Diário Secreto


tralhasdavida,

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Quis a vida que o dia de hoje começasse com esta imagem em cima da secretária.

Se há alguns anos me contassem que havia de começar um dia a receber um livro em hebraico, autografado, por um dos maiores escritores da actualidade, teria lançado uma gargalhada. Mais do que a oferta do livro, tocou-me o facto de as circunstâncias me terem levado, na véspera, a uma breve, interessante e até comovente conversa com David Grossman, face a face.

Amanhã, com a bênção de um marido e de quatro filhos, estarei a encher uma mochila para carregar às costas pelas rotas do Peru. Vou com uma irmã um pouco mais velha do que eu e não consigo imaginar odisseia mais divertida do que passear por um país com nome de almoço de Natal, de braço dado com uma irmã adulta.

Sinto que a vida se vai cumprindo a pouco e pouco. Com tudo o que nunca poderia ter imaginado. Sou uma pessoa de sorte.

Passagem de Nível


tralhasdavida,

A única obsessão que toda a gente quer: “amor”. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado – aberto.

 

(Philip Roth, em O Animal Moribundo)

A Contadora de Fotografias


tralhasdavida,

Cinco manhãs por semana, a contadora de fotografias abria uma das doze gavetas do móvel de alumínio e começava o dia a contar. Um, dois, três, quatro. Só depois de seleccionar o quarteto de imagens comprimidas no arquivo de tiras é que se fechava na câmara escura. 

Quando estava bem-disposta, a escolha seguia um critério. Havia dias em que lhe dava vontade de contar fotografias de gente pequena, outras vezes gostava de contar lugares, ou dias cinzentos, ou gestos de ternura. Quando estava demasiado cansada, tão cansada que as palavras lhe faltavam, a escolha era feita ao acaso e deixava que as imagens se contassem a elas próprias.

Tinha herdado o espólio do pai, o tirador de fotografias, um homem com um olho tão grande que conseguia captar microsegundos de realidade e eternizá-los num quadrado a negativo onde as pessoas viviam do avesso a pairar em formas pouco distintas.

A contadora de fotografias era dona das palavras, mas nunca tinha encontrado o termo certo para contar o amor que sentia pelo pai. Procurou adjectivos, advérbios e predicados no léxico de todas as línguas do mundo. Comprou dicionários, gramáticas e prontuários, leu-os de fio a pavio, da frente para trás e de trás para a frente, às vezes abrindo uma página ao acaso, na esperança de lhe ter escapado uma sílaba escondida, um prefixo ou sufixo que a salvasse de tal inquietude. “Há palavras que nos faltam”, concluiu ao fechar o último tomo, “há palavras que têm de ser inventadas”.

Foi nesse dia que soube que, para chegar à palavra que lhe faltava, tinha de começar a contar cada uma das fotografias do pai.

Um, dois, três, quatro negativos a submergir em tinas.

Quando era pequena, o tirador de fotografias tinha-lhe ensinado que o negativo é o pão que vai ser barrado na manteiga. “Assim, estás a ver?” – dizia ele enquanto mergulhava o negativo em nitrato de prata – “ Se não o preparares com cuidado, não vai aderir em doses uniformes ao papel e ficas com uma imagem enjoativa”.

Ela subia para o banquinho e tentava dar conta da receita. Ao princípio tinha medo de o desapontar e enervava-se de tal maneira que as imagens apareciam demasiado densas no papel. “ Vês? Isso é uma imagem que até faz mal ao fígado”, dizia-lhe o pai, “tenta outra vez”.

Depois aprendeu a controlar o batimento cardíaco e ganhou a precisão de um relógio de quartzo. O segredo era simples, bastava acompanhar o processo com uma ladainha que variava em função do cenário que estava a revelar: “árvore-menino-cão-ladrão”, “avó-sorvete-degrau-neto”, “rio-frio-inverno-casaco”. Era a lengalenga que lhe dava o timing certo.

Cinco manhãs por semana, a contadora de fotografias escolhia quatro imagens e ampliava-as até cobrirem uma parede. Duas em cima, duas em baixo, mesmo a raiar o rodapé. Depois, sentava-se defronte da parede e contava o que se passava em cada um dos cenários eternizados pelo tirador de fotografias.

