Dorotheia nunca foi mulher de alinhavos. Na profissão, tal como na vida, fazia ponto de honra em costuras pespontadas a rigor, acertadas com esmero e mestria.
Mãe viúva, sozinha aos trinta e poucos anos, criou dois filhos como se não gostasse deles. Não porque realmente não gostasse, mas porque o esforço de viver lhe exigia tanto que não lhe sobrava energia para os afectos.
O meu pai e o meu tio foram criados entre cortes de tecido, carrinhos de linhas, latas de botões com tampas de amores-perfeitos e muitas femininas conversas misteriosas sussurradas entre as aprendizas.
Senhora Dona Dorotheia era modista reconhecida, capaz de transformar um vulgar pedaço de pano numa cópia fiel de qualquer modelo Chanel acabado de chegar de Paris.
Encarava a vida de forma austera e raramente se permitia uma extravagância. O seu luxo consistia em admirar, entre os dedos, dezenas de pedras luminosas que coleccionava para pregar nos vestidos. Pequenas missangas prateadas, lantejoulas ou botões acetinados que guardava religiosamente em caixas de cartão à espera de uma ocasião que lhes fizesse justiça.
Quando a conheci foi como avó Thea. Quando os anos já tinham levado grande parte da amargura e dos desgostos e, na lata dos amores-perfeitos, os botões tinham dado lugar a bolachas de chocolate subrepticiamente surripiadas pelos netos.
Mas ainda presenciei, por várias vezes, a sua mórbida obsessão pelos cerimoniais da morte. Tendo enterrado a maior parte dos seus entes queridos, para nosso desespero entretinha-se a planear o seu próprio funeral até ao mais ínfimo pormenor. Fez-nos jurar que lhe cobriríamos a cara com um lenço rendilhado oferecido por uma antiga cliente, que lhe colocaríamos uma lápide de mármore na sepultura, que mandaríamos gravar na lápide as datas de nascimento e de morte, que a cobriríamos de flores, eu sei lá.
Num dia em que, no atelier de costura, todos admirávamos um lindíssimo vestido de seda preta, acompanhado de cinto de brilhantes, lembrou-se de repente que gostaria de o usar a caminho da última morada. Acrescentou, no entanto, que fizessemos o favor de lhe tirar o cinto porque era mal empregado para a ocasião.