Todos temos a banda sonora da nossa vida. Há aquela música que estava a tocar no minuto piroso em que alguém nos pediu namoro em 1985, ou aqueloutra que andava no leitor do carro durante um Verão de loucura em que só fizemos asneiras, ou até a que abriu a pista no dia do nosso casamento. São as músicas que, quase sem nos apercebermos, sabemos de cor de uma ponta à outra e que têm o dom de nos transportar no tempo. Coleccionamo-las ao longo dos anos, à medida que se pegam por osmose aos bocados de vida e, sempre que tocam numa rádio nostalgia, fazem com que desatemos a berrar o refrão.
De igual forma, colecciono bocadinhos de concertos a que assisti e que me fazem lançar uma gargalhada sempre que voltam à memória.
Aqui há uns anos, no Cool Jazz Fest, Solomon Burke partilhava o palco com Joss Stone. Ele, já nos últimos tempos de vida, tão gordo e doente que entrou e saiu do palco envolto numa nuvem de fumos para que não se percebesse que não conseguia andar. Cantou tudo o que tinha para cantar no seu vozeirão inconfundível, mas sempre enfiado numa gigantesca poltrona, com manto de rei.
Ela, uma flor, de voz melosa, esvoaçando em vestido de verão de volta da poltrona. Às tantas, a meio de um conhecido êxito de Burke, assisto ao rei a fazer olhinhos a Joss Stone enquanto cantava em tom implorativo “please don’t give up on me, oh pleaaaaaaaaase don’t give up on me”.
No Sábado passado, tive o privilégio de assistir a outro momento de ouro nesta vida de plateia. Como fã do Seu Jorge que sou, não falhei o concerto no Meo Arena. Ia ficando surda, mas valeu a pena. Marisa Monte era artista convidada. Ora eu gosto tanto do Seu Jorge como gosto da Marisa Monte, de maneira que não havia como levar uma banhada.
E foi assim que depois de grandes êxitos como “Ela é bipolar” ou “Mina Feia”, tocados com toda a euforia pela banda, aparece a Marisa Monte a cantar em dueto com o grande Jorge Mário, canções dos seu próprio repertório. E tudo foi em crescendo, culminando nos dois artistas, costas com costas, a gemerem que “de noite na cama, de noite na caaaaaama, eu fico pensando se você me ama e quanto”. Como se não bastasse, e eu não tivesse já ganho a noite, mais à frente dei com os dois numa deliciosa declaração de “amor I love you, amor I love you”.
É bom demais para se varrer da memória.


“[E ,Luísa]…tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”
(“Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela… Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranquilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho; achou a pele mais clara, mais fresca, e um enternecimento húmido no olhar – seria verdade então o que dizia Leopoldina, que não havia como uma maldadezinha para fazer a gente bonita? Tinha um amante, ela!”)
Eça nunca se varre da memória. Mesmo que tudo acabe mal.
Costa
Prosa gostosa…
Que grande texto, Francisca. Dá vontade de iniciar uma série colectiva, aqui no blogue, sobre os refrões das nossas vidas…
É que dá mesmo. Vou pensar nisso.
Lança a ideia. Eu alinho, claro.