Distracções


tralhasdavida,

As distracções da minha mãe atingiram uma dimensão épica na semana passada quando lhe falei de um velho amigo que morreu vai para mais de quinze anos.

“Fulano de tal morreu? Não me digas. Fico tão triste.” Espantada, assegurei-lhe de que tinha a certeza de que ela tinha estado a par do seu padecimento na devida altura e que já então tinha ficado desolada. “O que é que queres? Não me lembrava”, respondeu com um encolher de ombros resignado.

O que me preocupa é que, se bem a conheço, é bem capaz de voltar a sofrer do mesmo desgosto daqui a um par de anos, se alguém voltar a mencionar o assunto.

0 comentários em “Distracções”

  1. É a sina das pessoas com uma grande longevidade irem perdendo os seus amigos e a certa altura, já se foram tantos, que não se consegue ter uma lista actualizada na cabeça. Fazer uma cábula para ver de vez em quando talvez minore o problema, ao preço de relembrar as mortes…

      1. Olá Helena,
        Isto ainda acabou por ser motivo de risota lá em casa. As distracções da minha mãe são históricas, nada têm a ver com a idade ou com a perda de memória.
        É consequência de ter tido 5 filhos, 9 irmãos e de estar sempre a fazer uma data de coisa ao mesmo tempo.
        Felizmente, sentido de humor é o que não lhe falta. Como a ti, aliás.
        Beijo grande

    1. Caro Anónimo,
      Não me julgue mal. A minha mãe só não tem capacidade para ler este post porque não percebe nada de computadores, muito menos de internet, redes sociais, blogues e afins.
      A minha mãe está longe de estar demente, está mesmo muito lúcida e leva a sua vida de forma normalíssima.
      Se assim não fosse, este texto nunca seria publicado. Seria uma falta de respeito.
      O que talvez não se perceba aqui (e mea culpa) é que em nossa casa existe um sentido de humor refinadíssimo, que foi sendo cultivado ao longo dos anos. Às vezes humor negro, mas ainda assim humor.
      Ora a minha mãe é distraidíssima e isso nada tem a ver com a idade. Já o era quando tinha trinta ou quarenta ou cinquenta anos. E é o tipo de pessoa que é capaz de rir de si própria e das suas idiossincrasias.
      Quando ocorreu este episódio que relato no post, não obstante ter ficado surpreendida, não deixou de dar uma gargalhada quando lhe fiz ver que a morte do amigo já tinha ocorrido há uma série de anos e que ela estava perfeitamente a par do sucedido.
      Ou seja, ao escrever este texto, não estou a gozar com a velhice ou com a incapacidade da minha mãe. Estou a brincar com a sua vitalícia distracção, o que é uma coisa bem diferente.

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