Não se pode ter tudo


Patrícia Reis,

O tempo não estica. O tempo parece cada vez mais curto. O tempo é o mesmo mas gastamos cada vez mais em frente a um ecrã. Precisamos de sair da internet. Para ter vida e nessa vida ter também tempo para ler.

 

“O mercado está um desastre e é o mercado mundial”, quem o diz é um agente literário norte-americano. Portanto, o drama não é nacional. Ok. Não se consegue tirar qualquer consolo desta realidade.

“Não sei onde vamos parar”, suspirou-me uma editora da nossa praça. O que se passa? Os livros não vendem. Nenhum autor que tenha recebido direitos de autor este ano conseguirá sorrir.

Há excepções? Sim, é verdade, já se sabe que sim. Mas as excepções são isso mesmo, excepções. Capas com letras a dourado e indicação de best-seller do jornal estrangeiro A ou B já não surtem o mesmo efeito. É difícil vender livros, é difícil pensar carinhosamente na ideia de que um dia, quem sabe?, conseguiremos viver desse ofício solitário que é a escrita.

O mundo de hoje faz-se em frente ao ecrã, do smartphone, do computador ou tablet, e pouco mais importa. As redes sociais roubaram-nos o tempo para fazer muitas coisas, entre eles ter capacidade para sair para a rua e entrar numa livraria. Roubaram-nos concentração e os miúdos de hoje estudam com televisão, computador, consola, telemóvel. É a realidade deles. Talvez por isso alguns torçam o nariz quando têm de ler Camões ou, esforço suplementar!, Agustina Bessa-Luís.

Sem livros não há pensamento e sem pensamento não há civilização. Parece uma lapalissada banalzinha sem qualquer importância, mas não é. Não podemos achar normal que para entender “Os Maias” os miúdos do secundário se auxiliem somente de um livro de resumo da obra. Não podemos estar permanentemente ligados nas redes como se não existisse mais nada.

Neste país de escritores e poetas – e de enorme qualidade – vivemos um momento terrível: há mais escritores do que leitores. Pela parte que me toca, vou sair da internet e comprar um livro. Pergunte-se: há quanto tempo não faço o mesmo? Pois.

Até podia dizer que a feira do livro de Lisboa inaugura no dia 1 de Junho, contudo sei que é indiferente. No ano passado, em plena feira, uma criança pedia um livro, a choramingar, e o pai respondeu: “Nós viemos comer gelados. Não se pode ter tudo.” É isto. Não se pode ter tudo.

o que o desemprego mata em nós


Patrícia Reis,
Se a vida te dá limões, faz limonada. Pode parecer uma banalidade, mas serviu para dizer a uma amiga que tinha de andar para a frente. Acrescentei que o açúcar é o amor que tem à sua volta. Porque tem amor na sua vida e tomou sempre decisões em prol da família.

 

A minha amiga não tem 20 anos, está quase nos 40. É uma mulher inteligente, com curso, pós-graduações e outras valências. Saiu de Lisboa com a filha às costas por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade. Levou algum tempo a perceber isto, e foi à força de múltiplas desilusões antecedidas por cartas, envios de curriculum, entrevistas várias.

A empresa onde esteve faliu, fechou portas, deu-lhe os papéis para o fundo de desemprego, mas a minha amiga teimou que continuaria à procura de trabalho. Finalmente, como diz, caiu na real.

Sair de Lisboa podia ser melhor, tinha algum dinheiro de lado, a vida é mais barata, quem sabe se a sorte não lhe sorria lá para os lados da serra? Não sorriu.

A minha amiga conseguiu esta semana um emprego (ao fim de uns anos a bater às portas, a inventar). Vai passar recibo todos os meses, é um trabalho precário, sem regalias. Ela está contente por ter conseguido um trabalho. Vai receber 530 euros, mais coisa, menos coisa.

Ela está triste com o estado das coisas e com a sua vida. Acha que talvez não mereça mais, que talvez não seja competente em nada apesar de ter um curriculum que indica o contrário.

