Amor Vulcânico


tralhasdavida,

Este ano calhou ir aos Açores e passar de esguelha pela ilha do Faial. Fiz questão de visitar o Vulcão dos Capelinhos. Não porque me interesse particularmente por catástrofes naturais, mas porque me lembro de sempre ter ouvido dizer que o meu pai tinha sido um dos operadores de câmara destacados para cobrir o acontecimento. Em 1958, com a RTP a dar os primeiros passos da televisão em Portugal, lá embarcou o pai Zé António nesta aventura, com os parcos recursos que na época existiam.

Consta que foi durante as filmagens que tomou a resolução de casar com a minha mãe, de maneira que a boda se celebrou um ano mais tarde. Depois nascemos nós em escadinha, e ainda hoje permanecem juntos com um companheirismo e sentido de humor invejáveis.

Ora eu sou uma sentimentalona incorrigível, de maneira que, estando nas redondezas, não podia perder a oportunidade de visitar o local onde uma decisão deste calibre tinha sido tomada. Lá fui, com marido e filhos e, apesar da paisagem crua, não consegui deixar de me comover quando vi a minha filha Rita saltitar por entre as pedras com uma fita cor de laranja no cabelo. De alguma maneira, passados quase sessenta anos, dei com uma neta a marcar o amor dos avós, levando um traço de cor a este local de cinzas.

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Cá Por Casa


tralhasdavida,

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

Portugal arrecada 33 Medalhas nos Primeiros Jogos da Trissomia


tralhasdavida,

Li esta notícia ontem. Anuncia que Portugal terminou os Primeiros Jogos da Trissomia, em Itália, com 33 medalhas, seis delas de ouro, numa espécie de Olimpíadas que juntaram cerca de 750 competidores de 36 países.

Confesso que a princípio achei que estava no meio de um skech dos Gato Fedorento, tipo ah e tal, agora até os trissómicos portugueses são melhores do que os outros, querem lá ver. Mas depois pareceu-me óbvio o motivo que está por detrás deste sucesso.

Portugal é um dos países mais avançados em termos de integração. Neste momento, virtualmente todas as crianças com trissomia 21 frequentam sistema regular de ensino. E, a par com isso, praticam actividades em ambiente não exclusivo. Lá vão para a natação, para o judo, para os escuteiros, para o pingue-pongue, para a ginástica, ou seja lá para onde for, treinar em conjunto com crianças perfeitamente normais.

Isto torna a fasquia alta. Faz com que cada um deles, não obstante as suas dificuldades, se paute pela normalidade.

E este ambiente, que só é possível porque quer os pais, quer os treinadores, acreditam que eles são capazes, faz com que consigam realmente superar qualquer expectativa. É este ambiente que faz deles campeões.

Na maior parte dos países, mesmo nos mais avançados, estas crianças são colocadas em ambientes exclusivos. É perfeitamente defensável dizer que há vantagens nessa opção: trabalham com professores mais preparados, fazem desporto adaptado às suas dificuldades e convivem na maior parte do seu tempo com os seus pares. Mas, do meu ponto de vista, são menos desafiados. É como se criássemos escolas para crianças tímidas para não correrem o risco de sofrerem bullying. Seria certamente mais confortável, mas muito menos enriquecedor na preparação para a vida.

Como tenho um projecto de vida para a minha filha, que passa por muito mais do que assumir a sua deficiência e cruzar os braços, defendo ferozmente a integração.

Quero para ela o que quero para os outro filhos: que seja autónoma e feliz. Sei que, no caso dela, a rota é diferente e que vai tendo de ser adaptada. Mas tenho a certeza de que se não a puser a olhar para cima, ela não vai saber onde tem de chegar.

 

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Grito do Ipiranga


tralhasdavida,

Sou um guichet. Olham para mim e fazem-me pedidos, perguntas, requisições, exigências. E queixam-se. Que não cumpri os meus deveres a horas, ou com a competência necessária.

Estou sempre em falta. Agora, por exemplo, devia estar a cortar as unhas dos pés a um rapaz de catorze anos, como se isso fosse razoável.

