Austin Martin
Perpétuos Enganos
tralhasdavida,
Austin Martin
COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
“I used to love her, then I had to kill her”, by Guns & Roses. Ou “I used to love, then I had Tequilla”, pelo meu amigo Bernardo.
Nadação
A gastronomia foi, por estas e por outras, o tema dominante da tarde, embora também se tenham abordado assuntos menores tais como o estado da nação, a situação económica mundial e o mistério das conquistas amorosas de Hollande.
Mais para a tardinha, num momento de descontrolo, uma facção da mesa defendia a necessidade de se criar um partido composto pelos políticos de maior sex appeal do país (um critério como outro qualquer), enquanto do outro lado alguém confessava uma velha fraqueza por Cristiano Ronaldo, agarrando com veemência o pescoço e proferindo que “aquele rapaz, daqui para baixo, é um monumento”. Mas a decência rapidamente regressou à mesa, para se discutir ética jornalística, dobragens de filmes estrangeiros e até poesia.
Esteve-se tão bem nesta família que foi a custo que nos arrastámos porta fora para regressar ao azimute de origem. Eternamente gratos à Ana pela trabalheira de nos receber em sua casa.
Relembremos um grande êxito do Rui Veloso, que versa:
“Disseste que se eu fosse ao gás, tu tiravas o vestido. E o prometido é devido.”
Perfeitamente credível, defendia ele, já que, a seguir, a canção prossegue com “e eu que vinha de tão longe, do outro lado da rua”, e uma pessoa ficava a achar que, de facto, não era pêra doce alombar com uma bilha às costas e vir do outro lado da rua.
Era uma menina que rezava todos os dias. De joelhos, olhos fechados e mãos encostadas ao peito, pedia fervorosamente:
– que Deus não lhe desse vocação de freira. Que ela queria ter muitos filhinhos e se fosse para freira não podia ser mãe.
– que Deus nunca a fizesse apaixonar-se por um homem negro. Que ela queria que os filhinhos fossem parecidos com ela e, se saíssem mulatos, iam ser mais parecidos com o pai.
– e sobretudo que nunca, mas nunca, Nossa Senhora lhe aparecesse como tinha aparecido aos três pastorinhos.
Bilhete de Dente e Idade
Partida, lagarta, fugida.
“Uma vez, no acampamento dos escuteiros, encontrámos droga atrás da tenda. Era Cannabis”.
(e eu, para mim, que sim, que havia de ser cannabis daninha)
Esta semana, Xiquinha Prieto leu NA-NI nas costas de uma camisola do Manchester United. Do ponto de vista dos rapazes cá de casa, o objectivo académico deste ano escolar está cumprido.
Uma amiga veio-me visitar e trouxe-me uma caixa de cerejas. Apeteceu-me escrever sobre isto, mas percebi que dava um mau poema.
Depois de, logo pela fresca, ter dado de caras com esta notícia em que Le Pen argumenta os benefícios do ébola para resolver o problema da imigração na Europa, e de, mesmo agora, verificar aqui que a Noruega acaba de legalizar a hipótese de crianças deficientes serem abandonadas pelos pais, estou em estado de decretar que o mundo está louco.
Poucas coisas farão mais pela popularidade de uma rapariga da escola primária do que um gesso e um par de muletas.
Par que acaba de se conhecer em contexto zen:
Ela: “Então e fazes o quê?”
Ele: “Sou professor de Ioga”
Ela: “Ai sim? que giro”
Ele: “Bem, é um hobby. Profissionalmente trabalho com fotocopiadoras”.
Era um intelectual que exigia estética nas letras. Se, num jantar em sua casa, alguém se atrevia a citar um poema com metáforas de amoras ou mirtilos, logo saía porta fora, furibundo, que era só o que lhe faltava, ter de se dar com gente daquela.
Queixava-se da falta de companhia para ir ao teatro. A única amiga que gostava de teatro tinha o hábito de se rir nas partes erradas e ela viu-se forçada a deixar de a convidar.