Durante toda a infância, a minha prima Catarina andou enganada a cantar em plenos pulmões o cântico de missa:
“Como (do verbo comer) um veado à ceia, p’las águas vivas. Assim minh’alma, anseia, por Vós Senhor.”, o que não lhe fazia lá grande sentido, até que um dia deu finalmente de caras com o texto e verificou que afinal não havia qualquer componente degustativa na prece. Dizia o texto: “como um veado anseia p’las águas vivas, assim minh’alma anseia, por Vós Senhor.

Ah, que engraçado! Exactamente sobre o mesmo cântico conheço um outro perpétuo engano: Como o diabo anseia p´las almas vivas.
Enganos desses, há inúmeros. Desde o célebre “ouvimos Senhor” em vez de “ouvi-nos Senhor”, até um cântico da Capela do Rato que já não sei repetir na íntegra, mas no qual “fender cadeias” era muitas vezes substituído por “vender cadeiras”… 😉
Mesmo na linguagem corrente tenho toda uma colecção da qual deixo apenas três exemplos famosos: o “bode respiratório”; “as casas germinadas”; “controlar a rotunda”- (expressão preferida de todos os taxistas); e “Trigo limpo, Maria do Amparo”. (ok são quatro. Mas eu adoro estas coisas…)
Na oração do Terço sempre me fez confusão a oração após o Glória, em que se diz: levai as almas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem. Isto é o que geralmente se diz e se ouve, porque o “socorrei principalmente…” é esquecido.
Fica então a pedir-se que se levem para o Céu as almas mais necessitadas, como se não necessitássemos todos!
Francisca, estes teus pequenos textos são uma delícia!
Cada vez melhores, estes perpétuos enganos.
“Águas vivas” é o nome que nos Açores se dá às alforrecas. Certamente ninguém anseia por elas.
Lembram-se das movimentações que precederam a independência de Timor, da vinda do bispo D. Ximenes Belo, da manifestação? Pois uma moça, já mulher feita, respondia assim à pergunta — A tua mãe?
— Foi ao mãos dadas.
— O quê?
— Sim, foi a Lisboa ver o X-man!