O gosto pela escrita herdei-o do meu pai. Foi sempre o meu pai quem, em dias de festa, em momentos apartados ou apuros declarados soube construir longas missivas com todas as palavras nos lugares certos.
A minha mãe, por seu lado, domina uma capacidade mais discreta mas igualmente difícil. Sabe, como ninguém, prescutar as almas dos filhos e, quando acha que é preciso, escolhe um postal da sua vasta colecção, escreve no verso uma frase curta e trata de o enfiar num dos nossos bolsos. Acabamos por dar de caras com um alento insperado que nos faz suspirar até às profundezas mais reconditas da alma e depois, já com os níveis de oxigénio repostos, arrumamos a casa e seguimos com a vida.
No outro dia, assistindo ao meu desespero enquanto enfiava a vasta prole no carro, entre gritos (dos mais velhos) e choradeiras (das mais novas), resolveu, passadas umas horas, mandar-me um SMS que dizia: “Deus te dê paciência. Neste momento é este o teu lugar. Mas tens a vida toda.”
E, da última vez que lá passei por casa, enfiou-me na carteira um envelope azul e recomendou-me que o abrisse depois, no sossego da intimidade.
Continha um poema que o meu pai escreveu há mais de dez anos. Chama-se “Por Fim” e diz assim:
Apanhar humildemente
as lágrimas caídas.
Deixar a casa limpa
de tristeza.
Aprender a chorar
com um sorriso
e o silêncio activo
de quem reza.
Fiquei a pensar que os meus pais são esta combinação perfeita entre saber traduzir uma forma de viver e saber escolher as palavras de cada dia.
A nós, ensinaram-nos tudo o que vem neste poema. A apanhar as lágrimas caídas e a varrer a tristeza de casa. Tantas vezes quantas forem necessárias.

Francisca
É por isso que eu defendo que jamais deixes um gesto por fazer ou uma palavra por dizer. Grandes Pais, os teus!
Helena, são de facto especiais.
Um beijinho e muito obrigada
Que bela maneira de começar o meu dia blogosférico lendo estas linhas tão inspiradoras, Francisca. O mais precioso legado que podemos receber é este.
Obrigada, Pedro.
Beijo grande
Comovente, Francisca.
Já copiei o poema e vou usá-lo muito, muito.
Obrigada!
1 beijinho e 1 🙂
Antonieta
Obrigada eu, Antonieta. Que bom ter gostado.
Grandes pais, sim – e uma filha à altura!
Tenho a sorte de ter uma família especial. Somos 5 irmãos muito amigos, talvez pelo sentido de família que sempre nos foi incutido. É muito bom.
Que sorte 🙂
Lições de vida, Francisca. Hoje, já aprendi mais alguma coisa.
Obrigada, Sérgio.

Maravilhoso, amiga.
Apetece pegar nesses versos e pô-los num sítio que esteja sempre acessível aos olhos, just in case.
O melhor que uma família nos pode legar é um bom manual de instruções para a vida. E a propósito da tua, e em particular dos teus pais, só me ocorre dizer o que já antes aqui foi dito: grandes pais!
Apetece pegar nesses versos e pô-los num sítio que esteja sempre acessível aos olhos, just in case.
O melhor que uma família nos pode legar é um bom manual de instruções para a vida. E a propósito da tua, e em particular dos teus pais, só me ocorre dizer o que já antes aqui foi dito: grandes pais!