Delitos Poéticos (5)


tralhasdavida,

Obra de Vik Muniz 

 

 

COM LICENÇA POÉTICA

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

Adélia Prado

Delito à Mesa


tralhasdavida,

 

Hoje foi dia de tertúlia no estrangeiro da Ana Vidal. A meia hora de Lisboa, almoçaram os membros do Delito, quais Lordes Byron, numa faustosa varanda escondida por vasos de hortenses. Ficámos para ali noutro meridiano, em amena cavaqueira, enquanto nos fomos servindo de extraordinárias vitualhas que incluíram um escabeche de pato coroado com raspas de laranja, praliné de citrinos a cavalo numa salada, aspic de tomate à chef Navarro e, meu Deus, uma selecção de sobremesas de fazer saltar as papilas gustativas.

A gastronomia foi, por estas e por outras, o tema dominante da tarde, embora também se tenham abordado assuntos menores tais como o estado da nação, a situação económica mundial e o mistério das conquistas amorosas de Hollande.

Mais para a tardinha, num momento de descontrolo, uma facção da mesa defendia a necessidade de se criar um partido composto pelos políticos de maior sex appeal do país (um critério como outro qualquer), enquanto do outro lado alguém confessava uma velha fraqueza por Cristiano Ronaldo, agarrando com veemência o pescoço e proferindo que “aquele rapaz, daqui para baixo, é um monumento”. Mas a decência rapidamente regressou à mesa, para se discutir ética jornalística, dobragens de filmes estrangeiros e até poesia.

Esteve-se tão bem nesta família que foi a custo que nos arrastámos porta fora para regressar ao azimute de origem. Eternamente gratos à Ana pela trabalheira de nos receber em sua casa.

 

Perpétuo Engano do meu Amigo Jorge


tralhasdavida,

Relembremos um grande êxito do Rui Veloso, que versa:

“Disseste que se eu fosse ao gás, tu tiravas o vestido. E o prometido é devido.”

Perfeitamente credível, defendia ele, já que, a seguir, a canção prossegue com “e eu que vinha de tão longe, do outro lado da rua”, e uma pessoa ficava a achar que, de facto,  não era pêra doce alombar com uma bilha às costas e vir do outro lado da rua.

Podia Ser Literatura


tralhasdavida,

Era uma menina que rezava todos os dias. De joelhos, olhos fechados e mãos encostadas ao peito, pedia fervorosamente:

– que Deus não lhe desse vocação de freira. Que ela queria ter muitos filhinhos e se fosse para freira não podia ser mãe.

– que Deus nunca a fizesse apaixonar-se por um homem negro. Que ela queria que os filhinhos fossem parecidos com ela e, se saíssem mulatos, iam ser mais parecidos com o pai.

– e sobretudo que nunca, mas nunca, Nossa Senhora lhe aparecesse como tinha aparecido aos três pastorinhos.

Louco Mundo Louco


tralhasdavida,

Depois de, logo pela fresca, ter dado de caras com esta notícia em que Le Pen argumenta os benefícios do ébola para resolver o problema da imigração na Europa, e de, mesmo agora, verificar aqui que a Noruega acaba de legalizar a hipótese de crianças deficientes serem abandonadas pelos pais, estou em estado de decretar que o mundo está louco.

Do Prosaico


tralhasdavida,

Par que acaba de se conhecer em contexto zen:

 

Ela: “Então e fazes o quê?”

Ele: “Sou professor de Ioga”

Ela: “Ai sim? que giro”

Ele: “Bem, é um hobby. Profissionalmente trabalho com fotocopiadoras”.