“…aqui o tirador de fotografias pediu ao menino que sorrisse. O menino fez uma birra que gritava pela roupa toda. A mãe, envergonhada, prometeu-lhe um chocolate na mercearia do senhor Arlindo, o velhote que tinha uma mulher que sofria de varizes…”

“…neste dia fazia um frio dos diabos e as pessoas andavam na rua com casacos de papa alentejana. Bem, não eram de papa alentejana, mas antes fossem, que o frio que caía do céu chegava para humedecer paredes grossas…”

“..este pato era parvo, ou então tinha muita personalidade. Pois se estão todos a nadar para o pão que a menina atirou, ele também devia estar. Olha, se calhar não tinha fome…”

“…devia ser março ou abril. Só no início da primavera é que as pessoas vão à praia com sapatos fechados. No outono ainda levam o embalo do verão e as sandálias nos pés…”

Depois, a contadora de fotografias retirava a fita-cola a cada uma das imagens, sorria ao lembrar-se de que o pai dizia “fita-gomada”, escrevinhava no verso pequenas notas da sua história, guardava-as numa grande caixa e saía para trabalhar.

Um dia, já não havia no arquivo mais tiras de negativos com imagens para contar. A contadora de fotografias já as tinha contado todas e ainda não tinha dado com a palavra para descrever as saudades que sentia do pai. Abriu cada uma das doze gavetas do móvel de alumínio. Vazias, as doze. Depois, desmontou-as uma a uma e, lá no fundo do armário, deu com uma tira de negativos perdida. Quatro imagens dela menina, num canto da câmara escura, a contar fotografias.

Foi quando percebeu que o tirador de fotografias, por não ter jeito para as palavras, tinha preferido fotografar o amor.

Trecho para um livro que nunca vou escrever


tralhasdavida,

Adormeceste a meio do filme iraniano que tinha uns miúdos que queriam formar uma banda. Hesitei em acordar-te e acabei por te tapar com uma manta aos quadrados. Tinhas os pés frios mas cabias na longitude do sofá.

Perdeste uma boa parte do filme. Não estavas em estado de decifrar uma língua ininteligível. A história fica lá, para a veres noutro dia, para saberes como acaba.

Deixei-te com um beijo na testa a acompanhar um afago no cabelo, que estás a precisar de cortar. Sei que mesmo a dormir pressentes os meus gestos de ternura.

Amanhã, se estiveres assim cansado, faço-te um chá. Para adormeceres antes de o filme começar.

Trecho para um livro que nunca vou escrever


tralhasdavida,

Se me tivessem deixado escrever a história da minha vida, as coisas teriam tomado outro rumo. Havia de ter arranjado maneira de me escapar à sucessão de acontecimentos desgovernados que deixaram mortos, feridos, perdas e estilhaços.

Controlo de danos, é o que tenho andado a fazer nos últimos anos, a viver numa não felicidade, na passividade de me deixar perdurar neste limbo de esforço, encurralada entre dois imanes de pólos opostos. Eu, uma figura parada com a vida a atropelar-me para a esquerda e para a direita, a cair no desnorteio do turista continental que atravessa uma rua de Londres.

Se tivesse sido eu a escrever a história da minha vida, contava-a em fotogramas, como fazem os realizadores de Hollywood, que arranjam maneira de meter pessoas a apaixonarem-se em Nova Iorque.

Nova Iorque no Outono é um sofá de dois lugares com uma manta de xadrez.

Eu, da primeira vez que me apaixonei, foi no largo do Calhariz e era Inverno. Caía uma chuva molha-parvos que me molhava. Um senhor de fato escuro, na paragem do autocarro, ofereceu-me o guarda chuva. Tinha olhos claros e, provavelmente, pena de mim.

