Enquanto tu dormes, eu posso ouvir-te com mais precisão. Tem que ver com a tua respiração. O peito, que se enche devagar. Há um sorriso no canto da boca enquanto os sonhos passam na cortina dos teus olhos. Não sei nada de ti, nestes momentos. O que oiço do teu corpo é apenas uma música em surdina, como o restolhar dos pássaros ao fim do dia, escondidos na confusão das folhas. Tu suspiras, o braço pendente na cama branca. Sinto-me próxima da oração, meu Deus, o teu corpo perdido e eu sem salvação.
A Construção do Vazio
Patrícia Reis,

Sorte a sua por o seu parceiro não ressonar.
Sinto-me próxima da oração, meu Deus
Não caia nessa. Quando o viandante canta no escuro, nega o seu temor, mas nem por isso vê mais claro.
Belo texto, minha querida Patrícia.