Repito dia após dia tarefas invisíveis.

Uma vez li uma história de um senhor de idade a quem perguntaram o que tinha feito na vida e ele, por mais que puxasse pela memória, só se lembrava de passar os dias a pagar contas da electricidade. Sinto-me como este senhor. Atafulhada pela burocracia, afogada na logística, enterrada num buraco de obrigações que não valem nada, mas que alguém tem de cumprir.

Esta semana, ao final do dia, esqueci-me de ir buscar uma filha. Para piorar a situação, era a que tem cromossomas a mais. Quando lhe perguntaram se sabia o telefone do pai e da mãe, apressou-se a verbalizar as devidas sequências numéricas. Só por causa disto merecia que me tivessem levado para a prisão.

O problema das tarefas invisíveis é este. Se não as cumprimos, ficamos nus em praça pública. Somos uns incompetentes, pessoas pouco dignas de confiança.

Amanhã vou experimentar fechar o guichet por umas horas. Só para ver o que acontece.

Talvez o mundo não venha abaixo.  

Bukowski na Maturidade


tralhasdavida,

Ao longo dos tempos, tenho-me divertido com o Bukowski em doses moderadas, que uma pessoa vai a meio de uma história e fica tão atordoada que até parece que já mandou abaixo meia dúzia de gin tónicos. É daqueles autores em que pego quando, entre literatura mais cerrada, preciso de limpar o palato com um par de gargalhadas. Sempre excelente, a aliar na perfeição um carácter desbocado com uma certa dose de melancolia.

Avancei por este título há um par de dias. São notas do seu diário na fase em que se apresenta com 71 anos, cansado dos dias e dos desvarios do mundo. É um registo diferente. E tão impecavelmente escrito que ficamos cheios de pena por o tomo ter tão poucas páginas.

 

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Mau Humor


tralhasdavida,

Hoje foi dia de andar para aqui de estômago embrulhado numa difícil digestão daquelas que só as polémicas nas redes sociais são capazes de provocar.

Ora um rapaz humorista, de nome Diogo Faro, resolveu escrever uma crónica na revista Visão onde, divagando no formato dicotómico a que Miguel Esteves Cardoso brilhantemente nos habituou, abordou a temática das idas à praia dos Betos versus os Mitras.

A crónica até podia ter graça, mas não tinha lá assim muita. Repleta de lugares comuns e até de algumas incongruências, avançava pelas linhas fora ridicularizando os Lourenços versus os Fábios e as sanduíches de peru sem glutén por oposição aos papo-secos mistos e por aí fora.

Tudo isto passaria ao lado, se não houvesse pelo meio uma tirada infeliz em que o autor considerou hilariante comentar que os betos se apresentavam na praia com as suas grandes ninhadas, onde muitas vezes constavam crias com trissomia 21 que as mãe não afogavam à nascença porque ficavam óptimas nas fotos da família.

Defendo há muito tempo que não há fronteiras para o humor, excepto as do nível da graça. Ou seja, podemos fazer humor sobre aquilo que bem nos apetecer (sim, mesmo sobre o Menino Jesus ou a Madre Teresa ou os paralíticos do deserto), mas se nos atrevemos a levar o humor para temas extremos, é bom que a piadola seja mesmo hilariante. Não pode ser só uma graçola palerma.

E esta graçola do senhor Diogo Faro é tão pateta que, não tendo graça nenhuma, acaba por ser gratuitamente ofensiva para uma data de famílias que conheço que dão o litro para que os seus filhos com trissomia 21 tenham um projecto de vida capaz.

As crianças com trissomia 21 felizmente já não são remetidas para o quarto dos fundos das casas, mas também não são troféus de uma família. São só filhos. E para elas queremos um futuro igual ao que desejamos para qualquer outro filho: que sejam autónomas e felizes.

Aparecem evidentemente nas fotos de família, fazem o seu percurso em escola regular, andam na natação ou no judo ou no que bem lhes apetecer e trabalham o dobro dos outros para conseguirem metade dos resultados.

