que o tio Pedro cumpria o calendário exactamente um par de horas por ano, quando sabia que tínhamos ido de férias e que não havia risco de se cruzar com o meu pai.

Parece que nunca tiveram nenhuma briga feia, nunca se insultaram, nunca pregaram uma bofetada um ao outro. Eram simplesmente tão diferentes que não tinham vontade de se dar.

A tia Lurdes não ajudava à festa. Consta que era obssessivamente possessiva, de tal maneira que nunca quis ter filhos para não ter de partilhar o marido.

 

Quando a minha avó morreu, os dois irmãos não se viam há vinte anos. Na altura eu estava a viver nos Estados Unidos, pelo que perdi esta única oportunidade de pôr a vista no tio Pedro (confesso que me pelava por saber como era, em carne e osso, o mítico rapaz garboso da foto). Contam os meus irmãos que o encontro no velório foi digno de uma cena do “Padrinho”.

Era uma noite de Janeiro, humedecida pela tristeza. Da capela mortuária começaram-se a ouvir, em crescendo, passos firmes a percorrer as lajes de pedra. O tio Pedro entra pela porta, avança para o meu pai, e os dois irmãos, de cabelo grisalho, sobretudo escuro de fazenda e comoção contida, abrem os braços em simultâneo e cumprimentam-se com um sentido beijo na face.

Ficou assim imortalizado o reencontro fraterno num simbólico abraço convicto, ao lado do leito de morte da mãe.

 

Só se voltaram a ver passados outros vinte anos. Em Outubro passado. Depois da tia Lurdes morrer, o tio Pedro pediu que chamassem o meu pai para o ir visitar ao lar onde morava.

Mais uma vez, não foram trocadas acusações. Limitaram-se a conversar como se não tivesse existido um gap temporal de quarenta anos, tendo o tio Pedro pedido ao meu pai que cuidasse das coisas dele.

Morreu passado um mês. Tratavam-se por “mano”.

Diário Secreto


tralhasdavida,

Amanhã vou falar com a directora de turma de um dos meus filhos. Parece que o rapaz foi apanhado a passar um papel com uma canção ordinária de sua autoria. Rala-me a ordinarice, mas o que verdadeiramente me preocupa é saber se a canção tem génio criativo, se a rima e a métrica estão com nível. Se não se limitou a rimar palavarão com melão, ou assim.

O problema das escolas é que não dão valor à veia criativa das crianças. São uns básicos.

Passagem de Nível


tralhasdavida,

“Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer de brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias”.

 

(Dulce Maria Cardoso, em O Retorno)

Delícias Conventuais


tralhasdavida,

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A tia Elisa era, na família da minha mãe, uma espécie de Fernando Pessa: nunca ninguém a conheceu com menos de 80 anos. Leve e delicada, cresceu num convento e foi aí que aprendeu a importância do ponto certo do rebuçado.

Vivia no alto alentejo, lá para as bandas de Portalegre, de onde todas as costelas da minha mãe são oriundas.

Um dia a tia Catarina (mulher do seu sobrinho Manel) pediu-lhe ajuda para dar conta de uma remessa de marmelos. Descascaram-se oito quilos, cortaram-se em pedaços uniformes e deixaram-se a cozer no grande caldeirão de cobre da velha cozinha alentejana.

Antecipava-se, para o dia seguinte, a laboriosa operação de os desfazer em marmelada.

Só que, por uma imprevisibilidade do destino, quis Nosso Senhor que o tio Manel exalasse o último suspiro nessa noite, no conforto do seu leito.

De manhã a tia Catarina deu conta da tragédia e mandou chamar a tia Elisa. Enquanto preparava as cerimónias fúnebres, que seriam realizadas em casa, deu-lhe instruções precisas para não deixar que os marmelos se arruinassem.

A Tia Elisa ainda a tentou dissuadir, mas deixar estragar oito quilos de marmelos era coisa que estava fora de cogitação naquela família. De maneira que, vendo a sobrinha irredutível, toca de lançar para o caldeirão os oito quilos de açúcar que a receita exigia.

Só que era preciso ficar ali a dar à colher de pau e convenhamos que a tia Elisa, que devia andar pelos oitenta e cinco, já não tinha propriamente o vigor dos verdes anos.

Às tantas, a viúva resolve deixar por breves momentos a câmara ardente e dar um salto à cozinha para ver em que ponto andava a marmelada. Deu com a pobre da tia Elisa à beira das lágrimas, queixando-se de dores no braço: “Ai filha, tem paciência, que eu não consigo dar conta disto”. A tia Catarina ia tendo um treco. Que se deitassem fora os marmelos ainda ia, agora os oito quilos de açúcar, é que nem pensar.

Arregaçou as mangas, agarrou na colher de pau e, com as suas próprias mãos lançou-se à empreitada.

De quando em quando aparecia uma sobrinha na cozinha a tentar chamá-la à razão “ó tia, venha descansar um bocadinho, deixe lá a marmelada”. E a tia Catarina, sem tirar os olhos do caldeirão, resmungava “deixem-me sossegada, já aconteceu hoje uma desgraça nesta casa, era só o que faltava acontecer outra”.

