![20200326_160322[1].jpg 20200326_160322[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2020/21741528_1zzzM.jpeg)
(Postal para o meu mural de facebook)
Meus queridos amigos,
de súbito brotou um “même” nas redes sociais, o gozo aos comentadores televisivos que, pois agora confinados em casa, surgem na tv via seus computadores tendo atrás estantes apinhadas de livros. Ou seja, é ridículo ter livros e fatela mostrá-los.
Eu percebo as irritações por princípio, os “preconceitos” como agora se diz. Ou, melhor, os “ódios de estimação”, como o magnífico MEC lhes chamou um dia, aqui há atrasado. Eu, apesar de mim-mesmo, também os pratico. E enuncio-os: detesto o presidente da Assembleia-Geral do Sporting, o dr. Rogério Alves, apenas e exclusivamente porque trata toda a gente por “querido amigo” (ver acima, neste postal). E abomino, até ao desejo de extermínio, todos os patetas que se (auto)representam com a queixada sob a palma da mão, como se sinalizando o peso do intelecto, tamanho que assim necessita de suporte (ver foto avulsa). Por isso percebo, humano que sou, que detestem só por detestar os tipos que têm livros em casa, amontoados num estrado a que chamam estante e guardados (para hipotética consulta, em alguns casos) numa divisão – recordo que os livros acumulam pó, nisso ácaros, e que não convém tê-los nos quartos de dormir. Por questões sanitárias, mais que não seja.
Há pessoas que têm livros. Eu próprio os tenho. Aqui me selfizei (como vós, “meus queridos amigos”, agora falais) na sala da pequena casa aquém-Tejo na qual me aboletei. Um T1, rústico e maravilhoso, no qual está a estante. Duas prateleiras (correspondentes a uma mala de viagem e uns sacos) de livros meus, vindos para este pré-apocalipse, três outras com livros residentes. Faz parte … Desde há uns tempos, séculos até (consta que pelo menos desde D. Quixote), os remediados têm prazer em comprar livros e vêem utilidade em lê-los. E nas casas (térreas ou apartamentos) congregam-nos numa divisão na qual alguns, segundo a profissão, até trabalham. Ou estudam. Chamam-lhes escritórios, por vezes. Os meus avós tinham-no (magnífico o do meu avô materno, até com mesa de fumo, belíssima, oferta de um regimento que comandou. Vem essa passando de mão em mão, por linha masculina [mas não varonil]. Chegou-me e depois de a viver dei-a, há uns dois anos, a um sobrinho que um dia a virá a passar a seu filho, presumo). Os meus pais também tinham escritórios, carregados de livros. E era o meu pai pessoa bem-educada, tal como o é a minha mãe. Mesmo assim tinham escritórios. Eu tenho-o – ainda que os livros estejam também noutras divisões da casa (no corredor, na sala de refeições, burguesmente dita “de jantar” – a gente já não pode almoçar em casa -, nos quartos e até, para minha vergonha, na cave).
Ou seja, é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho. No qual tem livros, já que é um burguês e – sendo opinador – presumivelmente trabalhador intelectual. Sei que muitos de vós usam os telefones na sanita [já agora é “sanita” que se diz e não “retraite”, ó seus bimbos armados em finórios]. Mas, de facto, o mais normal é que quem tem que falar em público desde casa não o faça sentado na sanita. Nem em locais com usos estritamente domésticos (ex. o tanque de lavar roupa). Ainda para mais quando, muito provavelmente, lá estão os outros membros da família.
É óbvio que há excepções. Temáticas. Ontem passei pelo canal 11, da bola. E nele estava um friso de 6 comentadores em simultâneo, a falarem (sei-lá-do-quê). Todos tinham as traseiras lisas, nem um livro à mostra. Acredito que os tenham em casa, a alguns exemplares. Mas para aquele público – os compatriotas mais morcões que assistem a painéis futeboleiros – parece mal mostrar livros, descredibiliza os locutores. Não sei se os “meus queridos amigos” me estão a seguir no silogismo … são os que comungam sensibilidade e gosto com estes espectadores da bola, os tais compatriotas mais morcões, que agora andam a gozar com os literatos que falam na tv.
Enfim: não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam desde casa para a tv com as estantes atrás. Repito, é normal tê-los (até eu os tenho), e é normal que se fale para fora numa pequena sala com as paredes algo cobertas de livros.