Nós estamos lá ao seu lado, como estamos para todos os filhos. Para os proteger das agruras desnecessárias, para lhes dar a mão quando calha não serem convidados para uma festa, para os ajudar nos trabalhos de casa e para garantir que, aconteça o que acontecer, venham a ter um papel relevante na sociedade.

Ao contrário do que o caríssimo Diogo Faro parodia, infelizmente há muitas famílias, de betos e não betos, que os afogam à nascença. Diz-nos a estatística que mais de 95% das crianças com trissiomia 21 ficam pelo caminho, logo ao início da gravidez, por opção dos pais. O que quer dizer que há muita gente que foge, como o diabo da cruz, de os querer ver no postal estival de família.

Mandar piadolas palermas sobre famílias que todos os dias têm de encher o peito para fazer valer os direitos dos seus filhos é uma crueldade.

Fazer humor em cima de crianças deficientes mentais é uma covardia.

Se o texto fosse de rebolar a rir, perdoava-se. O que está mal é que não era. Era só poucochinho.

Cá por Casa


tralhasdavida,

Rita Prieto, zangadíssima por eu a ter contrariado, declarou que a partir daquele momento não me conhecia. De maneira que, quando a interpelei daí a uns minutos, respondeu-me que a mãe dela não a deixava falar com desconhecidos.
E atreveu-se a acrescentar que eu era a pior desconhecida que ela conhecia. Aí os irmãos confrontaram-na com a incoerência. “Se não conheces a mãe, não podes dizer que é uma desconhecida que conheces”. Rita, já no cúmulo da fúria, avança para a declação bombástica: “És a pior desconhecida que desconheço”.

Fora de Série (15)


tralhasdavida,

O Verão Azul dava à quarta feira à tarde da minha pré-adolescência e passava-se numa vila balnear perto de Málaga.

Na altura eu passava férias no parque de campismo de Ferragudo, de maneira que sonhava com o dia em que, montada na bicicleta, integraria um grupo como o do Verão Azul. Claro que eu queria ser a Bea, a rapariga de cabelo comprido por quem todos os rapazes se batiam. E queria que o Javi gostasse de mim porque, para além de ser loiro, tinha uma sunga Speedo último grito da moda balnear.

Um dia quase consegui estar à altura da Bea, lá na cafetaria do parque de campismo. Uns rapazes de dezasseis anos meteram conversa comigo e quando me perguntaram a idade eu tive vergonha de dizer que só tinha doze e avancei para a maior mentira da minha vida: disse que tinha treze.

O Verão Azul fazia-nos caminhar pelo verão algarvio embalados pelo tralalá do genérico. E era uma série muito realista porque tinha uma data de pais às direitas que, de copo de whisky na mão, não tinham qualquer pudor em recorrer ao antigo método pedagógico de distribuir lambadas sempre que um filho se armava em esperto. Só o Piranha levou para cima de meia dúzia num dia em que resolveu levar a cabo uma greve de silêncio.

Era este realismo que me lançava para dentro do ecrã da televisão e me fazia conversar com as personagens como se fossem meus amigos. Fartei-me de comer gelados com o Quique, de dar conselhos à Desi, que era a feiosa do grupo, de passear pelas ruas de Ferragudo com o Pancho, que sabia tudo sobre pesca, e de derramar lágrimas verdadeiras pela morte do bom e velho Chanquete.

Claro que os meus filhos não percebem nada destes dramas quando os obrigo a passar os DVDs da série, com uma pobre imagem desbotada. Julgam que é ficção científica. Mas a verdade é que o meu coração ainda palpita de cada vez que oiço assobiar as notas dos azuis verões de antigamente.

 

Elefantes Brancos


tralhasdavida,

As redes sociais têm sido um suporte insuperável na missão de trazer à tona episódios embaraçosos que a nossa memória selectiva já tinha atirado para o subconsciente há séculos e que agradeceríamos que por lá permanecessem. É certo e sabido que, mais cedo ou mais tarde, alguém nos adiciona a um velho grupo da faculdade e que, de repente, desatamos a ser identificados em fotografias onde nos apresentamos de franja, camisa com chumaços e rosetas estampadas nas bochechas.