Reza a história que a marmelada ficou pronta e que o enterro do tio Manel lá decorreu sem mais incidentes.

 

Passados dez anos casou-se a tia Lacas, a irmã mais nova da minha mãe. Os meus pais sabiam que a tia Elisa, na altura com uns 95 anos, fazia gosto em vir a Lisboa ao casamento e resolveram ir buscá-la a Portalegre. 

Apresentou-se no seu modo discreto, carregando um grande saco. A minha mãe simpaticamente perguntou-lhe: “então tia, esteve a fazer doces para o casamento?”. A tia, com o ar envergonhado de quem já não consegue dar conta do recado, respondeu-lhe baixinho: “não filha, só levo uns rebuçadinhos de ovos. Fiz quatrocentos.”

Sabores da Memória


tralhasdavida,

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Um dia destes, durante um almoço em casa da minha mãe, alguém se atreveu a invocar o santo nome do rolo de bacalhau da Covó em vão. E digo em vão porque não há quem dê com a famosa receita. 

Do meu lado, era capaz de jurar que estava guardada numa caixa rectangular, daquelas de lata, ensanduíchada entre um papel rascunhado com o segredo das filhoses de abóbora e outra nota com indicações para os ovos enrolados. A minha mãe jura que se perdeu nas brumas das arrumações. O problema foi que, depois de enunciada a fatídica lembrança, as papilas gustativas de toda a família desataram a salivar em excessos saudosistas.

Com muita pena, não cheguei a conhecer a Covó: uma tia-avó a cheirar a bolo que se despediu do mundo poucos meses antes de eu chegar. Mas o rolo de bacalhau, graças a Deus, foi perpetuado por mais um rol de tempo pela Céu, uma empregada da minha avó que tinha um lugar tão seguro nos nossos corações que até passava os Natais connosco.

Acontece, porém, que a Céu foi viver para a terra vai para mais de 20 anos e o que é certo é que nunca mais ninguém meteu o dente num rolo de bacalhau daquela categoria.

Vai daí que o meu irmão, depois do incontornável almoço, alinhavou meia dúzia de indicações da minha mãe e resolveu encetar a empreitada de delegar na Patrocínia, uma cozinheira de mão-cheia, a reconstituição da famosa iguaria.

Foram-se fazendo experiências. Primeiro estava atirar para o soufflé, depois ficou abatatado em demasia e, por fim, lá pela quarta tentativa, já se tinha conseguido uma aproximação bastante razoável. Mas, confessava o meu irmão, se era certo que se tinha acertado na textura, ao sabor ainda lhe faltava qualquer coisa. Um tempero, um ingrediente, uma qualquer especiaria que ele não conseguia identificar mas que remetia irremediavelmente esta versão para a segunda divisão dos rolos de bacalhau.

Fui forçada a chamá-lo à razão. O ingrediente que ele procurava era a essência da Covó e da Céu. E isso ainda não é coisa que esteja à venda no Pingo Doce.

Diário Secreto


tralhasdavida,

Resolvi começar a escrever este diário porque li não sei onde (muita porcaria lê uma pessoa na internet, caramba) que a escrita é como um músculo que precisa de ser trabalhado todos os dias. De maneira que, numa tentativa de contrariar a tendência de todos os meus outros músculos, que se regozijam na inércia, meti mãos à obra.

Confesso que me sinto ligeiramente ridícula, que isto de escrever diários é entretém de miúda adolescente. Já não temos idade para vir para aqui contar segredos, não é senhor diário? Ah, ah, ah, o senhor não estava à espera que eu lhe contasse todas as minhas intimidades, pois não? Tá bem, tá.

Digamos que usarei este espaço para anotar os pormenores curiosos que me vão passando pela frente à medida dos dias.

No outro dia, por exemplo, descobri que uma senhora que anda há meses no meu curso de escrita criativa é avó do João André, colega do meu filho na escola.

É um faits divers, bem sei, mas interessa-me deixar registado, a este propósito, que a mãe da criança (ex-nora da senhora) é gótica aos quarenta anos. Mas é um gótica catequista, não façamos confusões, das que levam a viola nas festas da escola e cantam com o fervor da Maria Von Trapp.

Lembrei-me disto porque andamos a estudar a construção das personagens e discutia-se precisamente a necessidade de se criar personagens espessas, desconcertantes, com várias camadas. Ora se há personagem improvável, é a Alice. Macacos me mordam.

O filho da senhora também dava um belo protagonista. Altíssimo, sempre de gabardine no Inverno, e com chapéu de detective.

A meio da aula distraí-me e lembrei-me que aqui há uns tempos tinha imaginado a cena de um homem que queria doar o corpo à arte (vs doar o corpo à ciência) e que perseguia artistas plásticos para combinar com eles o que lhe iriam fazer assim que entregasse a alma ao criador. Tenho de procurar essas notas, que acho a ideia de génio.

