Da Ternura


tralhasdavida,

Toca do Vinicius.JPG

Ouvi de fugida, enquanto passava defronte da televisão com a travessa do peru, o cerne da mensagem de Natal do Papa Francisco para este ano: Ternura.

Comoveu-me pela sua simplicidade e pelo tiro certeiro. Nada de metáforas complicadas em cartas de São Paulo aos Coríntios. Simplesmente ternura. Num ano que me foi particularmente complicado e em que foi a ternura da família e dos amigos que me salvou, não poderia achar de somenos.

A palavra acompanhou-me uma série de dias, como acontece muitas vezes com coisas que nos reconfortam.

Logo a seguir ao Natal, foi a prietada toda para o Rio de Janeiro. Numa noite, à vinda do restaurante, paramos na Toca do Vinicius, uma discaria para os conhecedores, à antiga, onde se encontram exemplares em vinil com João Vilarett a declamar poesia brasileira. À frente de uma loja destas está sempre uma grande figura, não há hipótese. Porque são negócios que vivem do amor. De maneira que lá apareceu o avô Carlos (nas suas palavras), que assim que viu a Xiquinha, a minha filha dos cromossomas a mais, encarnou as palavras do Papa Francisco, e a transbordar ternura foi buscar a correr um CD com músicas infantis do Chico Buarque e do Vinicius.

Agradecemos efusivamente e oferecemo-nos para lhe mandar música portuguesa actual. Respondeu-nos a rir, dizendo que preferia que lhe levássemos uma alheira.

Saímos comovidos, eu com um bocadinho de inveja, confesso, porque também queria ser pequenina e ter um senhor a oferecer-me canções do Chico e do Vinicius.

Cá por Casa


tralhasdavida,

Então e quando a malta vai jogar às escondidas para a rua e grita “coito, cooooito, cooooooooito” aos berros e uma mãe não pode fazer mais nada senão morrer de vergonha e sentir-se parva e ficar ali caladinha à espera que ninguém oiça?

Cá por Casa


tralhasdavida,

Rita Prieto, do alto dos seus sete anitos, resolve com toda a limpeza o velho conflito ideológico da origem da humanidade: “Olha mãe, sabes quem foram os primeiros seres vivos do planeta, sabes? Adão, Eva e os macacos”.

É o que dá ter uma filha num colégio católico com irmãos que discutem as teorias de Darwin.

Projectos que deviam ser divulgados por todo o lado


tralhasdavida,

Ouvi falar do Sr. Teste de uma vez que ocorria uma tragédia na biblioteca cá de casa: havia um título essencial que se encontrava esgotadíssimo há vários anos. Uma amiga assegurou-me ser missão para o Sr. Teste, o especialista da arqueologia livreira lisboeta, a quem recorria várias vezes em casos com o mesmo grau de seriedade.

Fui seguindo o meticuloso trabalho do Sr. Teste, ora mais de perto, ora mais de longe, através do blogue (agora meio parado) e da página do facebook (cada dia melhor) onde o tom espirituoso e as nuances humorísticas foram fazendo as minhas delícias.

Há umas semanas tive o prazer de ficar a saber que o Sr. Teste já tem casa, e que casa, meu Deus. Um r/c alto, cheio de charme, no edifício da Sociedade Guilherme Cossoul, na Av. D Carlos I, nº61, em Lisboa. De maneira que o fui logo visitar e tive o prazer de conhecer o Ricardo, uma daquelas pessoas meia tímidas, simpaticíssimas, que se percebe logo que têm um coração que desata a palpitar quando dá de caras com um título bestial.

O stock da loja é bom, com muita poesia, bons autores brasileiros, arte e fotografia. Há livros novos e usados, mas há sobretudo uma enorme vontade de nos sentarmos naquele recanto a passar um bom bocado.

Desconcertante Matilde


tralhasdavida,

Para quem ainda não conhece a Matilde Campilho, faça-se o favor de a ouvir no seu desconcertante português, sempre dito à portuguesa,  mas temperado a gosto com vocábulos brasileiros.

Joquéi, o seu livro de estreia saiu há um par de meses e cai fora de tudo o que se possa ter lido deste ou do outro lado do oceano.

Tão bom, meu Deus.

Então e os pais?


tralhasdavida,

De tempos a tempos, mal renasce das trevas a estafada discussão sobre a lei do aborto e os direitos das mulheres e blá, blá, blá, fico sempre a pensar que nunca vi ninguém a discutir os direitos dos homens, neste caso concreto, dos pais dos fetos.

Census


tralhasdavida,

 

Entro na farmácia de receita em punho, “Boa tarde, queria uma embalagem de Eutirox 137, se faz favor”. “Eutirox não temos, nem nunca tivemos” responde-me o farmacêutico com a certeza de quem conhece a fundo todas as gavetas do armazém. “Então e consegue-me arranjar?”, pergunto com o receio de quem possa estar a pedir uma substância ilícita. Responde afirmativamente, mas que só para o dia seguinte. Pergunto-lhe se quer ficar com os meus dados. Diz que não, que para ali nunca vai haver dúvidas acerca do destinatário do medicamento.

Conclusão: A quem possa interessar, posso garantir com toda a certeza que no concelho de Vila do Bispo TODOS os habitantes têm tiróide.

Cá por Casa


tralhasdavida,

Rita Prieto, sete anitos: “Ora, o dia tem vinte e quatro horas, mas é só porque alguém resolveu dizer que era assim. Todos os dias são hoje. Hoje é um padrão: manhã, tarde, noite, manhã, tarde, noite. É sempre o mesmo dia, é sempre hoje. Até o mundo explodir e nós sermos todos engolidos pelo fogo”.

Parva da miúda, fiquei cá com uma depressão.

 

Perpétuo Engano da Minha Prima Catarina


tralhasdavida,

Durante toda a infância, a minha prima Catarina andou enganada a cantar em plenos pulmões o cântico de missa:

“Como (do verbo comer) um veado à ceia, p’las águas vivas. Assim minh’alma, anseia, por Vós Senhor.”, o que não lhe fazia lá grande sentido, até que um dia deu finalmente de caras com o texto e verificou que afinal não havia qualquer componente degustativa na prece. Dizia o texto: “como um veado anseia p’las águas vivas, assim minh’alma anseia, por Vós Senhor.