Mas se é verdade que há coisas que preferíamos esquecer, também é verdade que há momentos que merecem ser relembrados.

Hoje, quando me dei conta de que andava a circular pelo facebook de sombrero mexicano, mão na anca e cara de quem já tinha dado conta de um par de tequilhas, rendi-me à nostalgia e ingressei numa viagem no tempo à Meca dos finalistas universitários – Cancún.

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A viagem há-de ter sido idêntica à de tantos outros finalistas, mas, para além dos episódios previsíveis, ficou-me na memória a relutância em comprar um sombrero. Enquanto todos os colegas escolhiam o seu exemplar, entre várias cores e modelos, alguma coisa me dizia que importar sombreros não era a melhor ideia do mundo. Tinha muita graça no local, mas não conseguia vislumbrar qualquer utilidade para um chapéu daquelas dimensões, à chegada a Lisboa. Vieram-se a confirmar os meus piores temores logo à entrada do avião, quando cinquenta viajantes tentavam, em gestos épicos, arrumar cinquenta sombreros nas bagageiras.

Depois desta aventura fiz várias outras viagens e, sempre que me sentia a ceder à tentação consumista que nos invade em terras estranhas, lembrava-me do episódio dos sombreros e resistia estoicamente.

Até que uns anos mais tarde, em Banguecoque, dei de caras com um cozinheiro de madeira maciça com uns quarenta centímetros de altura, que resolvi que era imprescindível para decorar a cozinha da nossa casa nova. Não me ocorreu que depois da visita à capital, íamos em périplo para Puket, Ilhas Pi-Pi e Krabi. De maneira que, após o entusiasmo inicial, andei a rogar pragas ao malfadado cozinheiro que foi arrastado por terras tailandesas, entre ventos e intempéries, durante mais de duas semanas. Mas o pior é que ainda hoje, volta não volta, dou com o raio do boneco numa qualquer arrecadação, de onde nunca saiu porque era um mono tão grande que nunca coube numa bancada de cozinha.

Voltei assim aos bons hábitos de viajar com pouca bagagem e de, sobretudo, não me lançar em compras estapafúrdias. Isto, claro, até me ter lembrado de comprar um poncho peruano. Dos genuínos.

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A Fantasia dos Nossos Tempos Dá Cá Uma Trabalheira


tralhasdavida,

Quando eu era pequena era normal acreditar-se em quase tudo. Acreditavamos no Pai Natal e, em simultâneo, no Menino Jesus, acreditavamos no coelho da Páscoa, no homem do saco, no palhaço Batatinha, no lobo mau, na avózinha, nos glutões do Presto, em fadas e em duendes.

Como não havia cento e tal canais de televisão, muito menos internet, e não se falava ao telefone trezentas vezes ao dia, não havia hipótese de nos virem com caraminholas que trouxessem a angústia da dúvida ao nosso imaginário. Acreditavamos em tudo, piamente, e até muito tarde.

Nos dias que correm, torna-se cada vez mais difícil manter as tradições seculares no que toca a enganar a criançada.

Ora cá em casa, na senda dos ensinamentos do meu pai, o Ratón Pérez é a entidade oficial que toma conta da ocorrência cada vez que um dente de leite resolve dar o ar da sua graça.

No meu tempo a logística era simples: o dente caía, nós deixavamo-lo dentro de um copo de água na mesinha de cabeceira, e o rato lá vinha durante a noite para deixar uma lembrança.

Uma vez a minha irmã Luísa cometeu a heresia de apregoar aos quatro ventos que “isso do Ratón Pérez é uma grande treta” e teve o dissabor de, em vez da habitual lembrança, receber uma pesarosa carta em castelhano, remetida pelo próprio Ratón, a dizer que “si no creía en el, no la podria regalar”. É evidente que, em nossa casa, nunca mais ninguém se atreveu a duvidar da existência do bom e velho Pérez, pelo menos até à chegada da maioridade.

Já eu, que pertenço à geração de mães do novo milénio, vejo-me grega para prolongar o mito. Tive de me adaptar aos novos tempos e arranjar uma data de argumentos para tornar credível o facto de haver um rato se mete à estrada a partir de Espanha com um embrulho às costas.

