Dia Mundial da Trissomia 21


tralhasdavida,

Hoje é Dia Mundial da Trissomia 21 e da maneira como embirro com dias mundiais de coisas, seria normal não ligar nenhuma à data. Mas a verdade é que os cromossomas a mais da minha filha Francisca me fazem olhar de uma forma diferente para este dia. Porque ainda há muita mata para desbravar até que deixe de ser necessário gritar pelos direitos irrefutáveis destas pessoas.

 

Tive sorte. Quando ela nasceu ouvi muitas vezes falar dos olhares de soslaio de que estas crianças eram vítimas, da dificuldade de integração na escola regular, da falta de fé nas suas capacidades e na tendência vigente para serem consideradas cidadãos de segunda. Tive sorte, repito, porque nunca senti olhares preconceituosos. Pelo contrário, senti muitos olhares, mas sempre de curiosidade ou de simpatia, por verem uma miúda com Down a comportar-se de uma forma tão desconcertantemente normal. Da mesma forma, também tive uma sorte tremenda na escola que ela frequenta. Ao invés de me apresentarem problemas, sempre me ajudaram a encontrar soluções e sempre acreditaram que ela era capaz de feitos extraordinários. A prova é que, ao dia de hoje, com dez anos, a Francisca lê na perfeição, escreve e até faz composições simples sobre os assuntos que lhe interessam lá na sua vida.

É sempre convidada para as festas dos colegas e até tem um par de amigas do coração que disputam festas do pijama ora em casa de uma, ora em casa de outra. A nenhum pai vi alguma vez qualquer demonstração de desagrado por ter de a receber em casa. Pelo contrário, são sempre o cúmulo da simpatia e acham um piadão ao seu sentido de humor.

Uma vez disse-me que queria montar a cavalo. Lá arranjei maneira de a inscrever numa escola de hipismo durante as férias, onde ficava todo o dia. Quando a ia buscar, os professores contavam-me sempre grandes aventuras e o que é certo é que conseguiram pôr a rapariga a galopar num par de semanas.

Também foi para as Guias, com a irmã. É a animadora do bando das avezinhas e assim que lhe falaram em acampamento, lá estava ela na linha da frente, pronta para pôr a mochila às costas. As chefes nunca tiveram um momento de hesitação e sempre a receberam com a mesma alegria com que receberiam qualquer criança.

 

Mas sei que, infelizmente, ainda não é assim para todos. Que, na maior parte dos casos, as escolas olham para estas crianças como um fardo em vez de um desafio, que noutros agrupamentos de Guias ou Escuteiros disseram peremptoriamente aos pais que não tinham capacidade para as receberem, que nos cavalos as colocam em aulas de hipoterapia em vez de em classes regulares e que em muitos casos, nunca, mas nunca, são convidadas para festas.

 

É por isso que, apesar da sorte que tenho tido, tenho de marcar o dia 21 de Março como um dia para defender o direito à igualdade na diferença. Porque nem todas as famílias tiveram a sorte de encontrar pelo caminho pessoas do calibre das que nós temos encontrado. Das que acreditam que está nas suas mãos fazer a diferença.

 

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Palhaço Mau versus Padeiro


tralhasdavida,

Hoje bem cedo, já andava o palhaço mau na rua. É dia de feira, de maneira que se preparou para a circulação acrescida de transeuntes, enchendo uma data de balões, com os quais se passeia para cá e para lá, à espera da primeira vítima.

O padeiro vislumbra-o ao longe e, num acesso de compaixão, pega num saco com quatro carcaças para lhe ir oferecer.

Desconfiado, o palhaço mau olha para dentro do saco e diz “bem, agradeço, mas faço notar que há uma série de dias que não me vem cumprimentar”. O padeiro, irritado com o reparo, responde “olha lá, tu estás aqui para o fundo da rua, em cascos de rolha. Deves estar a achar que és a minha avó e que eu tenho de atravessar a sala para te vir falar. Tá bem, tá.”

O Palhaço Mau


tralhasdavida,

Ali pelas redondezas da padaria do meu irmão, volta não volta, aparece o palhaço mau.

O palhaço mau é um homem na casa dos quarenta, avagabundado, que se apresenta de cabeleira colorida e gravata grandalhona, estrategicamente posicionado no meio de uma rua pedestre onde existem vários gabinetes de fisioterapia e consultórios de análises.