O desemprego mata a auto estima. A minha amiga, como tantos outros, merecia mais e melhor. Está farta de beber limonada.

Quase que chorou


Patrícia Reis,

A minha avó ligou ao meu filho para saber coisas sobre o real e o atlético, não percebi nada da conversa. Depois ele mandou beijos, despediram-se e continuou a falar do Salvador Sobral e eu pensei: há meses e meses que temos o disco, tem de o ouvir. E ele disse: “Quando o vi hoje quase que chorei, é o novo Éder”. Não preciso de sugerir que vá ouvir o disco, parece-me.

Ser mãe é ter vários corações que não se controlam


Patrícia Reis,
 

Ser mãe é ter vários corações que não se controlam. Cuidamos, perdemos o sono, sentimos uma alegria imensa, morremos de aflição. Em pequenos tentamos perceber quem são, mas é muito cedo que os filhos nos conhecem como conhecem a palma da mão, porque os adultos são previsíveis, repetem-se muito e esta fatalidade é letal quando se chega à adolescência.

Já o escrevi muitas vezes, a adolescência é a fase mais triste da vida de uma mãe. Há uma guerrilha permanente, a comunicação falha – falar com um adolescente é o mesmo que dar banho a um peixe -, alguém encolhe os ombros, revira os olhos, o espelho de quem fomos na nossa adolescência.

E uma mãe tem e não tem memória do que foi. Diz “no meu tempo” quando é favorável, mas tende a esquecer-se do que fez, do que disse, quem foi na adolescência.

A guerrilha dura uma época e, de repente, parece quase esfumar-se.

Muitas vezes, a reaproximação faz-se mais tarde e surgem os sentimentos justos de frustração: o meu filho já não quer saber de mim. Ora, os filhos têm de ir à sua vida, como as mães antes de serem mães também optaram por fazer. É a vida que o exige, são os tempos, é o mais saudável.

A família funciona para muitos como um fantasma permanente e nem sempre simpático. A mãe tem de se despedir da função de ser mãe a tempo inteiro (sim, até uma mãe a trabalhar permanece mãe todos os minutos do dia). Não se desliga dos filhos anos e anos a fio e, de repente, parece que é obrigatório o dar espaço, o gerir do silêncio.

Quem faz dos filhos o seu projecto de vida atravessa então um momento de redefinição que nem sempre é feliz. Quem sou eu depois de ser mãe? Não é que exista uma total perda de identidade, mas corremos o risco de nos perder nos mil e um afazeres da educação e do amor.

Custa perceber que os filhos já não precisam tanto de nós; dói quando há informação que não partilharam connosco, quem sabe se emoções, os momentos menos felizes.

Nunca se deixa de ser mãe e, fatalmente numa sociedade marcada pela palavra tremenda que é a “culpa”, nunca deixamos de pensar no que falhámos, como falhámos.

Depois a montanha russa da vida dá um piparote e os filhos regressam com aflições sobre os próprios filhos, deixam-se estar mais tempo, fazem confidências, precisam de colo. E há outra mudança na relação, volta-se a um estado de compreensão e a partilha faz-se de uma outra maneira.

Ser mãe é um estado feliz, é um estado de alerta, é querer que os filhos nos superem, sejam mais e melhores do que somos. Quando se consegue vislumbrar o sucesso dos filhos no seu comportamento, na sua vida, temos de sorrir.

São sempre os nossos meninos, o nosso coração fora do corpo.

Crónicas


Patrícia Reis,

Olhar para Portugal e manter esse tesouro “inicial inteiro e limpo” por ser urgente ainda agora a Liberdade, uma outra forma de Liberdade ou várias liberdades. Como se a luta pelo melhor fosse infinita e, por isso, o que foi ontem ainda é hoje e podemos construir sempre mais e melhor.

Foi ontem a madrugada pela qual tantos esperaram. Foi ontem que as conversas em sussurro vieram para a rua em clamor, sem receios ou olhares de soslaio.

Foi ontem que capitães juntaram os homens para mudar o estado das coisas.

Foi ontem que Paulo de Carvalho cantou E Depois do Adeus de José Niza e José Calvário.