O que os meus queridos amigos poderiam analisar, e até gozar, é o que esses comentadeiros dizem. E, se tiverem paciência para tal, especularem sobre as agendas, pessoais e colectivas, que transportam no perorar. Muito mais à frente, talvez apenas em era pós-covidiana, poderiam até questionar este tipo de fazer informação televisiva, sem reportagens substantivas e com uma série infinda de charlas inócuas e/ou interesseiras.
Entretanto, e porque confinado, eu vou gozando com os tais morcões. Os que julgam que têm piadola.

é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho
Eu não me parece isso nada normal, mas enfim. Não me parece normal que um tipo trabalhe em casa. Não me parece normal que um tipo tenha um “local doméstico de trabalho”. O meu pai era cirurgião, a minha mãe era bibliotecária, nenhum deles trabalhava em casa. Eu também não trabalho em casa.
As nossas casas, acho eu, são locais de descanso e de vida privada, não são locais de trabalho. Parece-me…
Tá bem Lavoura. Acima de tudo cuide-se, não se deixe levar, que o DO sem si não seria a mesma coisa.
Lavoura, você é um gajo porreiro na ostentação. Uma mãe que era bibliotecária e um pai que era cirurgião; certamente para dizer que por detrás desse comentário o meu caro tem uma série de lombadas que não leu.
Já vi de onde vem o critério do DO para que você permaneça como comentarista semanal de plantão.
Nota: jpt, não esqueça o cachimbo que volta a estar na moda.
Também me parece que muito do que se teleouve procede de umas boas cachimbadas.
Muito bom.
Obrigado pela gentileza.
para aquele público […] mostrar livros descredibiliza os locutores
não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam com as estantes atrás
Há razão para gozar, porque essa exibição dos livros destina-se, precisamente, a credibilizar quem fala perante quem vê. Ou seja, é somente show off.
Os livros exibidos – que podem nem ser reais, há quem arranje umas imitações de lombadas de livros para fingir que é um tipo muito lido – credibilizam perante certo público, tal como descredibilizam perante outro público. No primeiro caso, trata-se apenas de uma exibição de saber e literacia, que podem não ser reais.
As pessoas devem falar perante um fundo neutro. Ninguém tem nada que saber se nós temos livros em casa ou não temos, ou que outras coisas temos em casa. Os ouvintes são supostos julgar-nos por aquilo que nós dizemos, não pelas coisas que se vêem atrás de nós. Quem nos ouve não é suposto estar a visitar a nossa casa.
‘Querido amigo’ jpt, está visto: o Senhor é muito feio carago. E então com os livros na rectaguarda nem lhe digo …
Por favor ponha uma bolinha vermelha num dos cantos superiores da fotografia!
Smoreira
Era o que faltava, achava que eu era dos bonitos?!… francamente. Quanto à bola vermelha nem pensar, não sou pela censura. E o parental guidance não é para blogs de adultos como este DO é …
Após a leitura deste posto, constato, talvez, que a minha preocupação não terá tanto de se deslocar para o facto de eu próprio ser proprietário de visíveis prateiras – fatelas, pelos vistos! – com livros atrás de mim. Desconhecia, aliás, que, perante certas franjas “opinionistas”, abrigava e dava guarida a um tal de “monstro” bem atrás das minha costas, numa parede de um petulante escritório.
Na verdade, a circunstância de não poder nem ter de as exibir (às malditas prateleiras com livros) em qualquer programa mediático de televisão, por força da condição fatídica onde estão sentadas, não só a minha vulgar figura, como também a uma desinteressante existência própria, isso será, para além da confirmação da minha insignificante inutilidade, um motivo de uma tranquilidade pessoal meio burguesa, à prova de críticas na praça pública.
Não esteja assim tão tranquilo, é sabido que nestas coisas um papagaio é sempre muito bem-vindo.
Livros são sempre bons de ter, seja no armário (jpt) ou na mesinha de cabeceira (jp)
O problema é tirar os livros do armário, isso é que é (já agora, quem é esse jp?)
O jp era o que tinha sempre o livro na mesinha de cabeceira.
)
(é um clássico, decerto que o jpt ou um dos seus colegas chega lá
Todos temos necessidade de nos impor e gozar com as menoridades do vizinho do lado. Faz de nós gente. E cada um goza com aquilo que não gosta e, sobretudo, não percebe.
É a matrioska da vanglória. Cada degrau de vaidade faz questão de espezinhar a vaidade do degrau anterior.
