Desmancha Prazeres
tralhasdavida,
Às vezes, as palavras dos poetas budistas são sábias. Outras vezes são só má literatura.
Adivinhar anúncios durante um bloco publicitário.
Livro divertidíssimo, construído numa lógica epistolar dos nossos dias. A história é contada através de emails, recibos, notas em post-its e suportes parecidos.
Não será um candidato ao Booker, mas desencadeia uma vontade incontrolável de ir a correr comprar outro título da autora.
Para ler durante umas férias ligeirinhas, uma viagem de avião ou numa noite de insónia.
Este livro é um conjunto de relatos de viagem do Sr. Bowles, tão interessantes e tão bem escritos que até irrita.
Para quem não tem o prazer de o conhecer, Paul Bowles foi um viajante dos anos 30/40 que, depois de muita deambulação, se apaixonou por Marrocos e por aí viveu uma data de anos. O livro é escrito a partir das notas das suas viagens, que poderiam ser datadas, ou banais e, por isso desinteressantes. Só que não é o caso, porque era um homem que via as coisas com lentes peculiares.
Conta, por exemplo, como nessa época, na medina de Fés, se alugavam chupa-chupas e os miúdos pagavam consoante o tempo que tivessem o chupa na boca. Ou como na Madeira, em vez de conversar com os seus conterrâneos nos hotéis coloniais, ia tagarelar em castelhano com um pastor – que descreve como tendo “um rosto cubista”- e o pastor achava ele estava a falar português. Ou como era Paris em casa de Gertude Stein, com todos os pormenores pícaros. E por aí fora.
Um gozo tremendo, este livro.
Uma mãe grávida de um filho com Síndrome de Down mandou um email para a associação italiana de portadores desta síndrome a perguntar que tipo de vida se poderia esperar que o seu filho viesse a ter. A Saatchi & Saatchi Itália aproveitou o mote, convidou 15 pessoas com Síndrome de Down oriundas de diferentes países e deixou-as responder à questão. O resultado é este filme, inequivocamente comovente pela força do testemunho e surpreendente pela objectividade do discurso. Da minha parte, asseguro a esta mãe que vai gostar do seu filho até à loucura e que este, tal como todos os outros filhos, é irrepetível e, por isso, não dispensável.
Hoje a minha mãe faz 80 anos e eu estou tão contente que resolvi ir repescar um texto que escrevi sobre ela há uma data de anos, que permanece perfeitamente actual. Diz assim:
A minha mãe é uma pessoa fora de qualquer padrão, que combina em si vários ingredientes contraditórios. Tem uma pitada de loucura conjugada com uma enorme dose de bom senso. Dá conselhos sábios mas é incapaz de lidar com dois comandos ao mesmo tempo. Nunca tirou a carta de condução porque é muito distraída e sabia de antemão que não era boa ideia sentar-se ao volante de um carro. Mas sempre soube instintivamente ajudar a conduzir a vida de cada um dos filhos.
Uma vez disse-me, em tom de brincadeira, que tinha a certeza de que sofria de uma qualquer síndrome que ainda não tinha sido descoberta pela ciência. Não era Alzheimer, não era Parkinson, seria uma qualquer combinação das duas, com alguns acrescentos, a que a medicina ainda iria um dia dar um nome.
Quando dá uma opinião socorre-se generosamente de gestos grandiosos e expressivos para sublinhar os pontos mais importantes, o que implica uma varridela, com impressionante efeito dominó, de todas as molduras em cima de qualquer aparador.
E, ao contar uma história, perde-se de forma exasperante por todas as intersecções do caminho, o que requer muitos parêntesis curvos, rectos e duplo rectos, até que se consiga dar de novo com a ponta da meada. Esturram-se assim invariavelmente todos os tachos que estão ao lume mas a família fica semi informada acerca de vários assuntos completamente díspares.
