Mistérios da Memória


tralhasdavida,

Já tenho escrito várias vezes sobre as famosas distracções da minha mãe, que vão desde não se lembrar que determinado amigo já morreu há uma data de anos, a ter perdido o telemóvel dentro do peru, no meio de uma azáfama natalícia.

Tendo cinco filhos, é também vulgar trocar-nos os nomes, chamar frigorífico ao forno e abanar o copo de água em vez do frasco de ben-u-ron quando está prestes a medicar um neto.

No entanto, é vulgar chegarmos lá a casa e darmos com ela a encaixar num trecho de texto qualquer coisa que lhe dizemos (supondo que alguém elogia as flores do jardim, sai-lhe imediatamente uma canção de antigamente do tipo “Floooores do meu Jaaardim, tão belas como sóis…” ou qualquer coisa parecida).

É uma habilidade que, por ter sido actriz de teatro, lhe sai naturalmente, mas que ao fim de meia dúzia de frases trocadas, inviabiliza qualquer conversa.

De maneira que nós, os cinco filhos, embora achando graça a esta idiossincrasia, já lhe suplicámos várias vezes que tenha dó e que deixe a conversa fluir sem tanta declamação e cantoria.

No entanto, há um dia do ano em que deixamos a minha mãe declamar tudo o que ela quiser: a 14 de Março, por ser o seu aniversário.

É assim que, diante de netos estupefactos, a minha mãe dá um abanão às sinapses, abre a boca e dali desatam a jorrar páginas e páginas de texto, sempre acompanhadas de gestos grandiosos e eloquentes.

No fim, já depois de um remate estrondoso e das palmas merecidas, inevitavelmente lança uma gargalhada e confessa que não faz a mínima ideia de onde aquilo lhe vem.

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