Foi ontem que as mulheres passaram a conseguir sair do país sem precisar de autorização do pai ou do marido.

Foi ontem que o poema de Sophia tatuou para sempre o que todos sentiam.

 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio 

E livres habitamos a substância do tempo (*)

 

Foi ontem que a senhora dos cravos nos deu esse símbolo, mesmo que a história tenha várias versões.

Foi ontem que os estabelecimentos prisionais se abriram para deixar livre quem nunca deveria ter sido preso.

Foi ontem que se cantou Liberdade com a convicção de que o futuro seria melhor, seria nosso.

Foi ontem e foi agora mesmo, porque importa recordar o 25 de Abril, o que nos uniu, a razão para a luta.

*Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘O Nome das Coisas’

campos de concentração para homossexuais ou o mundo pelo senhor Kadyrov


Patrícia Reis,

O mundo é um lugar perigoso, já se sabe. Todos os dias temos notícias sobre como o Mal nos assola. O que se passa na Tchetchénia é, no limite, um atentado a todos os valores humanistas que aprendemos a conhecer e, ao mesmo tempo, exemplar de como não evoluímos como espécie.

 

 

Somos capazes do pior, sobretudo quando cultivamos a ignorância, quando acreditamos que a nossa forma de estar e a nossa opinião prevalece e deve prevalecer. Existem campos de concentração para homossexuais na Tchetchénia. Quando escrevo campos de concentração agradeço que se entenda na dimensão terrível que atribuímos ao Holocausto. Não é melhor.

É triste e desumano que a sexualidade seja discriminada, seja questionada e, quando fora de um padrão que alguém definiu como certo (só esta ideia é já um chuto na tola), passível de levar à tortura.

O senhor Putin é homofóbico? Não tenho a menor dúvida e, para não ficar sozinho, foi buscar o senhor Ramzan Kadyrov para manter a Tchechénia na ordem. Trata-se de mais um regime e, como em todos os regimes, o tal padrão normalizador é, no limite, espelho de quem governa.

Sunita, muçulmano, ex-separatista, dono de um exército privado, o senhor Kadyrov faz o que quer e como quer há já uns anos. O poder é seu desde 2007. A perseguição a homossexuais não é de hoje, mas agora chegam testemunhos e relatos perturbadores que indicam que a homofobia chegou a um extremo. Se é gay, é para abater, ou torturar até que denuncie quem é igualmente gay.

Sim, em pleno século XXI, com tudo o que deveríamos saber, há um lugar no planeta Terra em que os homossexuais têm de ter medo, têm de se casar e ter filhos para esconder a sua verdadeira sexualidade. Um sítio onde as famílias são instigadas a denunciar quem possa ser gay ou – muito melhor – tratar do assunto, que é como quem diz, executar filhos, primos, tios, sobrinhos ou outros que possam ser homossexuais ou suspeitos de tal.

A Amnistia Internacional criou uma petição, o mesmo fez a organização Avaaz. Lemos nos jornais – no The Guardian têm-se escrito vários artigos sobre esse terror – e comentamos nas redes sociais. Não chega. Contra o Mal não chega.

velocidade furiosa 8 (sem Marcelo e afins)


Patrícia Reis,

Fomos ao cinema, eram seis da tarde e fomos por ser um compromisso assumido, bilhetes comprados na véspera. Nada de pipocas para não perder a fome para o jantar (argumento do meu filho, eu comprei logo um gelado e uma garrafa de água). Sou uma devota dos filmes de mocinho, filmes de bang bang, filmes com espada e capa, filmes de pancada, com explosões e afins. Depois de sete filmes liderados pelo nunca demais elogiado Vin Diesel (Dom para os amigos), eis que estamos no pináculo da perfeição: carros na neve a deslizar perseguidos por um submarino enquanto no avião um mata todos e ainda leva uma criança sorridente na tal cadeira ovo do costume. Diz-me o meu filho: “A mensagem é sempre a mesma, não se brinca com a família, nada é mais importante.” E fico a pensar naquilo e em como conseguiram montar a perseguição pelas ruas de Nova Iorque com carros sem motorista e carros a voar de prédios. Aguardo com impaciência o capítulo 9, o regresso de Cipher, a criança a crescer e, por favor, mais um pouco da maravilhosa Helen Mirren, sim? Muito agradecida.

