A senhora terminou a sessão com o psicólogo que lhe diz:
– “Para a semana trabalharemos com o inconsciente”.
Responde ela:
– “Não acredito que o meu marido queira vir”
Momento Parvo num Prestigiado Blogue
tralhasdavida,
A senhora terminou a sessão com o psicólogo que lhe diz:
– “Para a semana trabalharemos com o inconsciente”.
Responde ela:
– “Não acredito que o meu marido queira vir”
Rita Prieto, 6 anos, com ares de importante: “Desde criança que confundo o Jumbo com o Lidl”. Há uma eternidade, portanto. Toda uma vida de engano na área da grande distribuição. Coitada.
A Vida em Surdina revela um David Lodge maduro, aprimorado pela idade. É um livro que se vai degustando pelas páginas fora, não desempenhando a trama um papel mais relevante do que o de um cabide onde se penduram considerações deliciosas sobre os mais diversos assuntos mundanos.
Estão assegurados todos os ingredientes típicos do autor, numa deliciosa combinação de graça e desgraça ou de comédia e tragédia. E, claro, a elegantíssima fleuma britânica mesmo quando aborda temas tão desagradáveis como a flatulência.
Tão bem escrito que dá vontade de continuar a ler mesmo quando já se acabou.
Esta semana, este post levou-me às lágrimas. Não é a primeira vez que acontece no Mesa Marcada, um blogue que teima em desviar-me dos virtuosos caminhos de uma dieta restritiva.
A primeira lágrima foi vertida logo ao início, à menção de pastelinhos de bacalhau com feijão frade. Depois, assim que falaram em filetes de polvo com arroz do mesmo, comovi-me a pontos de não me conseguir conter, de maneira que me desmanchei em prantos por aí fora, regando a vitela no forno com as mágoas que se soltaram e deixando fluir a torrente até à rabanada que se fazia acompanhar com toda a ternura por aletria (uma rabanada, meu Deus). Foi de tal maneira que até se me turvou a vista enquanto fazia scroll no ecrã.
É assim o Mesa Marcada, um blogue que trata a gastronomia com o amor e carinho que merece. Há outros que falam de saladas.
Era uma menina que adorava comer. Gostava tanto de comida que, à noite, em vez de histórias, queria que lhe lessem receitas. Um dia, foi a casa de uma tia que tinha uma despensa à antiga, coisa que ela nunca tinha visto, e voltou de lá em êxtase, a dizer que a tia Irene tinha uma “Casa da Comida”.
“…ao vê-la no seu uniforme branco, sapatos rasos e tranças de matrona, a outra paciente pensara que a Polly devia ter pelo menos vinte e seis anos”.
Excerto retirado de “O Grupo”, por Mary McCarthy, publicado originalmente em 1963.
Ontem foi por um triz que não ferrei um par de beijocas no Carlos Vaz Marques a achar que era alguém com quem tinha trabalhado em tempos, ou assim.
Muito, mas mesmo muito bom, até três quartos da história. Lá pela página quinhentos dá a sensação de que Adichie tinha uma data de notas em arquivo que não queria deixar de aproveitar para o livro e, já desgastada pelo cansaço de tanta página, desatou a enfiar tudo a martelo.
É um interessantíssimo tratado sobre raça, que aborda de forma prosaica questões sobre as quais nós, ocidentais brancos, nunca tínhamos pensado, começando pela perspectiva da personagem principal que afirma que só quando chegou à América é que tomou consciência de si própria enquanto negra.
Um bom (e até simples) trabalho de edição teria levado este livro para outro patamar literário. De qualquer forma, recomenda-se com convicção.
Era um menino que adorava brincar às missinhas. Paramentava-se, colocava as mãos em concha e murmurava as rezas.
Hoje chamei insolente ao meu filho Manel. Ele não sabia o que era. Foi quando lhe chamei analfabeto.
Uma pessoa percebe que está a tudo a ficar choné quando, numa pizzaria nos confins do mundo, alguém sussurra que viu o Diogo Morgado a ir em direcção à casa de banho e, após minutos de suspense, em vez do Hot Jesus, vemos sair de lá um tipo vagamente parecido com o Nuno Lopes.
FITA-GOMADA
Descobri recentemente o projecto Humans of New York e, como sou particularmente chegada quer a Humans, quer a Nova Iorque, ando deliciada com as histórias que todos os dias são publicadas.
O mentor do projecto chama-se Brandon e fotografa nova-iorquinos desde 2010. O Humans of New York partiu da ideia de construir um census fotográfico da cidade de Nova Iorque. Brandon pretendia criar um catálogo exaustivo dos habitantes da cidade e, para isso, propôs-se fotografar 10.000 pessoas. No entanto, algures a meio do percurso, o projecto tomou outros contornos quando Brandon decidiu recolher pequenos depoimentos das pessoas que ia conhecendo e anexá-los às fotografias.
O resultado é um blogue por onde apetece vaguear em dias adomingados.
Uma mãe tem de ter muito arcaboiço para ouvir de um palerma de 11 anos “ai, mãe, que com essa carteira assim pela mão pareces uma saloia” e responder com toda a prontidão “olha, Manel Prieto, fica sabendo que esta tua mãe nem vestida de minhota, de faces coradas e a dançar o vira, algum dia vai parecer uma saloia, ouviste?”. Estes miúdos têm cá uma falta de noção.
O cúmulo de se ser de antigamente é uma pessoa mandar vir o CD do concerto do Simon & Garfunkel no Central Park e dar por si no carro a gaguejar nas partes em que tinha o LP riscado.
Um dia, num hotel do meu pais improvável, chegou um rapaz que, pela incompreensibilidade do discurso, se supôs ou provir de um reino distante, ou ser louco. À cautela, informaram-no da diária. Dormida por uns tantos euros, incluíndo a pernoita do cão.
O rapaz levou a mão ao bolso das calças andrajosas e retirou um maço de notas. O suficiente para acautelar a despesa. Mais do que suficiente para intrigar quem o recebeu.
Durante várias jornadas, à hora da refeição, dirigiu-se ao restaurante e apontou para a ementa. O pedido repetiu-se dia após dia: um prato de frango, com guarnição à parte. O cão comia a carne, ele alimentava-se da guarnição.
Ao fim de uma temporada, numa viatura de gabarito incontestável, chegou ao hotel um senhor de fato escuro. Acertaram-se as últimas contas e, rapaz e cão, entraram para o carro com um aceno de despedida. Pelo que se percebeu, o senhor era motorista, chauffeur à antiga. De resto, não se percebeu mais nada.