Ás vezes tenho ideias geniais. E preguiça também.

Cá Por Casa


tralhasdavida,

Caiu um dente ao Pinto. Claro que o perdeu. Estava no caixote do lixo embrulhado num guardanapo de papel. O Ratón Perez trouxe-lhe 5 euros e deixou um post-it a agradecer.

(O Ratón é galego, claro, para não haver hipótese de ser apanhado no portuñol dos post-its que escreve)

A Propósito da Americanada de Hoje Ser Dia dos Irmãos


tralhasdavida,

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Gui, Zé, Cácá, Lili,

metiam-me na ordem

e encaixavam-me

na bagageira da bicicleta

estrada fora

em curvas rápidas

de cem à hora

(menos a Gui

que nunca aprendeu

a andar de bicicleta)

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

riam-se da minha meminice

e troçavam da tontice

às vezes

mandavam-me calar

e eu fechava o bico

para não dar chatice

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

tinham segredos

de crescidos

que eu não podia saber

mas faziam corridas

comigo às cavalitas

davam-me gelados

e levavam-me

sempre atrelada.

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

são agora

do meu tamanho

e às vezes

pedem-me ajuda

Cá por Casa


tralhasdavida,

Rodrigo Prieto chega a casa todo desconsolado porque tinha ido à casa de banho da escola e, sem querer, tinha deixado cair na sanita uma bolacha que lhe estava mesmo a apetecer comer. Comentei que essa podia ser considerada a digestão mais rápida do mundo, mas não me parece que o tenha animado.

O Blogue da Semana


tralhasdavida,

Esta, de entre todas as semanas possíveis, calhou-me a mim escrever a rubrica do blogue da semana. Ora não fica lá muito bem uma pessoa andar a promover um blogue seu, mas acontece que passei o dia de ontem a carregar os caixotes que vão permitir que o meu blogue passe as fronteiras da vida virtual e se materialize na vida real. E isto é tão espectacular que tem de ser contado, sobretudo quando acontece nesta semana, precisamente.

Quem me conhece sabe que ando sempre a inventar projectos de angariação de fundos para a APPT21 (até suspeito que haja quem já não me atenda o telefone, de tanto ter sido melgado).

Ora, por alturas de 2011 fiz uma grande arrumação às estantes e achei que fazer um blogue para leiloar livros na net era uma belíssima ideia. Juntou-se-me uma amiga que se prontificou a tratar dos assuntos administrativos e assim nasceu o Déjà Lu, primeiro devagarinho e depois com uma data de posts por dia e muitos fiéis compradores.

Arranjámos vários locais onde qualquer pessoa podia deixar livros que quisesse doar, apareceram outros voluntários que se juntaram a nós e o projecto foi crescendo. 100% das vendas eram entregues à APPT21, importa dizer e todo o trabalho era voluntário.

Mas a vida vai dando voltas e a disponibilidade das pessoas muda de ano para ano, de maneira que ao fim de uns tempos não conseguimos manter o ritmo inicial e começámos a ter períodos de interregno  cada vez mais prolongados. Choveram reclamações, continuavam os donativos em livros que apareciam em volumosos caixotes. Coisas boas, tão boas, caramba.

Este ano, já com as disponibilidades recompostas e a equipa de voluntariado reforçada, fomos ter com o Grupo Pestana à Cidadela de Cascais para pedir um espaço. Foi-nos cedido, com um sorriso e toda a boa vontade. Vamos estar por cima do restaurante A Taberna da Praça, em permanente tagarelice com pratos, culinária, tertúlia e literatura.

Mas vamos retomar o blogue, também. Porque 80% dos nossos clientes são de fora de Lisboa e ainda nos escrevem a dizer que têm saudades nossas.

A arrumação do espaço vai ocorrer esta semana. É por isso que este é o meu blogue da semana. Real e virtual.

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Reinaldo Moraes, O Safado


tralhasdavida,

Quando aqui há uns anos a Pornopopéia de Reinaldo Moraes fez furor, atirei-me ao tomo à confiança. Cumpria o que prometia: uma verdadeira epopeia pornográfica que, com muito humor, chegava aos interstícios mais recônditos de qualquer corpo humano que se atrevesse a passar defronte da esferográfica do autor. Sexo de bradar aos céus, bem à bruta, objectos a entrarem e a saírem de orifícios variados, muita droga e muito rock and roll.

Escreve bem que se farta, o Reinaldo Moraes, como ele próprio diz, “com tesão pela escrita”, mas ao fim de umas cento e cinquenta páginas, aquilo já era xoxota a mais para mim, e, não obstante umas boas gargalhadas e o reconhecimento do nível literário da obra, rendi-me e deixei o resto do livro para ser lido em doses moderadas.

Chegou agora às bancas brasileiras “O Cheirinho do Amor – Crónicas Safadas” que deve ser precisamente isso: Reinaldo Moraes em doses moderadas, ou pelo menos uma javardeira já com uma certa ternura agregada.

Estou morta para lhe meter as mãos em cima.

 

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