Gostei muitíssimo de ler o seu escrito. Senti-me verdadeiramente irmanada no ódio de estimação ao Dr. Rogério Alves e, sobretudo, na alusão às agendinhas interesseiras da moda. Mas confesso-me uma parola finória: encanita-me a ‘sanita’. Tal como o esposa ou o funeral. Não há volta a dar, por mais explicações linguísticas me sejam dadas, para mim vale a velha e rústica retrete (e não retraite).
Aqui entre nós, que ninguém nos ouve (e peço-lhe recato futuro sobre este assunto) eu também vou dizendo “retrete”. Mas fica bem dizer estas coisas rijas, fazem-me como se de Tormes fosse …
Agora lembrei-me de algo que a jornalista Helena Ferro de Gouveia postou no seu mural do facebook. Ela teve um problema em casa (não sei se foi uma parede rachada, ou outra coisa, já foi há uns tempos) e chamou alguém que lho resolvesse. O homem, a certa altura, disse-lhe: “vejo que a senhora tem muitos livros; também há papel de parede com padrão de livros arrumados em estantes; faz o mesmo efeito e ocupa menos espaço”.
É verdade!
Já vi esse papel à venda
onde? que me dava jeito, ainda tenho esperança num convite para comentador algures
É informação sigilosa!
Vai na volta o Luís Lavoura também viu isso no mural da jornalista, daí ter-lhe servido de fonte de inspiração para o comentário com que abrilhantou o debate.
Realmente: porquê livros? Seus gastadores sem controlo.
Papel de parede a mostrar livros e fica-se na mesma bem sem se gastar muito dinheiro.
Deliciosa saída essa. E cheio de razão estava o homem (não é só o espaço, é o maldito pó …).
O meu “querido amigo” jpt diz-me que sou uma “pateta que abomina até ao desejo de extermínio.”
Snif, snif
Como já expliquei alhures, mas aqui o repito, julgo que saberás que sou eu muito sensível ao “belo sexo”. Como tal a minha volúpia exterminadora restringe-se ao sexo masculino, e resguardo o género feminino de quaisquer críticas. Aliás, adianto, que muito bem ficas de queixada apoiada no bela palma de tão delicada mão.
Repeti o comentário para ver se mantinhas a lábia na resposta:)
Eu gosto de tentar ver que livros têm e se os acho ou não interessantes
Ora lá está uma análise construtiva …
Eu trabalho com dezenas de pessoas de todo o mundo.
Graças aos fusos horários muitas reuniões têm alguém a juntar-se a partir de casa, mesmo quando a maioria está numa sala de reuniões. Há sempre alguém que acabou de acordar, ou já jantou. Vicissitudes de se trabalhar com fusos horários 10h+ separados.
Agora está toda a gente em casa. O que é chato, porque uma vídeo conferência a 10, com 10 câmaras é pior que 5+3 em 2 salas e 2 tipos já em casa. Mas adiante.
Em dezenas de colegas ainda não vi nenhuma estante de livros apinhada, apesar de já ter visto colegas com bebés ao colo, baterias, violas, pranchas de surf, garrafeiras e muitas outras coisas mais interessantes.
Pessoalmente, os meus poucos livros (e DVDs, CDs) estão em estantes fechadas, porque sempre odiei limpar-lhes o pó, e para isso não sinto necessidade de usar portas de vidro (ao contrário dos também poucos bibelôs). Para muitos livros há ebooks, que são bem mais convenientes.
Mas os meus colegas são dos que vêem bebés, um fraldário, um berço e um roupeiro. Tenho lá espaço para um escritório dedicado.
Nuno, muito obrigado pelo seu comentário, que é muito interessante. Em registo de conversa, mas que não de contraposição, o que me diz levanta-me também alguns comentários.
1) V. diz que trabalha com gente de todo o mundo, em diferentes fusos horários. Presumo que gente de diversos países. Como tal, diferentes culturas, diferentes usos e códigos de domesticidade (o que é o “espaço privado” e “pessoal” não é o mesmo em todas as sociedades). E, claro, diferentes relações com os livros e sua necessidade e arrumação. E eu estava a escrever sobre Portugal.
2) Outra coisa é a área profissional. Gente mais ligada (ou profissional) de ciências sociais e humanidades tem um viés mais livresco do que outras profissões. Isto não é uma regra universal, como é óbvio, mas é normal acontecer isso. E, dado que eu falava de comentadores televisivos, o que se passa [já agora, o que se relaciona com a minha conclusão, a forma como é entendida a informação televisiva de hoje, como cúmulo de charlas de “comentadores”] é que os comentadores são, na sua maioria, oriundos das ciências sociais (nas quais, para desespero dos direitinhas ignorantes, se incluem a sacrossanta Economia e o totem Direito), o que enfatiza o (normal) pendor bibliotecário daquelas paredes. Eu não sei qual a sua área profissional e até poderá dizer que, no seu caso, infirma o meu raciocínio, mas julgo que isto é o traço recorrente.
