Livros Que Deixei a Meio


tralhasdavida,

 

 

Pelo-me por uma história em que não sei quem resolveu abrir uma livraria numa pequena aldeia de não sei onde.

Ora, tendo lido que esta “é uma obra-prima acerca do mundo dos livros, dos sonhos e das vicissitudes da vida, sob a forma de uma história envolvente e original”, me atirei ao touro com toda a confiança. Aguentei-me à bronca até meio, mas quando a história, para além de mortalmente enfadonha, foi ensombrada por um fantasma, achei que era demais.

Dizem que autora ganhou o Booker. Deve ter sido no ano em que disputou a shortlist com a Danielle Steel.

Postais do Meu País Improvável


tralhasdavida,

Numa aldeia do meu país improvável existe um alemão que, pela manhã, se senta de ceroulas nos degraus defronte de sua casa e um francês que toma duche ao ar livre, todo nu, praticamente no meio da rua. Ando mortinha para que algum forasteiro me venha falar disto, só para poder dizer que são figurantes dos Fura Del Baus, contratados para dar exotismo à região.

Adopções Com Cromossomas a Mais


tralhasdavida,

Primeiro conheci a Maria João. Tinha feito uma adopção singular e apresentava-se com o seu filho Bruno pronta para aprender o que fosse preciso sobre trissomia 21 para poder ajudar aquela criança a crescer.

Depois conheci a Maria, mãe de quatro filhos biológicos, a quem ligaram um dia a perguntar se queria ser mãe da Margarida. Foi assim que a Margarida lá foi parar a casa e que a Maria passou a ser sua mãe, o marido, pai, e os filhos tão irmãos que não seriam mais parecidos se o fossem de sangue.

Uns meses mais tarde, quando se soube que havia outro bebé com trissomia numa instituição, um casal amigo da Maria prontificou-se imediatamente a ficar com ele e o Manel ganhou uma família.

A seguir conheci o Fernandinho, um miúdo de dois anos engraçadíssimo que corre por todo o lado com cara de rufia. Também estava numa instituição e também houve quem se prontificasse a amá-lo.

Na semana passada, passei os olhos a correr por um email que dizia que um bebé com trissomia 21 tinha sido abandonado na maternidade e onde se pedia ajuda para encontrar uma família que o quisesse. Umas horas mais tarde, quando voltei ao email para o ler com calma, o bebé não só já tinha pais, como tinha ganho um irmão.

É por estas e por outras que acredito que ainda há esperança.

Postais do Meu País Improvável


tralhasdavida,

No meu país improvável, às vezes vou à povoação vizinha pelo caminho de baixo. Não por ser mais curto, muito pelo contrário. É um troço de terra que me obriga a passar por pequenos riachos, facilmente evitáveis se preferisse calcorrear o alcatrão. Mas por ali vou muito tempo sem rede de telemóvel, tanto tempo que por momentos chego a acreditar que estou a chegar à Nova Zelândia.

A meio do caminho de baixo costumo cruzar-me com cabras a pastar e levanto o braço num aceno para cumprimentar quem estiver a tomar conta delas.

Um dia fui surpreendida por uma jovem pastora de semblante alemão, com cabelo em rasta, que em pleno pasto envergava umas calças de algodão largeironas enroladas na cintura e uma parte de cima de um biquíni. Numa mão um cajado e, na outra, um livro aberto, dobrado pela lombada.

Ao dar pela minha passagem, levantou a cabeça e respondeu ao meu aceno com um sorriso.

Passagem de Nível


tralhasdavida,

“(…) os graffitis exigiam que os ricos fossem comidos, postos na cadeia ou exterminados por meio de aumento dos impostos. Embora às vezes me parecesse boa ideia, eu esperava que a revolução não acontecesse enquanto eu fosse vivo. Não queria que os ricos desaparecessem antes de eu ter oportunidade de, pelo menos durante algum tempo, ingressar nas suas fileiras”.

 

David Sedaris em “Eu falar Bonito Um Dia”

Idiossincrasias


tralhasdavida,

Dorotheia nunca foi mulher de alinhavos. Na profissão, tal como na vida, fazia ponto de honra em costuras pespontadas a rigor, acertadas com esmero e mestria.

Mãe viúva, sozinha aos trinta e poucos anos, criou dois filhos como se não gostasse deles. Não porque realmente não gostasse, mas porque o esforço de viver lhe exigia tanto que não lhe sobrava energia para os afectos.

O meu pai e o meu tio foram criados entre cortes de tecido, carrinhos de linhas, latas de botões com tampas de amores-perfeitos e muitas femininas conversas misteriosas sussurradas entre as aprendizas.

 

Senhora Dona Dorotheia era modista reconhecida, capaz de transformar um vulgar pedaço de pano numa cópia fiel de qualquer modelo Chanel acabado de chegar de Paris.

Encarava a vida de forma austera e raramente se permitia uma extravagância. O seu luxo consistia em admirar, entre os dedos, dezenas de pedras luminosas que coleccionava para pregar nos vestidos. Pequenas missangas prateadas, lantejoulas ou botões acetinados que guardava religiosamente em caixas de cartão à espera de uma ocasião que lhes fizesse justiça.

 

Quando a conheci foi como avó Thea. Quando os anos já tinham levado grande parte da amargura e dos desgostos e, na lata dos amores-perfeitos, os botões tinham dado lugar a bolachas de chocolate subrepticiamente surripiadas pelos netos.

Mas ainda presenciei, por várias vezes, a sua mórbida obsessão pelos cerimoniais da morte. Tendo enterrado a maior parte dos seus entes queridos, para nosso desespero entretinha-se a planear o seu próprio funeral até ao mais ínfimo pormenor. Fez-nos jurar que lhe cobriríamos a cara com um lenço rendilhado oferecido por uma antiga cliente, que lhe colocaríamos uma lápide de mármore na sepultura, que mandaríamos gravar na lápide as datas de nascimento e de morte, que a cobriríamos de flores, eu sei lá.

 

Num dia em que, no atelier de costura, todos admirávamos um lindíssimo vestido de seda preta, acompanhado de cinto de brilhantes, lembrou-se de repente que gostaria de o usar a caminho da última morada. Acrescentou, no entanto, que fizessemos o favor de lhe tirar o cinto porque era mal empregado para a ocasião.

No Limite


tralhasdavida,

Se esta série não fosse tão escabrosa, eu recomendava-a. Mas tem o problema de estar repleta de cenas desbocadas, interditas a menores, pelo que não se pode andar por aí a gritar que é imperdível.

Havia de me ficar mal confessar que morro a rir em cada episódio.

 

 

No Limite, ou Shameless no original, na Foxlife quando lhes dá na telha.