No século XXI, como é sabido, qualquer actividade tem de ter um interesse económico, senão cheira logo a aldrabice. De maneira que o Ratón Pérez é evidentemente um coleccionador de dentes que só deixa um presente porque está interessado em aumentar o espólio. E é sabido que quando um dente se apresenta em mau estado não há qualquer hipótese de “regalo”.

Como o castelhano não é o forte cá de casa, optou-se por lhe dar uma origem galega, o que, em caso de missiva, fornece alibi perfeito para os portunhólicos pontapés na gramática da língua de Cervantes.

A água do copo tem de ser bebida quase até ao fim porque o pobre rato vem a alta velocidade desde Espanha e chega cá sedento. Por vezes, chego mesmo a ser obrigada a deixar um bocadito de queijo Emmental (que sou forçada a mordiscar lá pela uma da manhã) porque é natural que, à chegada, o amigo Ratón traga uma certa larica.

Isto tem-me dado uma trabalheira, sobretudo quando tenho de puxar pela memória para manter a coerência dos factos, mas o que é certo é que, até à data, nunca dei pelo menor resquício de dúvida face à existência do Ratón Pérez.

Já no Pai Natal ninguém acredita. Que isso de haver um velho gordo puxado num trenó voador por meia dúzia de renas está-se mesmo a ver que é fantasia.

Da Escrita


tralhasdavida,

“Escreve, rapariga, escreve” dizem-me com a mesma ternura com que mandavam a outra pequena comer chocolates.

É verdade que a escrita consola, tal como os chocolates. 

Uma vez li que o chocolate contém uma substância semelhante à que o nosso organismo segrega quando estamos enamorados. Talvez a escrita espolete a mesma convulsão orgânica de prazer.

Comer chocolates é mais fácil do que escrever. É uma acção passiva que se conjuga no infinitivo, no conforto de um sofá. Escrever implica uma cirurgia invasiva a todas as nossas artérias sem qualquer tipo de anestesia. É a arte de escavacar bocados de nós para os organizar em narrativas coerentes.

Dizem-me que os grandes autores só escreveram grandes obras depois dos quarenta. Eu estou para fazer quarenta e cinco e não quero escrever nenhuma obra-prima. Mas gostava de estar pronta para escrever a minha história sem ser assim, aos bocados. Quadrado a quadrado, como numa tablete de chocolate.

Trocas na Maternidade


tralhasdavida,

Acabo de desligar o botão do comando da televisão depois de uns lamechíssimos noventa minutos de cinema romântico hollywoodesco no seu melhor. Elas, tão giras que até apetecia pregar-lhes pares de estalos, eles, tão doces que só poderiam ser ficção. Pelo enredo fora, flores para cá e flores para lá, que era dia de São Valentim e a ocasião assim o exigia.

Lá pelo meio da fita, quando já me encontrava em ponto de rebuçado com as almas que se cruzam e se encontram e se beijam e se abraçam, dei comigo a pensar que não há miúda que não se derreta com um belo ramo de rosas a entrar-lhe pela porta.

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro com que fui obsequiada. Precisamente a 14 de Fevereiro, de há muitos, muitos anos. Acabei por me casar com o remetente, pelo que não cheguei a ter nova oportunidade de ver uma colega de escritório, em pulgas, a empoleirar-se no meu ombro para conseguir ler o cartão.

É verdade que, quando nasceu o meu primeiro filho, assisti a um excesso floricultor a invadir o quarto da maternidade. Tive até de tomar algumas providências quando o cenário de câmara ardente começou a competir com a criança na demanda de oxigénio. Mas, embora me tenha sentido grata pela atenção, não se repetiu o êxtase de receber, num arrobo de romantismo, um ramo de rosas apaixonadas.

Até que, três anos mais tarde e por ocasião do nascimento do filho número três, naquela fase em que já tinha tido tantos filhos em tão pouco tempo que ninguém fazia ideia de que tinha ido parar à maternidade e muito menos se lembraria de ligar à florista para me mandar o que quer que fosse, me entra pelo quarto um rapaz com uma de jarra túlipas amarelas.