3) Outra coisa é a idade: pelo que me escreve faço-o mais novo do que eu vou, ou pelo menos, faço os seus interlocutores mais novos: fraldas, biberons, berços, para além de instrumentos avulsos de desporto, invocam os 20s/30s anos. E isso levanta outra vez a questão: eu falo de comentadores televisivos. Que geração é a deles? Ou de outra forma, como os caracterizar sociologicamente (a que estrato pertencem, quais as suas formações dominantes, que idade têm, etc?). Como tal, a questão não é que eles tenham livros nas estantes e os mostrem, quanto muito o problema é que aqueles que aparecem pertencem (todos, a grande maioria) a um núcleo cultural/profissional/etário.
4) outra coisa que refere é que não tem espaço para um “escritório”, um espaço dedicado para o trabalho. Insisto, isso tem a ver com a actividade profissional de cada um. E com os interesses de cada um. Mas terá também a ver com outras coisas: rendimento acima de tudo. Quem está sub-remunerado não tem espaço para a divisão extra destinada a isso, seja em arrendamento ou em propriedade imobiliária.
5) a outra coisa é cultural. Como V. diz que vêem coisas “mais interessantes” do que livros, como garrafeiras, instrumentos musicais ou desportivos. Isso é o viés anti-livro, anti-leitura. De facto, anti-intelectual. Eu bebo, e tenho uma pequena garrafeira em casa. Porque será ela mais interessante do que uma estante de livros? Está na minha sala de jantar (como acima referi), ao lado da estante dos livros de banda desenhada e de fotografia. Que tem de mais interessante a visualização dos meus uísques e gins ou (hipotéticos) medronhos do que os meus will eisner’s? Cedo nos instrumentos, é mais engraçado ver o comentador a falar diante deles do que da colecção livresca.
Em suma, eu insisto, cada um como cada qual. Mas, para mim, o que será de questionar é porque temos a tv cheia de “uns” que pertencem todos ao mesmo meio e têm as mesmas características, expressas nesta súbita invasão das respectivas casas. E que, em assim sendo, é claro que mimetizam os comportamentos que foram vendo a outros.
Saúde, renovado agradecimento pelo seu comentário
Muito bom. Tudo de bom
A gerência agradece.
É ridículo ter livros???
Agora parece que sim
Qual é mesmo o assunto deste postal?
“(…) livros e vêm utilidade em lê-los.”
Não será ‘veêm’?
Correção: vêem.
afinal?
Aqui fica a ilustração do que os críticos desejariam https://www.facebook.com/alterjpt/video s/10223436826888065/
Numa coisa tem razão: devíamos discutir mais o conteúdo dos comentários e os critérios pelos quais são escolhidos.
Num noticiário da TVI, estes dias, parecia uma sessão de engate entre o jornalista e uma atriz fechada em casa (sorrisinhos, tratar por tu, só falta piscar olho). Enfim…
Mas o que me parece é uma certa vaidade em mostrar que se tem uma estante de livros em casa. É um exagero e soa a falso.
Parece que só é intelectual quem tem a estante atrás … isso é que critico nesta espécie de campeonato infantil (“eu é que sou bom, tenho mais livros” – e aposto que alguns desses comentadores, além de escolher estrategicamente o local, escolhe também os livros).
talvez. Mas não é a vida uma maratona de poses?
Podia iniciar uma moda engraçada:
selfies com os cenários de fundo, quando em teletrabalho.
Eu tenho uma tartaruga num aquário!!
Não iniciei eu isso, agora mesmo?
li o post, oh se li, e ate reli a cada abrir da pestana, que nesta hora a sonolencia pode mais.
Outro assunto : calculo que o numero de 38 comentarios seja quantidade assinalavel. Porque o tema sao os livros, ou porque a quarentena fornece mais leitores-comentadores ?
A gente não bloga para contabilizar comentadores. Mas se fala nisso o número de comentários deste postal não é nada excêntrico neste blog. Para lhe responder à saudável questão (ou seja, amputada do renhanhanha com que a embrulhou), esta obrigação de clausura conduziu a um relativo aumento das visitas aos blogs, e também ao ressurgimento de alguns blogs e de alguns bloguistas.
Saúde.