Da pequenez


joaomsandre,

Ouvimos frequentemente que a Humanidade é a principal força transformadora do nosso tempo. É uma afirmação lógica, especialmente se atendermos ao efeito que cidades, estradas e poluição diversas têm no nosso planeta. Perante o aquecimento global e a influência deste nas alterações climáticas, há muitos cientistas a falar no Antropoceno como sendo a idade da Terra que vivemos hoje.

 

Isto é uma realidade, por outro lado depois coloco-me a pensar sobre outras influências. Um asteróide provoca extinções. Uma era glacial muda a geografia do planeta. A subducção garante que os oceanos não fiquem cada vez mais salgados com o tempo. Os mesmos oceanos permanecem inexplorados a 95% (ou mais). Cianobactérias terão sido as responsáveis pela existência de oxigénio no planeta. Sem micro-organismos o mundo seria muito diferente.

 

A verdade é que se a Humanidade é a maior força transformadora do planeta, isso sucede apenas à escala de tempo humana, em que toda a história humana (desde que os primeiros homo sapiens saíram de África até agora) nem numa nota de rodapé de uma Encyclopedia Solaria caberia. Imagino um debate dentro de uns milhões de anos (um piscar de olhos, portanto) entre duas bactérias:

 

– Não houve em tempos um animal bípede que transformou o planeta?

– Sim, houve. Foi uma experiência rápida nossa. Já cá não está.

 

Os seres humanos são criadores e destruidores. Mas, na escala do tempo global, são também menos que bactérias.

19 comentários em “Da pequenez”

  1. Caro João,

    É verdade em termos de velocidade de mudança. Nós temos a capacidade de alterar o nosso planeta a uma velocidade muito superior à natural. E o assombro e o risco está nisso mesmo.

    1. É verdade que sim, pelo menos no que à escala da vida ou da civilização humana diz respeito. À escala do laneta não faz muita diferença. Mudamos o planeta e extinguimos espécies. Se nós desaparecermos a certa altura, um milhãozito de anos depois já o planeta encontrou um outro equilíbrio.

  2. Adorei este seu post. Tanto, que fui vasculhar os arquivos do meu blogue, à procura de uma citação. E encontrei-a:

    “Os humanos e os animais multicelulares fazem muito estardalhaço e dão muito nas vistas, mas este foi, é e sempre será o planeta das bactérias”.

    Adriano Henriques, cientista do Instituto de Tecnologia Química e Biológica, em entrevista à Ler nº 125, Junho 2013

    1. Bem verdade. Lembro-me muitas vezes da explicação (lida no A Short History of Nearly Everything) de como alguns cientistas quiseram redesenhar a árvore da vida de forma a que os macro-organismos (animais, plantas) seriam apenas um ramo da mesma. O resto seria constituído apenas por micro-organismos de diversos tipos.


      1. Experimente declarar guerra às formigas do seu jardim (se o tiver)! Não tem qualquer hipótese de vitória, o que prova que o tamanho não é tudo.
        Nós havemos de desaparecer e as formigas cá hão de ficar.

  3. Talvez reconhecendo a pequenez ajude a não ter tantas certezas sobre coisas destas :
    “… o aquecimento global e a influência deste nas alterações climáticas”

    Mas habitualmente a repetição é suficiente para mudar opiniões passando por cima da lógica e das lições da escola sobre método científico.

    1. Não percebo onde quer chegar. Pelo que percebo não concorda com o aquecimento global nem com as alterações climáticas. Isso não é o essencial do post, por isso não tenho agora paciência para o discutir. Só não entendo como liga essa discordância com o que escrevi.

      PS – as conclusões sobre o aquecimento global e as alterações climáticas existem precisamente porque se seguiu um método científico. E essas conclusões são constantemente postas à prova pelo mesmo método científico.

      1. A minha opinião é que não sabemos e não temos maneira de saber com o conhecimento que temos.

        Nem sequer os factores que contribuem para o clima que temos são conhecidos quanto mais basear tal coisa em 100 anos de más medições de temperaturas para 0.1ºc de precisão onde em 70% da terra ainda hoje a temperatura é mal medida.
        A escola secundária basta para saber que não há ciência nas “ciências” do clima.
        Mas a maioiria vai com o que se repete muitas vezes.

        Há é muita culpa do homem branco instilada pelo marxismo nos jornalistas e foi assim que o “aquecimento global” começou.

    1. Que escala de tempo humana? Uma vida? De quem, onde e quando? Se falarmos de algum habitante comum dos tempos da idade média o horizonte temporal seria talvez de 50 anos. Nalgumas zonas talvez de 40 ou mesmo 30. Hoje, nos países mais desenvolvidos, será de 80 anos.

      Ou estamos a falar de civilizações e culturas? Roma existiu, sob uma forma ou outra, por uns milénios. O islão tem uns séculos, o cristianismo dois milénios e o judaísmo uns tempos mais. As pirâmides de Giza transportam a cultura humana para uns 5 mil anos no passado. Toda a gente envolvida nelas está morta, mas elas permanecem.

      Estaremos todos mortos, é verdade. Se é apenas e só assim que pensa, nem percebo porque insiste em viver. É mesmo só o impulso?