Aterrar no Cristiano Ronaldo


Patrícia Reis,

Levantaram-se vozes sobre o nome do aeroporto do Funchal, a legitimidade, a pertinência, etc, etc, etc. Depois, na cerimónia transmitida pelos diferentes media, o assunto mudou: tem mais graça maldizer o busto onde o desgraçado do Cristiano Ronaldo parece tudo menos ele.

 

 

Deduzo que tenha visto o busto antes da cerimónia, deduzo que tenha gostado caso contrário tem poder para dizer: oiçam, está tudo bem, mas esta cara não é a minha. Para isso teria toda a legitimidade. Digo eu.

Oiço dois adolescentes, em conversa de fim de tarde, a discutir o assunto e um diz com convicção: “O CR7 é o português mais importante do século XXI.”

O mais importante não será, fico eu a pensar para os meus botões, ou talvez seja (que sei eu?), mas o certo é que se tornou um símbolo, um embaixador português pelo mundo. A carreira de CR7 não irá durar muito mais – o drama do corpo como grande traidor -, contudo há ainda muito que pode fazer e, garantem-me, já o faz.

O quê? Apoia instituições, apoia pessoas em concreto, dá o exemplo, não se refugia na celebridade para evitar beijar uma criança.

Que a terra onde nasceu o queira celebrar em vida é algo que não me choca nada. Para uma terra que vive do turismo, faz sentido que quem chega receba as boas vindas de uma personalidade incontornável a nível planetário.

Porquê um aeroporto? Podia ser outra coisa qualquer, já se sabe. Para mim, dá-me igual. Confusão fez-me quando decidiram chamar ao aeroporto de Pedras Rubras no Porto o aeroporto Francisco Sá Carneiro. Considerando as circunstâncias da sua morte, acho uma graça de mau gosto.

Aterrar no Cristiano Ronaldo parece-me idílico, em comparação. E gosto de saber que alguém se rala em celebrar os que conseguem atingir patamares de excelência enquanto estão vivinhos da silva.

Somos um país que gosta de adorar alguém depois de morto. Pouco mais. Diria que CR7 merece melhor e merece em vida.

blogue da semana


Patrícia Reis,

Às vezes o que parece não é. A primeira vez que ouvi falar da oficina poeiras não associei à apresentadora de televisão Leonor Poeiras. Confesso até que me surpreendeu. Se fosse um blogue de dietas ou de roupa teria sido diferente? Admito que sim. O facto é que www.oficinapoeiras.com é um blogue para coisas faça você mesmo e ainda com um pezinho na natureza (ver Horta). Mais nova de cinco irmãos, Leonor Poeiras habitou-se a transformar peças – nomeadamente de roupa – para as tornar suas, para lhes conferir outra vida, outra identidade. A mesma lógica forçou-se ao mundo dos objectos e, desde criança, Leonor nunca mais deixou de reciclar à sua maneira. O blogue mostra soluções, prima pela criatividade e pelo bom aspecto, é uma viagem que faço regularmente, até para pensar em coisas distintas. Tive algum receio de o referir aqui no delito, mas depois pensei que todos temos coisas a mais, que todos precisamos de reformular o que nos rodeia, portanto aqui vos deixo um blogue que não tem nada de politica, nada de literatura, mas tem tudo sobre a vida.

A Construção do Vazio


Patrícia Reis,

Enquanto tu dormes, eu posso ouvir-te com mais precisão. Tem que ver com a tua respiração. O peito, que se enche devagar. Há um sorriso no canto da boca enquanto os sonhos passam na cortina dos teus olhos. Não sei nada de ti, nestes momentos. O que oiço do teu corpo é apenas uma música em surdina, como o restolhar dos pássaros ao fim do dia, escondidos na confusão das folhas. Tu suspiras, o braço pendente na cama branca. Sinto-me próxima da oração, meu Deus, o teu corpo perdido e eu sem salvação.

