Trocas na Maternidade


tralhasdavida,

Acabo de desligar o botão do comando da televisão depois de uns lamechíssimos noventa minutos de cinema romântico hollywoodesco no seu melhor. Elas, tão giras que até apetecia pregar-lhes pares de estalos, eles, tão doces que só poderiam ser ficção. Pelo enredo fora, flores para cá e flores para lá, que era dia de São Valentim e a ocasião assim o exigia.

Lá pelo meio da fita, quando já me encontrava em ponto de rebuçado com as almas que se cruzam e se encontram e se beijam e se abraçam, dei comigo a pensar que não há miúda que não se derreta com um belo ramo de rosas a entrar-lhe pela porta.

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro com que fui obsequiada. Precisamente a 14 de Fevereiro, de há muitos, muitos anos. Acabei por me casar com o remetente, pelo que não cheguei a ter nova oportunidade de ver uma colega de escritório, em pulgas, a empoleirar-se no meu ombro para conseguir ler o cartão.

É verdade que, quando nasceu o meu primeiro filho, assisti a um excesso floricultor a invadir o quarto da maternidade. Tive até de tomar algumas providências quando o cenário de câmara ardente começou a competir com a criança na demanda de oxigénio. Mas, embora me tenha sentido grata pela atenção, não se repetiu o êxtase de receber, num arrobo de romantismo, um ramo de rosas apaixonadas.

Até que, três anos mais tarde e por ocasião do nascimento do filho número três, naquela fase em que já tinha tido tantos filhos em tão pouco tempo que ninguém fazia ideia de que tinha ido parar à maternidade e muito menos se lembraria de ligar à florista para me mandar o que quer que fosse, me entra pelo quarto um rapaz com uma de jarra túlipas amarelas.

Começo a ver o meu marido muito agitado a chamar o rapaz, a sair do quarto muito apressado, eu agarrada à jarra como gato a bofe a pensar que queria lá saber se eram umas túlipas desmaiadas, que aquelas eram minhas e eram as únicas que me restavam.

Só depois fui esclarecida de que tinha ocorrido um lamentável equívoco. A rapaziada das entregas tinha-se enganado e tinha deixado um ramo de rosas vermelho-luxuriante no consultório da dedicada obstetra (com cartão a condizer) e tinha-me entregue a mim as túlipas amarelas que lhe estavam destinadas.

No dia seguinte, pediram muitas desculpas e entregaram novos ramos no locais correctos, o que quer dizer que lá tive direito às minhas rosas-paixão. Mas o cartão, meu Deus, ainda hoje era capaz de matar para saber o que dizia.