      A nossa pequenez é real à escala do planeta ou do universo. A pequenez individual é real à escala da civilização humana. A escala do tempo humano, coo a descreve, é apenas uma convenção e muda de pessoa para pessoa. Eu até lhe posso dizer que no longo prazo poucos estarão mortos. Basta definir o longo prazo como para lá de 5 dias.

  4. Gostei muito desta tua reflexão, João. Num registo tão pouco habitual no Delito. De vez em quando é bom ajustar a nossa escala à da realidade, sim, para percebermos, por exemplo, até que ponto somos ridículos quando nos julgamos importantes, ou quão minúsculas são as questões que tanto nos absorvem no dia-a-dia.

    1. É um pouco por aí que a quis fazer Teresa. É algo que me vem à cabeça quando me ponho a ler um pouco mais sobre ciência (genérica). Aí vejo o quão pequenos somos, mas o quão intensamente vivemos essa pequenez.

  5. Gostei muito desta reflexão. De vez em quando vale a pena pensarmos nisto. Para relativizarmos muita coisa e revermos alguns conceitos como aquele que nos vem dos gregos e nos diz que “o homem é a medida de todas as coisas”.
    Não é. Como este texto muito bem explica.

    1. Não creio que seja tão errado. Qualquer medida necessita de uma referência e não é errado escolher o ser humano como tal. O erro é pensar que os seres humanos são a única medida de todas as coisas.

  6. Caro João André,

    O seu post merece reflexão. Tanto mais quanto maior é o nosso conhecimento do universo que nos rodeia e da nossa irrelevância no “grand scheme of things”. Mas o motivo desta minha interpelação é de colocar em cima da mesa um cenário que – para já – é apenas uma hipótese aventada por alguns físicos teóricos.

    Para quem está familizarizado com a escala de Kardashev (mais aqui: https://www.youtube.com/watch?v=9n-tTst-vyQ), sabemos que estamos ainda no grau 0 de uma escala que vai até 3. Estaremos talvez na transição entre o tipo 0 e 1 mas corendo grandes riscos de sobrevivência (iremos a tempo de contrariar o aquecimento global? e a existência de arsenais nucleares e químicos em zonas do globo próximas de organizações terroristas?).

    Ora cruzando esta evolução com o desenvolvimento acelerado do trinómio G-N-R (Genetics, Nanotechnology, Robotics) podemos estar, de facto, a assistir ao nascimento de uma civilização com capacidade para resistir a quaisquer eventos de extinção naturais.

    Repare que o conceito de SINGULARIDADE (no sentido físico) vai justamente nesta direção. À medida que o poder de computação aumenta exponencialmente (e isto significa que quanto mais crese, mais depressa cresce), depressa teremos computadores capazes de suplantar o cérebro humano, com inteligência artificial consciente da sua própria existência e, eventualmente, até personalidade. Esta evolução significa uma alteração tão grande de paradigma que foi apelidade de singularidade (há vários documentários disponíveis no Youtube sobre este conceito).

    As duas realidades em conjunto significam que dentro de 100 anos a espécie humana terá evoluído até um patamar de “quase” imortalidade uma vez que os drivers de evolução deixam de ser biológicos para tornar-se tecnológicos (e por isso ilimitados).

    Voltando ao seu post. A reflexão tem toda a validade mas creio que só é aplicável no curto-prazo. Se sobrevivermos aos próximos séculos, creio que estaremos capacitados (tecnologicamente) a tornar-nos uma espécie de nível 2 ou 3, ou seja, transcender as fronteiras do nosso próprio planeta e, com isso, tornarmo-nos imunes a eventos de extinção.

    Cumprimentos
    JP

    1. Tem piada que concorde com a minha reflexão no curto prazo quando eu a faço precisamente sobre o (muitíssimo) longo prazo :).

      Essa visão tem muito de ficção científica, mas isso nada tem de mal. Muitos dos nossos avanços foram inicialmente imaginados como ficção. Claro que a tecnologia nos surpreende frequentemente. Umas vezes avançando mais depressa que o que se pensa (li em tempos um artigo com décadas que inidicava que no virar do século as fibras de vidro seriam tão caras que só seriam usadas em casos muito especiais) e noutras mais devagar (ainda não vimos nenhum carro voador).

      No caso em questão, tenho duas visões sobre o assunto:
      1. A Humanidade sobrevive, como escreve, às ameaças do presente, e consegue expandir-se. Esse caso permite que a Humanidade sobreviva inclusivamente ao fim da vida no planeta ao longo de milhões de anos (aumento da temperatura do sol, afastamento da Lua, etc). A questão é se ainda poderíamos chamar humanos a esses descendentes (não seriam certamente homo sapiens).
      2. A Humanidade continua a ser o que é e, mesmo que sobreviva aos próximos, digamos, 3 séculos, acaba por cair às mãos de um qualquer outro cataclismo, auto-infligido ou não.

      Em qualquer dos casos a Humanidade mais não seria que uma etapa na evolução constante da vida. Não necessariamente em direcção a formas mais avançadas, mas simplesmente em direcção a formas mais “adequadas”. Nem me admiraria que no futuro a exploração espacial e a expansão para os limites do sistema solar e mesmo para lá dele nos levasse a diminuir novamente o tamanho, de forma a permitir o uso de menores recursos. Isto, mais uma vez, numa visão de ficção científica.

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