Sendo um palhaço madrugador, logo a partir das oito da manhã desata a atacar os pacientes em jejum que se deslocam às análises e, aproveitando-se dos seus estados de fraqueza, começa por pedir um sorriso “vá, dê lá um sorriso ao palhaço” e, depois de os desarmar, passa rapidamente para um “vá, venha de lá uma moedinha para o palhaço.

Eu e o meu irmão partilhamos um ódio figadal ao palhaço que, a quem tem a audácia de não lhe dar a moeda, desata a gritar impropérios até o desgraçado conseguir dobrar a esquina. No caso de quem vai à fisioterapia, muitas vezes de muletas, a cena torna-se um sofrimento não só para o transeunte, mas também para quem observa a lentidão do passo, directamente proporcional ao aumento do volume dos impropérios.

O meu irmão, tendo ali a padaria, é um vítima permanente do palhaço, mas para não criar má vizinhança, já concordou em oferecer-lhe pão. Volta não volta, o palhaço farta-se do pão e lá lhe crava uma moeda. Segue-se um diálogo do tipo “opá, uma moeda não pode ser. Se eu fosse dono de um banco dava-te uma moeda, mas sabes muito bem que sou padeiro. Tem lá paciência, mas só te posso dar pão”. O palhaço resignado, responde “bem, postas assim as coisas, então está bem”, e dá uma folga por mais umas semanas antes de voltar à carga: “então e um sumo, não me dás um sumo?”, o meu irmão irritado “um sumo????? tu achas que eu sou da Sumol ou quê? Toma lá uma vianinha e não me chateies mais”.

E lá volta o palhaço para a rua, assumindo o seu papel de porta voz do povo oprimido, gritando às pessoas frases emblemáticas, ao estilo Bloco de Esquerda: “pois, andas para aí de Porsche Cayenne, mas não dás uma moedinha ao palhaço”.

Ora no outro dia, tive de ir fazer análises. Em jejum e sem ter tomado o comprido da tiróide, fui levar a filharada à escola, não sem ter dado um apertão a um dos rapazes que me estava a responder torto, e sem ter tido de ouvir que se tinha perdido o livro de não sei o quê e que a culpa era minha (?). Estacionei o carro e, raismapartam que há manhãs em que uma pessoa não devia sair da cama, dou de caras com o palhaço mau.

Num acesso de egoísmo, ligado a um feroz instinto de sobrevivência, olhei para o lado e vi uma senhora a caminhar vagarosamente com uma muleta, de maneira que me imaginei a salvo.

Nada disso, levei com a cegarrega toda “um dia tão bonito e nem há um sorriso para o palhaço. Há gente assim, mal disposta logo às oito da manhã. Depois é isto, o despreeeeeeezo. Vão à missa, vão à missa, mas depois tratam as pessoas como se fossem cães” (e por aí fora até ao dobrar da esquina).

Depois, ainda não sei se aconteceu realmente ou se foi fruto de alguma alucinação provocada pelo jejum, resolvi voltar para trás, atirei-me ao gasganete do palhaço e fui-lhe aos fagotes. Assim, ele deitado no chão e eu tumba, tumba, tumba, seu palhaço comuna, estavas era a precisar de umas lambadas, seu idiota. E ele “pára, pára, pára” e eu “isso era o que tu querias, ó ovelha ranhosa dos Cardinali. A mim não me pedes mais moedinhas, ouviste? Nem a mim nem à senhora da muleta, estamos entendidos?” E ele, com a mãos perniciosas a tapar a cara, já me implorava misericórdia, jurando que nunca mais, nunca, nunca, nunca.

Foi cá um alivio.

Momentos Musicais


tralhasdavida,

Todos temos a banda sonora da nossa vida. Há aquela música que estava a tocar no minuto piroso em que alguém nos pediu namoro em 1985, ou aqueloutra que andava no leitor do carro durante um Verão de loucura em que só fizemos asneiras, ou até a que abriu a pista no dia do nosso casamento. São as músicas que, quase sem nos apercebermos, sabemos de cor de uma ponta à outra e que têm o dom de nos transportar no tempo. Coleccionamo-las ao longo dos anos, à medida que se pegam por osmose aos bocados de vida e, sempre que tocam numa rádio nostalgia, fazem com que desatemos a berrar o refrão.