Ser Família


tralhasdavida,

A minha tia Xita, na carreirinha dos nove irmãos, ocupava o terceiro lugar na cronologia dos nascimentos, logo a seguir à minha mãe. Nos nossos corações concorria claramente a um lugar cimeiro no pódio. Porque nos oferecia enormes caixas de chocolates, envoltas em farfalhudos laços dourados selados com o timbre inconfundível da Casa Pereira, porque no Natal era quem se encarregava de arranjar um bolo-rei do tamanho de uma roda de autocarro e porque nunca se esquecia de meter no correio um cartão por ocasião dos nossos anos.

Por tudo isto e, sobretudo, porque era uma tia solteira. Nós gostávamos dela porque ela gostava muito de nós e não tinha mais ninguém.

Ao longo dos anos, e à medida que o tempo a foi deixando mais roliça, não havia Natal em que o prato forte não fosse observar meticulosamente a sua indumentária. Ora porque aparecia com um vestido amarelo-canário com um folho transversal que acentuava os quilos acumulados no ano transacto, ora porque se lembrava de cobrir os ombros com lenços cheios de ilustrações de ramagens e espingardas antigas (sussurrávamos nós que era a mais fina expressão do seu lado bélico). Batom sempre muito, e em cores garridas, a deixar marcas duradouras nas bochechas dos sobrinhos.

Quando fui viver para os Estados Unidos, a primeira carta que recebi foi sua. E, à medida que fomos trocando correspondência (do lado dela, com farto uso dos cartões de artistas amputados que pintam com a boca), descobri que aquela tia solteirona tinha um extraordinário sentido de humor e uma visão muito perspicaz sobre os assuntos mundanos.

Ás tantas, lá por alturas de ficar adulta, com tristeza percebi que as gargalhadinhas estridentes desta tia, que nos entravam pela porta de casa num laivo de suprema alegria, não eram um simples traço de personalidade. Umas vezes eram consequência de uma medicação mal doseada, outras vezes eram sinal de falta de medicação. Descobri, nem sei bem quando, que a tia Xita não era simplesmente um bocadinho pílulas, era mesmo doente. Mas nós continuámos a gostar dela. Porque ela gostava muito de nós e não tinha mais ninguém.

Aqui há uns anos a sua saúde foi-se deteriorando a acabou por ter de ir viver para um lar. Continuámos, no entanto, a receber regulares cartões na caixa do correio. Ás vezes com uma letra muito trémula.

Um dia a minha prima Filipa, que vive na Covilhã, veio a Lisboa e foi visitá-la. Como não a via há algum tempo ficou muito impressionada com o seu estado e perguntou no lar se não seria melhor chamar um padre para lhe administrar os últimos sacramentos. Responderam-lhe que achavam excessivo, que a tia ainda ali estava para lavar e durar. Suponho que tenha ficado incomodada porque no dia seguinte, voltou lá e, mediante a falta de alguém mais qualificado, resolveu rezar um terço ao seu lado.

A tia morreu na noite seguinte, a dormir, com setenta e qualquer-coisa anos. Acredito piamente que esperava apenas que alguém lhe oferecesse um momento de oração para se despedir.

Não foi muito conveniente para os sobrinhos, já que isto se passou em pleno Agosto e todos gozávamos dias de férias pelos quatro cantos de Portugal. Mas viemos todos, porque gostávamos dela, porque ela gostava de nós e porque somos tudo o que teve. E isso é ser família.

Querida tia Xita.

Passagem de Nível


tralhasdavida,

Aquela conversa de travesseiro, “quem é o meu quindizinho?”. “Sou eu. Quem é a minha roim-roim- roim?” “Sou eu”, e ele inventou de dizer que jamais se separariam e que ele seria, para ela, como aquele nervinho de carne que fica preso entre os dentes, e ela disse “Credo, Osvaldo, que mau gosto!”, e saiu da cama e depois nunca mais. Acabou por metáfora errada.

 

(Luis Fernando Veríssimo, em  O Melhor das Comédias da Vida Privada)

Diário Secreto


tralhasdavida,

Acho que nunca falei aqui de uma livraria solidária que criei juntamente com uma série de gente com o objectivo de angariar fundos para projectos de profissionalização de jovens com Trissomia 21.

