Trecho para um livro que nunca vou escrever


tralhasdavida,

Enfiámo-nos no carro a uma hora fora das convenções dos meridianos longitudinais. Encontrámos uma falha no fuso horário que nos deixou uma infinitude de tempo para viajar sem que alguém pudesse dar pela nossa falta. Bastava seguir tantas horas para a frente quantas para trás, não havia que enganar.

Sorriste quando apareci com uma almofada. Expliquei-te que numa longa viagem de carro não é preciso mais nada. Basta uma almofada.

Ofereceste-te para guiar durante os primeiros quilómetros. Eu aceitei e enrosquei-me no banco do passageiro, em jeito de adormecer.

Foi assim que, de olhos fechados e emudecida pelo embalo da estrada, mantive contigo um diálogo silencioso onde tu conversaste pelos meus sonhos e eu te respondi pelos teus pensamentos.

Depois, já repousada e com a alma tranquilizada pela poesia da quietude, assegurei a rota do volante.

Cem, duzentos, trezentos quilómetros, duas horas, cem horas, mil horas. 

Perguntei-te se era altura de voltar para trás. Disseste que não. Que aquela era uma viagem sem ponto de retorno. Que era para seguir em frente sem nunca ninguém dar por nada.

Depois pediste-me a almofada emprestada. 

Passagem de Nível


tralhasdavida,

“(…) Outra pergunta que comecei a fazer a mim mesma foi a seguinte: a tendência predominantemente pessimista que os meus pensamentos têm vindo a experimentar nestes últimos dias dever-se-á ao estado do mundo, que é mau e piora mais depressa do que podemos esperar salvá-lo, o que me inquieta e enfraquece – ou dever-se-á simplesmente ao nível insuficiente das hormonas tiroideias, o que significaria que o estado do mundo não é tão assustador como tende a parecer-me, e me deveria levar a dizer de mim para mim: lembra-te do teu hipotiroidismo e acredita que o estado do mundo acabará por se recompor.”

(Lydia Davis, Contos Completos – Diário da Tiróide)

Cá Por Casa


tralhasdavida,

Manuel Prieto, combinando com seu tio uma saída no dia seguinte, disse-lhe não saber o que era um farnel. O tio explicou-lhe que era aquilo que os pastores enrolavam num pano e penduravam num cajado para levarem para o campo. Manuel Prieto não sabia o que era um cajado. Por fim, depois de muita reviravolta vocabulística, lá exclamou: ah é um lanche.

Pelo Mundo


tralhasdavida,

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Marco António, dez, doze anitos, ar bonacheirão. “Olha lá, ó Marco António, quem é aquela miúda?”, “É a minha prima. Veio cá dormir e agora vai para casa dela”. Pronto, está bem.

Pelo Mundo


tralhasdavida,

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Na ilha de Taquila, no lago Titicaca, são os homens quem tricota os gorros, dando gás às agulhas a toda a velocidade. É muito divertido vê-los a passear por todo o lado enquanto tricotam.

Pelo Mundo


tralhasdavida,

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Em La Paz, damos com miudagem a tomar conta de lojas enquanto joga animadamente numa playstation portátil. Não dá muito jeito quando precisamos de uma informação concreta do tipo se há determinado poncho em determinada cor, mas torna uma tarde de compras muito mais inesperada. 

Até Onde Pode Ir o Humor


tralhasdavida,

Hoje, no âmbito do Festival Internacional de Cultura (FIC) em Cascais, fui assistir a uma mesa-redonda onde se discutia literatura e humor.

Uma das velhas questões que veio à baila é até onde pode ou deve ir o humor. No fundo, se qualquer tema pode servir de base para fazer piadas ou se há temas mais sensíveis que devem ser deixados imaculados.

É comum a resistência a piadas religiosas, por exemplo, que são muito facilmente consideradas hereges ofensas.

Enquanto se discutia o caso, eu, que tenho uma opinião muito vincada sobre o assunto, lembrei-me de dois excertos sobre o mesmíssimo tema: um que me deu náuseas e outro que me fez rebentar a rir.

No primeiro caso, tratava-se de um sketch do Rui Sinel de Cordes que passou em tempos na Sic Radical onde se via um ringue de patinagem com uma data de gente a patinar e ele comentava em tom jocoso que os portadores de Síndrome de Down poderiam patinar à vontade porque se caíssem, ninguém ia notar qualquer diferença nas suas caras esborrachadas.

Doutra feita, num livro do David Sedaris, este, que tinha resolvido deixar de fumar e começar a fazer natação após anos de inércia total, confessava que na piscina, na pista ao lado da dele, nadava uma rapariga com Down e que ele se via e desejava para a acompanhar. Que, entre pirolitos, falta de fôlego e ameaças de afogamento, tinha firmado como objectivo vir a ultrapassá-la. Era o mínimo dos mínimos.

O que pretendo demonstrar, citando estes dois exemplos, é que não há limites para os temas que podem servir de piada mas que, se o tema é sensível, é bom que a piada seja hilariante. Não pode ser má nem simplesmente cruel.