O século XX seria o período da História em que se atingiria a paz perpétua – assim acreditavam muitos pensadores que saudaram a viragem do calendário como uma alvorada de esperança. É certo que havia a Guerra dos Boers na África do Sul e não tardou muito que russos e japoneses se confrontassem num sangrento conflito bélico. Mas em 1905 esses ecos distantes mal chegavam ao coração da Europa. Nesse ano, a visita do Rei D. Carlos de Portugal ao Reino Unido foi acompanhada “com exagerado detalhe” pela imprensa britânica, como salienta Geoffrey Blainey na sua Breve História do Século XX. A caça do monarca aos faisões, lebres e pombos no palácio real de Chatsworth, posto à sua disposição pelo anfitrião, Eduardo VII, empolgava os leitores londrinos que se “deliciavam ao saber que ele apreciava uma luta de bolas de neve junto da tarde do almoço”. Era esse o espírito do tempo. Uma época fugaz de bonomia que não funcionou afinal como prelúdio do “fim da História”. Três anos depois, D. Carlos era assassinado no Terreiro do Paço. E em 1914 – faz agora um século – estalava a Grande Guerra, por um motivo fútil. O século que começou com o brilho das luzes mergulharia no eterno retorno às trevas ancestrais.
Penso rápido (18)
Pedro Correia,

Diz-se que a história se repete…
Curiosidade:
“Carlos I became King on 19 October 1889. Colonial treaties with the United Kingdom of Great Britain and Ireland (one signed in August 1890 that defined their African borders along the Zambezi and Congo rivers and another signed on 14 October 1899, that confirmed colonial treaties of the 17th century) stabilized the situation in Africa. These agreements were however unpopular in Portugal where they were seen as being to the disadvantage of the country.
Domestically, Portugal was twice declared bankrupt – on 14 June 1892, and again on 10 May 1902 – causing industrial disturbances, socialist and republican antagonism and press criticism of the monarchy. Carlos responded by appointing João Franco as prime minister and subsequently accepting parliament’s dissolution.”
O optimismo traz as guerras e as idologias criminosas que mudam o mundo porque se pensa que tudo é possível?
Vejo essa força a puxar na Ásia de hoje.
Nem no Largo do Rato se atingiu a paz.
Aqui há gato (no Largo do Rato).
Chamar fútil à motivação da guerra é reduzir a história à forma dos acontecimentos, e não ligar ao que os molda por dentro. O assassinato do arquiduque foi o pretexto, mas não o motivo.
Os acontecimentos mais dramáticos da história mundial podem começar por um motivo fútil. Isto não os torna menos relevantes: uma coisa nada tem a ver com outra. Tal como alguns dos ditadores mais sanguinários, à partida, nada tinham de psicopatas: eram homens comuns. Isso não os tornava menos perigosos, antes pelo contrário.
O facto é que ninguém – mesmo ninguém – fazia a menor ideia, naquele período tão optimista da história mundial, da tragédia que estava prestes a acontecer. Aqueles dois tiros em Sarajevo produziram uma onda de morticínios em cadeia até atingir cerca de 20 milhões de mortos.
Se alguém adivinhasse as consequências, nem Gavrilo Princip teria disparado nem os imperadores e os arquiduques e os presidentes teriam desencadeado a linguagem bélica nos dias subsequentes nem a imprensa teria incentivado os nacionalismos de turno com algumas das manchetes mais demagógicas, parioteiras e chauvinistas que o mundo conheceu até hoje.
No fundo quero dizer que a I Guerra Mundial se tornou inevitável mas não era inevitável à partida.