Começo a ver o meu marido muito agitado a chamar o rapaz, a sair do quarto muito apressado, eu agarrada à jarra como gato a bofe a pensar que queria lá saber se eram umas túlipas desmaiadas, que aquelas eram minhas e eram as únicas que me restavam.

Só depois fui esclarecida de que tinha ocorrido um lamentável equívoco. A rapaziada das entregas tinha-se enganado e tinha deixado um ramo de rosas vermelho-luxuriante no consultório da dedicada obstetra (com cartão a condizer) e tinha-me entregue a mim as túlipas amarelas que lhe estavam destinadas.

No dia seguinte, pediram muitas desculpas e entregaram novos ramos no locais correctos, o que quer dizer que lá tive direito às minhas rosas-paixão. Mas o cartão, meu Deus, ainda hoje era capaz de matar para saber o que dizia.

Quando a Realidade se Cruza Com o Imaginário


tralhasdavida,

Quando tinha a idade da minha filha Rita passava longas temporadas em casa da minha avó paterna. A minha avó era modista, proprietária e mestra da “Casa da Costura”, um estabelecimento reconhecido pelo esmero e rigor em prazos e pespontos.

Eu andava por ali, entre aprendizas e costureiras, a forrar botões, a arrumar carrinhos de linhas e a escolher restos de tecidos para fazer mantas para as bonecas. 

Como era tagarela, gostava de me sentar num banco baixinho e meter-me em conversas muito compridas com as costureiras. Havia a Gigi, um amor de senhora que, por ter tido um problema qualquer na juventude, tinha ficado com um olho de vidro. E a Cristina, que me fazia ovos estrelados sem a ranhoca da clara por cima.

Naquela altura a minha mãe já tinha percebido que passear por um palco a fazer macacadas não era coisa que desse de comer a cinco filhos, de maneira que passava semanas fora a dar e receber formação para se reinventar noutra coisa qualquer.

Escrevia-me cartas e postais dos quatro cantos de Portugal e eu pedia à Gigi e à Cristina para as lerem muitas vezes e elas enganavam-se de propósito porque já sabiam que eu dava logo por isso. Riam-se muito quando as emendava e eu amuava.

A minha conversa preferida era sobre o Parque Eduardo VII. Passava tardes inteiras a pedir-lhes que me contassem como era. Onde ficava o lago dos patos, onde era melhor pousar uma toalha para um piquenique, qual a árvore que fazia a maior sombra ou como era o café onde se podiam comer Super-Maxis.

Para mim, o Parque Eduardo VII era um cenário mítico que não existia senão na minha imaginação. Uma espécie de jardim babilónico que idolatrava porque podia ser tudo aquilo que eu quisesse.

Um dia resolveram pedir licença a mestra Dorotheia para me levar lá. Fizeram-se grandes preparativos, muito zumzum à volta do grande dia, que roupa ia vestir, que eléctrico havíamos de apanhar, que gelado me iam oferecer, a que horas era a partida, eu sei lá.

No momento em que me vestiram o casaco de fazenda para sair porta fora, fui invadida por um pavor inexplicável e desatei num pranto tão aflitivo que se desistiu da epopeia. Era como se me estivessem a propôr a visita à caverna de um ogre.

Só hoje, e passados tantos anos, consigo perceber o fenómeno. É que quando nos atrevemos a cruzar as fronteiras do real com o imaginário, causamos danos irreparáveis.

E a mim, deram-me cabo do Parque Eduardo VII.

Exemplos de Vida


tralhasdavida,

Hoje a minha sobrinha Matilde foi ao programa do Medina Carreira prestar o seu testemunho enquanto voluntária num campo de refugiados na Grécia. Desde que chegou que tem tido vários convites e eu sigo sempre tudo, muito atenta, de olhos colados ao ecrã. Porque tenho um imenso orgulho na forma como estabeleceu prioridades na sua vida, mas também porque tenho um raio de um defeito de profissão que me faz analisar a pertinência das perguntas e o peso de cada palavra no resultado da comunicação.

