O ambiente de comentário nos blogs


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Deixei um postal, meio esparvoado, sobre comentadores televisivos. Um desses azedos comentadores anónimos, aqui habituais, que se saracoteia na internet como “makiavel”, pergunta qual o assunto do postal – precisamos de ter assunto numa actividade gratuita como é blogar? Continuo a perguntar-me, qual a pertinência do azedume espetado nos comentários de um blog, gratuito, sem agenda e até algo heterogéneo em termos intelectuais e ideológicos? Discordar de textos sim, mas há um punhado de anónimos que aqui vem constantemente deixar fel (até agora, neste terrível momento nacional e internacional, de congregação moral, caramba). Eu não falo de “Lavoura”, que é – cônscia ou inconscientemente – algo pitoresco nas suas constantes picardias. Falo de outros, sob alcunhas, que os leitores habituais do blog já conhecerão. 

Para sublinhar a sua reacção ao postal sem assunto deixa o tal makiavel esta adenda: ““(…) livros e vêm utilidade em lê-los.” Não será ‘veêm’?“. O autor do postal, eu-mesmo, deixou um erro ortográfico e o acidozinho logo se solta. Impante.

Cometi eu um erro ortográfico? Foi uma “gralha”? É isso denotativo da falta de assunto do postal, de défice intelectual do bloguista? É isso suficiente para ir comentar com o “leve toque de azedo”?

Foi um erro? Eu reproduzo um velho postal, escrito quando era professor. E sim, o que quis escrever foi “vêem”.  E não vejo, continuo a não ver, qualquer interesse em acumular comentários deste tipo de comentadores anónimos.

(Postal no blog ma-schamba de 7 de Agosto de 2014)

 (Matola-rio, Junho 2014)

Houve uma avaliação aos professores em Portugal. Não faço a mínima ideia do seu conteúdo ou qualidade. Apenas leio uma notícia com o título “Maioria dos professores deu erros [porventura o jornal quereria dizer “errou”] de português na prova da avaliação“, “ortográficos [de ortografia?], de pontuação [pontuativos?], de sintaxe [sintácticos?]”. O breve título é repetido no DN, no JN e no Público, deixando adivinhar alguma origem que lhes é estranha, talvez até oficial. Enfim, bastará o seu coloquialismo e a ilógica presente nas poucas cinco palavras que descrevem os erros acontecidos para provar que isto de escrever português é um martírio. Infelizmente não há notícias sobre hipotéticos erros em matemática, química, desenho, história ou outras quejandas coisas.

Como os visitantes do blog bem sabem cometo falhas ortográficas. Não muitas, mas algumas: ainda há pouco foi um “insonso” que me valeu insultos de visita discordante, … E esforço-me, sempre atrapalhado com isto dos hífens, e agora ainda mais devido à tralha ortográfica, sempre entre o dicionário e o google. Quanto à sintaxe e à pontuação é melhor nem falar, uma constante trapalhada – esta tendência de virgular cada arquejo, para travessar cada meneio. Por isso estou solidário com os colegas erradores.

E espero que não levem purrada.

Homenagem com “consoantes mudas”


Pedro Correia,

Chego ainda a tempo de deixar aqui a minha singela homenagem a cinco colunistas do Diário de Notícias, que tornaram evidente a sua opção de continuar a escrever nos termos da ortografia clássica, contrariando as novas directrizes da casa, que abraçou o ‘acordo ortográfico’ — bem patente em palavras como ‘ator’, ‘adota’, ‘reativados’, ‘projeto’ e ‘arquitetura’, já estampadas em títulos da edição de hoje.

Duvido que esta orientação permita ao centenário matutino, cujos leitores são em geral de uma idade muito avançada, recuperar as vendas e audiências de que anda carecido. Mas gostaria de elogiar a elegante nota de rodapé mandada publicar pela direcção do jornal pelo menos em cinco espaços de opinião também na edição de hoje. “Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico”, reza esta nota, no final dos textos de João César das Neves, Joaquim Jorge, Joel Neto, José Adelino Maltez e Mário Avelar.

Precisamente os cinco que merecem a minha homenagem. Cheia de “consoantes mudas”, para destoar dos ventos dominantes.