 

De igual forma, colecciono bocadinhos de concertos a que assisti e que me fazem lançar uma gargalhada sempre que voltam à memória.

Aqui há uns anos, no Cool Jazz Fest, Solomon Burke partilhava o palco com Joss Stone. Ele, já nos últimos tempos de vida, tão gordo e doente que entrou e saiu do palco envolto numa nuvem de fumos para que não se percebesse que não conseguia andar. Cantou tudo o que tinha para cantar no seu vozeirão inconfundível, mas sempre enfiado numa gigantesca poltrona, com manto de rei.

Ela, uma flor, de voz melosa, esvoaçando em vestido de verão de volta da poltrona. Às tantas, a meio de um conhecido êxito de Burke, assisto ao rei a fazer olhinhos a Joss Stone enquanto cantava em tom implorativo “please don’t give up on me, oh pleaaaaaaaaase don’t give up on me”. 

No Sábado passado, tive o privilégio de assistir a outro momento de ouro nesta vida de plateia. Como fã do Seu Jorge que sou, não falhei o concerto no Meo Arena. Ia ficando surda, mas valeu a pena. Marisa Monte era artista convidada. Ora eu gosto tanto do Seu Jorge como gosto da Marisa Monte, de maneira que não havia como levar uma banhada.

E foi assim que depois de grandes êxitos como “Ela é bipolar” ou “Mina Feia”, tocados com toda a euforia pela banda, aparece a Marisa Monte a cantar em dueto com o grande Jorge Mário, canções dos seu próprio repertório. E tudo foi em crescendo, culminando nos dois artistas, costas com costas, a gemerem que “de noite na cama, de noite na caaaaaama, eu fico pensando se você me ama e quanto”. Como se não bastasse, e eu não tivesse já ganho a noite, mais à frente dei com os dois numa deliciosa declaração de “amor I love you, amor I love you”.

É bom demais para se varrer da memória.

 

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Memórias de Uma casa


tralhasdavida,

Nasci numa casa das que já não existem. Das que são elas próprias uma história de amor.

Era a casa da avó Júlia e do avô Eduardo, pais de nove filhos, que a arrendaram em 1949 quando a minha mãe tinha quinze anos. Foi nesta casa que todas as tias se casaram e onde sempre éramos fotografados com um ar muito composto, defronte de uma colcha de Castelo Branco e de dois jarrões da Índia que se vieram a partir na sequência das corridas de patins no corredor.

Quando os meus pais se casaram, ficaram a viver no segundo andar, no sótão, e por lá fomos nascendo os cinco, no meio de avós e tias.

O meu pai, que vinha de uma família reduzida, adoptou aquela multidão como sua e sempre o ouvi chamar mãe à minha avó materna (embora fosse comum à época) e manas às minhas tias.

Com grande pena minha, o avô Eduardo morreu pouco tempo antes de eu nascer, pelo que nunca o cheguei a conhecer.

A avó Júlia era uma pessoa bondosa, muito ciente das suas obrigações católicas.

Lembro-me sempre dela a atravessar a rua para assistir à missa diária na capela dos Jesuítas, que ficava ali defronte. No inverno levava na cabeça um chapéu de pêlo, à russa, por causa dos resfriados e das constipações.

Lá em casa havia um Santo António grande, talvez de um metro de altura, e um dia o meu irmão Zé resolveu cobrir a cabeça do Santo António com um garruço. A avó ia tendo uma apoplexia. Achou que o acto herege podia valer ao neto o eterno fogo do inferno. O meu irmão, que sempre teve jeito para derreter corações de senhoras, ofereceu-se para ser seu aio por tempo indefinido e a avó acabou por esquecer a barbaridade.

Ao domingo íamos à missa à Basílica da Estrela. Eu era levada pela mão de alguma irmã ou de uma tia e às vezes deixavam-me levar uma boneca para assistir à cerimónia. Depois ficava muito aflita porque quando chegava a altura de comungar, por ser muito pequena, era obrigada a acompanhar as tias e ficava cheia de medo de não voltar a encontrar a boneca no banco da igreja.

