Ando a ler o quinto livro de crónicas do Lobo Antunes e que bom que é. A prosa lembra-me sempre a do meu pai, pela época, pelos temas e pelo pingar de ternura das coisas de antigamente que amolece cada virar de página.
Ontem lia que, enquanto ele esperava à esquina por uma fulana, estava para ali “com o coração aos baldões”. O coração aos baldões é uma expressão maravilhosa. Toda a gente já andou com o coração aos baldões, mas passa a vida a dizer que o coração lhe batia descompassadamente, o que não tem nada tanta graça.

É verdade Francisca. “O coração aos baldões” é uma imagem quase perfeita!Gosto muito mais do Lobo Antunes cronista do que do Lobo Antunes escritor…
Também eu Helena. Acho os romances impenetráveis, mas derreto-me completamente com as crónicas. Ás vezes até me fica a doer aquele bocadinho do coração a que chamamos alma.
Ah, Francisca! Que bom é quando alguém fala num livro que li e que adorei. É como se nos encontrássemos no mesmo jardim e pudéssemos ver as mesmas flores. E lembro-me dessa crónica, claro. 🙂
Achei demais, por exemplo, ele gostar de comida de avião e dizer isso várias vezes. Acho querido e cómico ao mesmo tempo. Tão bom.
Ou (e já não sei se é neste volume) dizer que a dada altura tinha um estúdio numa mansarda “a cavalo sobre o rio Tejo”.

Também adoro as crónicas e desisti dos livros. É que parecem mesmo autores diferentes. Nas crónicas, penso que ele se permite ser ele próprio. Nos livros, não sei … deve baixar algum heterónimo muito complexo … só pode.