Sou um guichet. Olham para mim e fazem-me pedidos, perguntas, requisições, exigências. E queixam-se. Que não cumpri os meus deveres a horas, ou com a competência necessária.
Estou sempre em falta. Agora, por exemplo, devia estar a cortar as unhas dos pés a um rapaz de catorze anos, como se isso fosse razoável.
Repito dia após dia tarefas invisíveis.
Uma vez li uma história de um senhor de idade a quem perguntaram o que tinha feito na vida e ele, por mais que puxasse pela memória, só se lembrava de passar os dias a pagar contas da electricidade. Sinto-me como este senhor. Atafulhada pela burocracia, afogada na logística, enterrada num buraco de obrigações que não valem nada, mas que alguém tem de cumprir.
Esta semana, ao final do dia, esqueci-me de ir buscar uma filha. Para piorar a situação, era a que tem cromossomas a mais. Quando lhe perguntaram se sabia o telefone do pai e da mãe, apressou-se a verbalizar as devidas sequências numéricas. Só por causa disto merecia que me tivessem levado para a prisão.
O problema das tarefas invisíveis é este. Se não as cumprimos, ficamos nus em praça pública. Somos uns incompetentes, pessoas pouco dignas de confiança.
Amanhã vou experimentar fechar o guichet por umas horas. Só para ver o que acontece.
Talvez o mundo não venha abaixo.

Não imagino nada de mais saudável do que esse esquecimento de uma filha “com cromossomas a mais” como se fosse qualquer um dos outros filhos. Isso é bom, Francisca, significa que fizeste um bom trabalho com ela (ou não saberia os nºs de telefone na ponta da língua) e contigo própria, porque não a esmagaste com uma superprotecção que só a faria sentir-se diferente dos irmãos. Mas tu sabes isto tudo, claro. Fecha lá o guichet e diverte-te de vez em quando à vontade, e diz ao matulão de 14 anos que se tem idade para namorar também tem para cortar as unhas sozinho. 😉
Um pequeno mas belo texto. Alguém disse há uns tempos, talvez numa entrevista, não sei ao certo, nem se foi rigorosamente assim como o vou expressar, mas ficou-me na memória, “o que quer que façamos com os nossos filhos e qualquer que seja a forma como o fazemos, ou as decisões que tomamos, deixa-nos sempre no final com uma sensação desagradável de que somos uns pais de merda”. E o pior é que esta é a nossa sina, a de ser pais até morrer e de sofrer irremediavelmente por eles.
Não sei se interpreto bem o texto.
Mas entendo-o como uma observação acerca da inversão de valores que se vive nas atuais sociedades ditas civilizadas.
Alguém nos convenceu de que temos de ser gente de sucesso.
Sucesso a todo o custo.
Sucesso entendido como ter tudo.
Sucesso que literalmente nos escraviza.
Mas, com o qual, a malta se julga muito importante!
Sinais dos tempos!…
João de Brito
Ó João, o seu comentário tem alguma verdade, mas de tão esfalfada que estou, dir-lhe-ia que é só uma lamento de uma mãe.
Não preciso de ter tudo, nem de sucesso a todo o custo, muito menos pretendo ser importante.
Quero só alguma tranquilidade.
Numa entrevista a Golda Meier e que está incluida numa das biografias publicada, a que foi Primeira Ministra de Israel aos 70 anos, depois de uma vida inteira dedicada à atribulada e muito exigente política no seu País,perguntaram-lhe o que é que nunca tinha conseguido resolver na sua vida e ela respondeu que era o sentimento de culpa, quando estava no Gabinete tinha remorsos por não estar a dar atenção aos filhos, quando estava em casa amargurava-se porque estava a faltar aos seus deveres para com o país. E concluía que essa era uma angústia que nunca tinha conseguido superar.
Boa sorte, Francisca Prieto, a única solução é continuarmos a tentar!
Eu passei anos sentada no passeio em frente do liceu à espera que o meu pai acabasse o róber (ou lá o que é) do bridge para me vir buscar (não tenho cromossomas a mais mas músculos a menos).
Uma vez fomos levar alguém ao aeroporto e esquecemo-nos lá dum irmão. Ele não tinha dinheiro suficiente para o autocarro, ainda viu a família dum colega mas teve vergonha de lhes pedir dinheiro e foi a pé para casa. Vários quilómetros de caniço e cidade de betão depois, quando chegou a casa, estávamos todos sentados a jantar e ninguém tinha dado pela falta dele.
Outra vez um dos meus irmãos (9 anos?) devia ir com o de 6 para casa mas resolveu ir brincar para outro lado e explicou-lhe que tinha de ir sempre em frente e virar nos SMAE (Serviços Municipalizados de Água e Electricidade) para a nossa rua. O outro ainda não sabia ler lá muito bem e por isso continuou em frente até ao fim da avenida mais comprida da cidade. Horas depois, quando deram pela falta dele, o meu pai foi procurá-lo de carro e encontrou-o sentado na borda do passeio: “Perdido!”, foi tudo o que disse.
Outra vez um caiu do carro abaixo numa curva, para grande aflição do que estava ao lado. O nosso carro era uma furgonete que levava muitas crianças e, como estava calor, iam de portas abertas.
Os meus pais foram excelentes, excelentes pais.
A Francisca faça o favor de não ficar triste. Olhe, para compensá-la de tantos transtornos, como sou um rapaz com mais de 14 anos, levo-lhe aí os meus pézes para cortar as unhas.
Sim, não é razoável cortar as unhas a um rapaz de 14 anos.