A tia Beu fumava cigarros Ritz e levava-me a lanchar a uma pastelaria popular, logo ali ao lado. Eu escolhia iogurtes Ucal de chocolate porque eram os meus preferidos. Às vezes também me deixava comprar cigarros de chocolate iguais aos dela, que eu fingia fumar com os dedos esticados.

As compras faziam-se no supermercado Expresso e, na altura do pós 25 de Abril, cada pessoa só podia comprar dois litros de leite. De maneira que acontecia fazer viagens repetidas ao supermercado com tias diferentes para podermos trazer mais leite para casa.

Quando alguém ficava doente, íamos à Farmácia Mota Capitão, na rua de São Félix. Mas eu tinha muito medo porque achava que, se caísse, só parava em Santos já toda estrampalhada.

 

A casa tinha um leão de latão, em lugar de uma campainha. Quando alguém se queria fazer anunciar, puxava uma argola na língua do leão que fazia soar um sino.

No primeiro andar havia a salinha do piano. A tia Tó foi fazer o conservatório e tinha de ensaiar muito. Convocava os meus irmãos para lhe passarem as páginas da partituta. Quando estava bem disposta, e sabia que a avó não estava em casa, prometia-lhes tocar “A Desfolhada”, mesmo com a parte do “quem faz um filho, fá-lo por gosto”.

Do segundo andar só se descia de corrimão. Apanhava-se balanço na descida e depois reduzia-se ligeiramente a velocidade para fazer a curva de cada patamar sem danos de maior.

As escadas só serviam para fazer concursos. Para descobrir, entre os primos, quem era capaz de saltar do degrau mais alto.

 

Os meus irmãos são os quatro em escadinha e um bom bocado mais velhos do que eu. Pintavam a manta.

Em dias de chuva, divertiam-se a fazer a vida negra aos taxistas da praça que ficava do lado de lá da rua. Na altura, não havia centrais e as praças tinham uma coluna com um telefone para onde se ligava a pedir o serviço.

Os meus irmãos, de luz apagada e escondidos por detrás dos cortinados, ligavam para a praça. O taxista saía do carro debaixo de chuva torrencial, corria para o telefone e, no preciso momento em que se percebia que ele ia pegar no auscultador, desligavam.

Esperavam então que o senhor retomasse o assento no automóvel e repetiam calmamente a operação. Tantas vezes quantas as necessárias para ver um taxista em estado apoplético.

 

Outro clássico, era a “operação Ortigão Ramos”. A prole Ortigão Ramos vivia na casa do lado e, vá-se lá saber porquê, era alvo da embirração dos meus irmãos.

De maneira que, quando estavam enfadados, resolviam ligar para uma pastelaria lá do bairro a dizer que era da casa dos Ortigão Ramos e que era para encomendar uma dúzia de duchesses com entrega ao domicílio. Esperavam um quarto hora e lá viam um moço a passar com uma grande caixa atada num cordel.

Sabe-se que nunca os duchesses foram devolvidos. Mas ainda hoje nos perguntamos se algum Ortigão Ramos chegou a levar uma sova por acharem que era ele a fazer a encomenda.

 

Os momentos áureos eram os dias de festivais da canção. Fazia-se um bolo e tudo, para ser fatiado durante o intervalo, entre as actuações e as votações. O divertimento supremo era identificar uma fífia, um tropeção ou uma toillete medonha para, sem qualquer tipo de cerimónia, se desatar a atirar impiedosos pedregulhos verbais capazes de aniquilar logo pela raiz qualquer remota pretensão de carreira no mundo artístico.

Depois, cantavam-se meses a fio os temas mais populares e faziam-se actuações caseiras a imitar os artistas.

 

Isto foi tudo há muito tempo. Foi tudo noutra vida. Mas deixa cá umas saudades.

Madalenas de Proust


tralhasdavida,

Hoje o meu irmão Zé fez anos. Temos os dois uma sintonia estratosférica que faz com que, para além de irmãos, sejamos companheiros de quotidiano. É raro o dia em que não mandamos mensagens parvas um ao outro com pequenos episódios que acabámos de presenciar, ou com frases que encontrámos num livro, ou com uma qualquer piadola que sabemos que vai fazer com que o outro se ria.

Muitas vezes, aproveito esta nossa cumplicidade para pregar o sermão aos meus filhos sobre a importância de serem manos uns para os outros. Sempre que há gritaria, eu berro num décibel acima a já célebre frase “Parem com isso. Sejam manos”.