Ruy Belo


Patrícia Reis,

 Algumas proposições com pássaros e árvores

 

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

 

 

 

Juiz defende o bom nome do marido acusado de abusos


Patrícia Reis,

Francisco José Viegas escreve hoje no seu blog / crónica no CM sobre o juiz que decide defender o homem viril e conta um episódio que, infelizmente, não é ficção. A nossa justiça anda assim, ou melhor, não anda, está assim. É a injustiça, pura e simples. Ora leiam: “Vejamos: em 2011, uma mulher acusou o marido de violência doméstica (e de violação), além de infligir maus-tratos físicos e psicológicos às três filhas. Diante disso, o tribunal condenou-a por difamação, considerando que a mulher, está na cara (com nódoas negras), agiu com o “propósito de difamar e caluniar” o marido, já que as suas acusações são atentatórias (ui, ui) do “bom nome, hombridade, reputação e decoro” do cavalheiro. De acordo. E mais: como não concordar que se trata de “suspeições desprimorosas”? Evidentemente que são. Nojentas. E como não concordar com o tribunal ao considerar que essas “suspeições” põem em causa a “honorabilidade, consideração, honra e dignidade” do marido? Parece, inclusive – que horror –, que ele passou a ser tratado com ‘comentários e olhares vexatórios’, o que não se pode permitir. Os tribunais têm de defender a honra destes maridos viris. Curiosamente, o tribunal, que condenou a malvada (à primeira), não considera falsas as suas acusações; simplesmente são chatas para o marido. A Relação de Guimarães veio agora anular a sentença. Pobre marido.”

Tudo na mesma (II parte)


Patrícia Reis,

Depois de ter publicado um texto a propósito da capa do Público e seus cronistas homens, recebo um comentário (de alguém que não se identifica, pois o que seria?) que reza assim:

….quanto recalcamento que por aqui vai….arranje uma vida!

É por estas e por outras que, às vezes, me apetece mandar tudo às urtigas e esquecer que as redes sociais podem ser um lugar para debate de ideias. As pessoas não querem debater nada, não pessoas como este Me (assim se designa a criatura que pode ser de ambos os sexos, não é verdade?), pessoas assim só querem ofender. Pois, eu cá não me ofendo com pessoas que não existem. E agora?

Nada. Não se passa nada. Hoje a revista Sábado tem uma capa com 6 homens que também têm coisas para dizer sobre 2017, a média de idades destes senhores, brancos, de formação dita clássica, etc e tal, é superior a 75 anos, mas isso não tem qualquer importância. Ou terá?

Tudo na mesma


Patrícia Reis,

O jornal Público só encontrou os cronistas do costume para dizerem de sua justiça sobre 2017 e colocou as fotografias dos senhores na primeira página. Não existem mulheres dignas desse nome? Parece que não. É certo que os tempos são outros, que temos mulheres ministras, procuradoras, já tivemos uma presidente da assembleia da república, mas ainda são excepções. Compõem o quadro, é tudo. As mulheres em Portugal – e no mundo – não são tratadas com sentido de paridade. Não se discute se temos alma, como na Idade Média; assume-se que não temos nada para dizer e, por isso, as mulheres não são cronistas com honras de primeira página, raramente se eternizam em programas de debate com eixos, círculos e outras figuras geométricas. Também é preciso dizer que quando se pensa que uma mulher que atinge um determinado cargo irá lutar para uma maior visibilidade das mulheres, o efeito é o contrário, para não melindrar, para não serem acusadas de mulherzinhas. Ou pior, de feministas. Conclusão? Tudo na mesma. Nem mesmo as mulheres que conseguem ter poder escapam à misoginia.

Fernando Pessoa


Patrícia Reis,

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés. 

Clarice Lispector


Patrícia Reis,

Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser…
Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva… Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos – Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!!
Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser… Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você… O que pensa disso?

Que desafio, hein?
“… Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la…”

Perto do Coração Selvagem – p.55