Para delícia dos netos, é capaz de muito facilmente simular um desmaio no chão da sala sem que parta nenhum osso. E é dona de um saco mágico ao qual chama “material didático” de onde saem objectos inesperadas que servem de mote para começar a contar uma história.
A minha mãe é ímpar porque, ao contrário da maior parte das pessoas que conheço, construiu a sua vida sem expectativas o que quer dizer que nunca sofreu nenhuma grande decepção. Vive gozando com tranquilidade o que vida lhe vai oferecendo e, numa atitude prática invejável, resigna-se facilmente face a qualquer contrariedade.
Nunca se achou bonita e nunca teve qualquer ímpeto de vaidade. Mas arranja-se sempre que a ocasião o exige para não nos deixar ficar mal.
A minha mãe está sempre cansada porque está sempre a acudir a pessoas e a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Para sobreviver, passa as tardes de sábado deitada. Mas isso não a impede de tratar do que quer que seja. São históricos os momentos em que, entre as pregas do lençol, deu explicações de francês a filhos e netos, coseu botões de camisas, fez inúmeros trabalhos de faculdade, cortou unhas, contou histórias e, se necessário fosse, descascaria uma saca de batatas.
Quando ainda trabalhava, adormecia frequentemente nos comboios da linha de Cascais. Às vezes tinha sorte e era acordada pelo revisor, outras vezes seguia recambiada para Lisboa sem dar por nada.
Não sei ao certo qual é a síndrome rara de que padece a minha mãe, mas era bom que fosse contagiosa, ou pelo menos hereditária, porque o mundo seria muito melhor e bastante mais divertido com uma data de pessoas como ela.
Uma jovem esposa, toda indignada, diz ao marido:
– Que descaramento, isto há cada um… Acreditas que há um tal de Fernando Pessoa que publicou um livro com os poemas que tu me escreveste quando namorávamos?
Rubrica Ouvido no Carro: “Segundo o professor Ferreira, eu sou o mais avançado nos xilofones a tocar a Senhora do Almortão”.
Isto na nossa família vale, no mínimo, um Grammy.
Um dia, numa praia do meu pais improvável tão difícil de lá se chegar que só os mais ousados se aventuram, chegou a hora de ir embora. Os miúdos pedem mais um mergulho e eu, na esperança de conseguir prolongar as horas mornas, deixo. Quero lá saber se vêm todos molhados e se enchem o carro de areia. Sento-me numa cadeira e espero, enquanto repasso pela memória retalhos de verões antigos.
Na praia, sobramos nós e um grupo de nudistas para os quais os miúdos olharam com muita curiosidade ao início da tarde mas que, a esta hora, já nem ligam.
Começamos a andar em direcção ao carro com a algazarra de quem passou um dia em cheio. Numa esquina do areal daquele fim de mundo, entalada entre dois rochedos, está estacionada uma roullote com duas pranchas de surf no tejadilho. Cá fora, uma mesa e um par de cadeiras. E, à medida que nos aproximamos, o proprietário de pé, a tocar contrabaixo.
Com este livro regressei ao prazer incomensurável de encontrar uma nova voz. Não são histórias que se recomendem a qualquer pessoa. Junot Díaz é desconcertantemente desbocado e toda a sua linguagem é uma enxurrada que nos faz resvalar pelas páginas fora, quase a perder o fôlego.
Num registo autobiográfico e através da personagem que se tornou transversal às suas histórias – Yunior – Díaz põe-nos a fazer parte da vida dominicana nos Estados Unidos, temperando o texto com palavras castelhanas salpicadas a seu bel prazer. O efeito desta espanholada, para além de divertido, é poderosíssimo, como se pode perceber pela frase “ainda não tinha cinquenta anos, mas já era uma dueña”.
Mãe no mimo “ó Rodrigo, tu és tão giro. Quem me dera ser uma miúda de 2003. Olha que não me escapavas”. E ele todo derretido “ó mãe eu é que gostava de ser, eu é que gostava de ser de… de… mil novecentos e tal”.
E é assim que uma pessoa se fica a sentir do século passado.