Calhou que o meu filho Manel fosse hoje jogar ténis a um torneio em Belas, de maneira que aproveitei o caminho para pensar no que é que podia oferecer ao meu irmão como presente de anos. Não é fácil oferecer presentes a quem já tem idade para não dar muita importância a quinquelharia material.

Foi quando dei de frente com a pastelaria que vende Fofos de Belas que se me fez luz no espírito. O que me apetecia oferecer-lhe era uma madalena de Proust, ou, no caso, um par de Fofos, iguaizinhos aos que o avô Eduardo lhe comprava quando resolviam ir em passeata de domingo, ainda antes de eu nascer.

Parei o carro e expliquei ao Manel o que ia fazer, evocando a história das madalenas de Proust.

Levando em conta que muito provavelmente o Manel não faz a mínima ideia de quem foi Proust, muito menos da sua ligação a um bolo da família do queque, perguntei-lhe se ele sabia o que era aquilo de que eu estava a falar.

Respondeu-me prontamente: “Está a ser mana”.

Afinal, sabia mais do que pensava.

 

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Terapia


tralhasdavida,

Apesar de não costumar assistir a ficção portuguesa, comecei a ver na diagonal a Terapia, na RTP1, por ser amiga de uma das actrizes. Três episódios mais tarde, ainda nem se vislumbrava no ecrã um cabelo da tal amiga, e já estava rendida à série. Ao invés do registo noveleiro a que a televisão portuguesa nos tem habituado, em Terapia assistimos a um registo muito próximo do universo cinematográfico. Com a particularidade de ser um formato que exige excelência do trabalho dos actores, porque é disso que se trata: de dissecar a alma humana até ao seu fio mais descarnado. E ninguém aguentaria assistir a minutos sem fim de texto, em grande plano, se este não fosse muito bem interpretado.

No primeiro episódio, a Soraia Chaves aguenta-se bem, mas num papel ingrato: o de mulher destrambelhada que se faz valer pela sedução (já a tínhamos visto fazer isto, e bem, pelo que não nos caem os queixos).

É no segundo episódio que nos rendemos com um Alex interpretado pelo Nuno Lopes, que nos diverte, ao mesmo tempo que nos esmurra o estômago. E ao longo de todas as terças feiras, a personagem vai ganhando cada vez mais corpo, ao ponto de a dissociarmos do actor. Tão bom, mas tão bom, que é imperdível.

Depois, quando liguei a televisão na primeira quarta feira da série, dei com uma adolescente chamada Catarina Rebelo que me fez entregar os pontos. O raio da miúda é tão bem malcriada que estamos sempre à espera de ver quando é que o Virgílio Castelo perde a paciência.

A minha amiga aparece mais à frente, como mulher do Virgílio Castelo, o psiquiatra de serviço. Primeiro de mansinho, em cenas curtas, mas depois, às sextas feiras, com mais protagonismo, durante as sessões de terapia de casal com a Ana Zannati (impecavelmente igual a si própria, num desempenho tranquilíssimo).

Ora eu estava habituada a ver esta minha amiga noutro tipo de registo. Concretamente no de Manoel de Oliveira, onde fazia de senhora do Douro, ou descia dos céus feita ninfa no meio da guerra colonial, ou então era uma freira, ou até uma rapariga pobre do Raul Brandão, a falar francês pelo filme fora. Sempre tudo muito devagarinho e com olhares enigmáticos.

Sempre bem, sempre em obras de eleição, mas num universo etéreo, como se fosse fora do mundo.

Era-me muito difícil avaliar o seu trabalho de actriz porque ficava invariavelmente desconcertada. Tinha sempre a sensação de que aquela senhora era uma espécie de sósia da minha amiga a quem digo montes de disparates sem qualquer cerimónia, e isto, de alguma maneira, não fazia sentido.
Na sexta feira passada quando a vi, na Terapia, fiquei banzada. Provavelmente porque a personagem se move num universo que me é mais próximo, pela primeira vez consegui olhar para a Leonor actriz sem que fosse através de uma cortina de organza. Deparei-me com uma força extraordinária, que se movimenta pelo texto fora (e que difícil que era o raio do texto e que violenta era a tensão do momento cénico) e que derruba tudo, com uma fluidez irrepreensível e uma linguagem corporal de se lhe tirar o chapéu.