Gosto da forma como ela resiste em cair em histórias sensacionalistas, mesmo quando há insistência da parte do entrevistador. E gosto da forma como se ri e oferece uma resposta curta quando quer escapar a um tema sobre o qual prefere não falar.

Gosto desta ética. Da forma como não assume que os episódios hediondos que lhe passarem pela frente são sua propriedade. Que o sofrimento extremo de terceiros, mais do que uma boa história para contar, é matéria para respeitar.

No outro dia perguntavam-lhe em tom afirmativo se após esta experiência se tinha tornado uma pessoa diferente. É preciso não conhecer a Matilde para não perceber que ter estado num campo de refugiados, em situações limite, é apenas mais um degrau no caminho de vida que tem construído na ajuda ao próximo.

Não acontece a uma miúda qualquer acordar um dia e debandar para um campo de refugiados. Há um percurso que já se fez, há uma cabeça que já estabeleceu prioridades, há um coração que cresceu até ficar maduro.

Só está preparado para uma missão destas quem já lidou de perto com a morte, com cenários de pobreza extrema e com pessoas em registo de sobrevivência. Só sabe fazer isto quem desenvolveu o instinto de agir antes de olhar a juízos de valor. Quem aprendeu a ler o sofrimento alheio e a perceber que ferramentas tem para o poder minimizar.

E quem conhece a Matilde sabe que ela já tinha aprendido tudo isto antes de embarcar para a Grécia. É por isso que a experiência, ainda que brutal, não representa mais do que um dos muitos degraus que tem vindo a escalar.

É por isso que ouvi-la falar é comoventemente inspirador.

 

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Mistérios da Memória


tralhasdavida,

Já tenho escrito várias vezes sobre as famosas distracções da minha mãe, que vão desde não se lembrar que determinado amigo já morreu há uma data de anos, a ter perdido o telemóvel dentro do peru, no meio de uma azáfama natalícia.

Tendo cinco filhos, é também vulgar trocar-nos os nomes, chamar frigorífico ao forno e abanar o copo de água em vez do frasco de ben-u-ron quando está prestes a medicar um neto.

No entanto, é vulgar chegarmos lá a casa e darmos com ela a encaixar num trecho de texto qualquer coisa que lhe dizemos (supondo que alguém elogia as flores do jardim, sai-lhe imediatamente uma canção de antigamente do tipo “Floooores do meu Jaaardim, tão belas como sóis…” ou qualquer coisa parecida).

É uma habilidade que, por ter sido actriz de teatro, lhe sai naturalmente, mas que ao fim de meia dúzia de frases trocadas, inviabiliza qualquer conversa.

De maneira que nós, os cinco filhos, embora achando graça a esta idiossincrasia, já lhe suplicámos várias vezes que tenha dó e que deixe a conversa fluir sem tanta declamação e cantoria.

No entanto, há um dia do ano em que deixamos a minha mãe declamar tudo o que ela quiser: a 14 de Março, por ser o seu aniversário.

É assim que, diante de netos estupefactos, a minha mãe dá um abanão às sinapses, abre a boca e dali desatam a jorrar páginas e páginas de texto, sempre acompanhadas de gestos grandiosos e eloquentes.

No fim, já depois de um remate estrondoso e das palmas merecidas, inevitavelmente lança uma gargalhada e confessa que não faz a mínima ideia de onde aquilo lhe vem.

Distracções


tralhasdavida,

As distracções da minha mãe atingiram uma dimensão épica na semana passada quando lhe falei de um velho amigo que morreu vai para mais de quinze anos.

“Fulano de tal morreu? Não me digas. Fico tão triste.” Espantada, assegurei-lhe de que tinha a certeza de que ela tinha estado a par do seu padecimento na devida altura e que já então tinha ficado desolada. “O que é que queres? Não me lembrava”, respondeu com um encolher de ombros resignado.

O que me preocupa é que, se bem a conheço, é bem capaz de voltar a sofrer do mesmo desgosto daqui a um par de anos, se alguém voltar a mencionar o assunto.