Depois de uns anos a marinar, a Déjà Lu viu a luz do dia, e com muita pinta, muita pompa, muita circunstância. Agora trabalho para a causa que nem uma moura, mas tenho-me divertido à brava e fico feliz por saber que há muitas pessoas que ficam extasiadas quando lá vão. Chegam à espera de encontrar umas bancas empoeiradas e aparece-lhes um portento daqueles. É cá um orgulho.

Cheguei à conclusão de que o que me dá realmente prazer na vida é criar contextos que juntam uma data de gente a trabalhar para um propósito legítimo. Às vezes sinto-me o Tom Sawyer, tipo: “olha que giro que era amanhã vires para cá uma data de horas limpar o pó aos livros”. E as pessoas vêm. Felizes e tudo. É incrível.

Juntou-se um grupo de voluntariado de arromba que faz uma espécie de círculo de energia cool. É bom fazer a diferença.

Blogue da Semana


tralhasdavida,

Calhou-me escolher o blogue da semana e eu resolvi ser rebelde e escolher dois (ah, ganda maluca). Apresentarei então dois blogues de pessoas anónimas da vida pública, que são minhas amigas e que ora me deleitam, ora me divertem com as linhas que tecem.

A primeira é a Leonor Rosado, que conheci com doze anos quando andava nas Guias e em quem, após a era dos acampamentos, fui tropeçando em contextos diversos ao longo da vida. Criou há uns anos o Outro Sentido, onde vou quando quero encontrar uma boa selecção de música, sugestões de espectáculos ou pensamentos pessoais inspiradores.

A segunda é a Anouc, que escreve sob este pseudónimo vá-se lá saber porquê. Encontrámo-nos há um par de anos num curso de escrita e constatei, com toda a curiosidade, que era uma pessoa que dominava com toda a perícia a habilidade de escrever com duas vozes completamente diferentes: uma quando inventava histórias, outra quando escrevia pequenos excertos no Não Percebi a Pergunta. Identifico-me muito mais com o segundo estilo, e morro a rir de cada vez que por lá passo.

Recomendo ambos, claro. Mesmo a quem não as conhece.

Vestida para Matar


tralhasdavida,

“Vestida para Matar” era o título de um filme de Brian de Palma que passou no grande ecrã lá por inícios dos anos 80, cujo título nunca me convenceu, uma vez que é a esplendorosa protagonista quem acaba esventrada à navalhada. Dressed to be Killed teria sido inequivocamente um tiro mais certeiro, mas deduzo que o Brian de Palma não tenha querido desvendar, assim à priori, que a boazona batia a bota a meio da fita sem apelo nem agravo.

 

É certo que, no cenário terrorista dos nossos dias, a expressão “Vestida para Matar” atiraria facilmente para conotações iraquianas e que, face a um título destes, em vez de uma giraça de mini-saia e botas altas, imaginaríamos imediatamente uma película protagonizada por uma Mata Hari de tez escura, enrolada em TNT debaixo da burka. 

 

Ora esta história de haver quem se vista para matar, quem se traje para morrer ou quem se dispa para chocar, faz-me pensar nas razões que levam cada um de nós a escolher determinado conjunto de peças para vestir. Haverá certamente quem se cubra apenas para evitar a nudez mas, na maior parte dos casos, escolhemos a roupa em função do nosso estado de espírito ou da imagem que queremos projectar.

 

Diz a minha mãe que a Agatha Christie conta, na sua biografia, que seguindo o sábio conselho da sua progenitora, nunca viajou que não fosse com roupa interior imaculada. Temia ter um acidente e queria garantir não vir a passar vergonhas no hospital.

Não sei se a história é verídica, nem tão pouco se é relativa a Agatha Christie (conhecendo a minha mãe, seria bastante verosímil enganar-se na fonte de informação), mas é certo que, depois de ouvir isto, sempre que viajo e não vá o diabo tecê-las, deixo conscientemente em terra o underware “da guerra da Coreia”. Quanto ao resto, estou em mágica sintonia com a Emma Bull que, no seu romance War for the Oaks, descreve sabiamente a psicologia que está por detrás desta questão: “Sometimes, she reflected, she dressed for courage, sometimes for success, and sometimes for the consolation of knowing that whatever else went wrong, at least she liked her clothes”.