Parabéns à direcção de actores, parabéns aos actores e, se me permitem, uma grande salva de palmas à minha amiga de quem tanto me orgulho.

 

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Memórias


tralhasdavida,

Uma vez, na rua,  a minha mãe deu uma nota de vinte euros a um homem com muito mau aspecto. Quando lhe dissemos que provavelmente o dinheiro ia ser gasto em droga ela disse que não fazia mal, que o homem estava desesperado.

Da Valentia do Trabalho Anónimo


tralhasdavida,

Quando o pai da Matilde, que era amigo cá de casa, foi para o céu, a Matilde tinha catorze anos. Quis o destino, ou a sua própria vontade, que a ela se fosse gradualmente aproximando da nossa família, ao ponto de hoje ter um lugar no nosso coração tão grande como qualquer um dos nossos sobrinhos, e uma intimidade muitas vezes superior.

A Matilde tem um percurso francamente diferente do da maior parte das raparigas da sua idade porque contrabalança na perfeição o seu tom cor de rosa betinho, com uma desarmante capacidade de compaixão para com o próximo.

A Matilde realiza-se no exercício do consolo e, por isso, nos últimos anos tem procurado, por iniciativa própria, diferentes formas de dar colo a quem desespera por um gesto de ternura.

Durante uns anos, integrou-se numa organização de distribuição de alimentos aos sem-abrigo. O que quer dizer que, quando calhava ir com ela jantar para as bandas da avenida da Liberdade, tínhamos sempre de abrandar o passo enquanto ela cumprimentava uma data de gente enfiada em sacos-cama pelas ombreiras das portas, avenida acima. Se íamos para fora e a levávamos connosco, já sabíamos que tínhamos de guardar as embalagens de champô dos hotéis porque ela era perita em convencer os sem-abrigo a irem tomar duche aos banhos públicos. Para confirmar que a operação se realizava, e que não havia margem para desculpas, apresentava-se à hora combinada, em cima da sua Vespa cor de rosa, frente ao edifício dos duches, com o frasco do champô e a imprescindível moeda de cinquenta cêntimos.

Depois, por alturas das férias da Páscoa, começou a ir em missões para o interior do país, oferecer os seus préstimos a lares de terceira idade. Vieram também as procissões e os campos de férias onde, no seu papel de monitora, conseguia enturmar na perfeição miúdos de famílias estruturadas com crianças problemáticas de instituições.

No meio disto tudo, chegou a altura da faculdade. Optou por enfermagem e está algures a meio do curso.

Um dia destes disse-me que queria ir para um campo de refugiados, que não podia olhar para o que se estava a passar e ficar de braços cruzados. Mas que tinha estado a investigar e que os voluntários tinham de pagar a viagem e a estadia do seu próprio bolso. Pediu-me ajuda para arranjar dinheiro, de maneira que coloquei a minha velha expertise pedinchona de angariação de fundos em acção e após uns posts no facebook e uns emails a amigos mais próximos, conseguiu-se em 24 horas ultrapassar a quantia necessária.

Lá embarcou a Matilde para a ilha de Lesbos, na Grécia, onde ficou durante os cerca de vinte dias que as suas férias da faculdade permitiam.

Voltou com as histórias com que tinha de voltar. Com o olhar de quem assistiu ao sofrimento humano na sua forma mais crua.

Perguntámos-lhe o que fazia no campo. Respondeu prontamente que tratava das “pontas soltas”. Isto, para quem a conhece, sabe que quer dizer que andou à procura dos aflitos mais aflitos para consolar. Que fez inúmeras visitas às lojas do chinês da cidade para, com o dinheiro que lhe sobrava, comprar gorros e sapatos para as crianças que se apresentavam de chinelos num lugar onde as temperaturas chegavam abaixo de zero. Que deslindou, das cinco mil pessoas que a rodeavam, quem precisava das luvas que ela própria tinha calçadas, ou quem tinha de seguir imediatamente para o hospital.

E que, apesar de se ocupar prioritariamente das crianças, eram os homens quem lhe fazia mais pena. “Porque para os homens nunca chegava nada. Era quem dormia ao relento quando já não havia espaço, era quem ficava sem comer quando não chegava para todos, era quem ficava sem cobertor quando a pilha acabava”.

E eu ouvi isto calada, primeiro porque não consigo imaginar o que é gerir uma enormidade destas, mas sobretudo porque de alguma maneira tudo parece menos cruel na doce voz da Matilde.

Blogue da Semana


tralhasdavida,

Conheci o projecto Crónicas da Atlântida em conversa com o António Luís Campos durante uma viagem pela América do Sul. Fiquei imediatamente rendida à ideia. 

Para além de líder de viagens da Nomad, o António é fotojornalista da National Geographic Portugal e um profundo conhecedor dos Açores. Propôs-se, por isso, publicar durante nove meses uma imagem por dia, considerando uma ilha por mês, da maior à mais pequena, de Leste para Oeste.

Trata-se assim de uma jornada visual pelas nove ilhas açorianas, tendo a viagem pelo quotidiano das suas gentes como fio condutor, numa narrativa construída ao longo de dois anos pelo fotógrafo.

O que me pareceu especialmente interessante é que a jornada é focada muito mais nas pessoas, nas gentes açorianas, do que nas paisagens propriamente ditas.

Vale uma boa uma espreitadela.

Trecho Para Um Livro Que Nunca Vou Escrever


tralhasdavida,

Nos dias em que me faltas, ponho-me a parlapatar contigo na beirada da cozinha, como se estivesses aqui. Não te deixo descansar de tanto te querer dizer coisas. E tu a dizeres-me estou no Panamá, mulher, deixa-me estar sossegado. E eu na cegarrega, que gosto de ti, que queria era que estivesses aqui comigo, não era no Panamá, que é um país lá do outro lado do mundo, onde eu não chego, onde não te consigo tapar com um cobertor e dizer-te segredos ao ouvido.

Para o Panamá tenho de te berrar segredos que toda a gente fica a saber, que deixam de ser segredos de tanto serem gritados.

O Panamá é um país com nome de chapéu pindérico. Preferia que tivesses ido para o Peru, que sempre é um país com nome de almoço de Natal.

Aventuras de Uma Livreira Acidental


tralhasdavida,

Há dias em que o coração de uma livreira acidental fica à beira de um enfarte de felicidade.

Hoje, a equipa da caixotaria começou a jornada num dos nossos pontos de entrega de livros, com a missão de se lançar ao desbaste. Isto quer dizer que nos atiramos aos sacos e caixotes que os doadores por lá vão deixando e vamos separando a mercadoria por temas, títulos para seguirem directamente para a livraria, outros para armazém, outros ainda para restauro ou para serem vendidos na internet. Uma trabalheira dos diabos, mas que alguém tem de fazer.

Para o final restavam três enormes caixotes em que ainda não tínhamos tido coragem de pegar, pelo tamanho e pelo peso.

Abrimos à cautela e fomos retirando o espólio. À primeira remessa, o meu coração começou a palpitar: saltaram-me logo para as mãos uns quantos José Régio antigos, aos quais se seguiram Stau Monteiros de que nunca tinha ouvido falar, mais umas quantas primeiras edições de poesia de primeira.

Ao segundo caixote estava perto da taquicardia quando começaram a aparecer Luiz Pachecos, um Ary dos Santos autografado, mais um Herberto Hélder muito antigo e mais uma data de volumes de Brecht iguais aos que existiam em casa dos meus pais.

O nível dos livros era de primeiríssima e, para além da alegria, a raiar a comoção, de os ter a passar pelas mãos, não nos foi alheio o sentimento de que serão certamente uma excelente fonte de angariação de fundos para a nossa causa.

Depois desta trabalheira, e com o coração em transe de gratidão por quem lá deixou os caixotes, venho para casa. Sabia que tinham passado por cá a deixar uns quantos livros provenientes do Porto.

É quando olho para o primeiro saco que o coração me cai aos pés. Não era nenhum Herberto Hélder, nem tão pouco um Luiz Pacheco. Era uma colectânea de peças de teatro infantil, compilada em 1948, onde constam duas peças escritas pelo meu pai, que foram levadas a cena vezes sem conta, mas de cujo livro original só temos um exemplar na família.

Não sei qual é o valor de mercado. Baixo, provavelmente. Mas no rating do meu coração, foi a melhor surpresa do dia. Foi a única que me levou às lágrimas.

 

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