Ou seja, mesmo que não me apresente em trajes que me fiquem a  matar, quando a coisa começa a ficar preta, ao menos gosto dos meus trapos.

Passagem de Nível


tralhasdavida,

Toda aquela itinerância com guias, disse ele passado um momento. Naqueles horríveis crocodilos de turistas, a entrar e a sair de igrejas, museus e mesquitas. Não, não, não. Gosto de estar quieto, de descobrir uma cadeira confortável. Está a ver o que quero dizer? Gosto de absorver um país.

 

(Paul Theroux, em O Grande Bazar Ferroviário)

Os Mistérios do “Tal Canal”


tralhasdavida,

Um dia destes andei a ver antigos episódios do “Verão Azul” e confesso que fiquei admirada com a quantidade de pares de estalos que são sendo arriados naqueles putos ao correr das histórias. Só o Piranha levou para cima de meia dúzia num dia em que se resolveu armar em esperto e fazer greve de silêncio em casa.

Já não me lembrava de ter feito parte de uma fornada de malta cujos pais, para nosso próprio bem, não tinham qualquer pudor em nos pespegar umas boas e velhas galhetas. E eu levei umas quantas, confesso, sobretudo pela minha velha mania de não me saber calar nos momentos cruciais. Se em alguns casos considero que até foram bem arriadas e que me prepararam para a dureza da vida, noutros casos, demorei uma data de anos a engolir a injustiça da punição corporal.

O caso mais gritante foi o “Caso Tal Canal”.  Ora o popular programa do Herman foi para o ar em 1983 quando eu tinha uns ingénuos 12 anos. Não havia qualquer hipótese de conseguir fazer segundas leituras dos sketches, mas, mesmo ficando-me pelos sentidos mais literais, ria-me que nem uma perdida, em uníssono com o resto da família. Achava um piadão ao Menino Nelito a infernizar a vida da sôdona Palmira, ao Estebes a falar à Puorto, ao Victor de Sousa a fazer de entrevistador, a Helena Isabel de locutora e por aí fora.

 

Andava tão entusiasmada com a revoada de humor que cantava incontrolavelmente a letra do genérico por todo o lado, inclusivamente à mesa do jantar em família, sublinhando efusivamente o verso final de cada estrofe, que acabava invariavelmente em “…e o que mais adoro em ti é o tal canal”. Com cara de poucos amigos, um dia o meu pai lançou-me o primeiro cartão amarelo – “Fazes favor de não cantar isso”.

Ingenuamente achei que o alerta tivesse por base o facto de estar a cantar à mesa. Nunca me passou pela cabeça que a letra desta ritmada canção pudesse conter significados obscuros. De maneira que não me inibi de, à primeira oportunidade, voltar a gritar pela casa fora “…e o que mais adoro em ti é o tal canal”, “…e o que mais adoro em ti é o tal canal”, “…e o que mais adoro em ti é o tal canal”. Até que PUMBA, lá saltou a lamparina da ordem, que aquilo não era casa em que se falasse dessas coisas (embora eu não fizesse a mínima ideia de que coisas estavam a falar).

Só muito recentemente, ao rever o genérico do programa, já com idade para cantarolar o que bem me apetecesse, finalmente se fez luz no espírito relativamente ao mistério ginecológico que estava por detrás do “Tal Canal”.

 

Felizmente, os pais já se deixaram desta mania de andar a chegar a roupa ao pêlo à criançada por motivos musicais, caso contrário assistiríamos a espancamentos em praça pública, à porta da “Ilha Aventura”, quando crianças de 5 anos bamboleiam as ancas ao som “del moviemento sexy”.

E não, não vou falar do magote de miúdas de 10 anos das aulas de hip hop da escola católica dos meus filhos que se apresentaram num teatro matinal, envoltas em plumas, a lançar para a frente os braços numa coreografia convidativa que implorava “give me, give me, give me a man after midnight”. Sim, já nem falo disto. Não vá eu provocar, numa de revival, o regresso a alguns costumes bíblicos que implicavam apedrejamento.