Hilda Hilst


Patrícia Reis,

Hoje

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo.

E que descanso me dás

Depois das lidas.

Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

Manoel Bandeira


Patrícia Reis,

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

O dia da Mãe


Patrícia Reis,

Para a minha mãe, para a minha avó e para mim, este é o dia da mãe. Não nos corre bem desde há uns anos, porque essa coisa em Maio veio tramar a malta e os filhos, de cada uma, tendem a esquecer-se do dia 8 de Dezembro, para mais quase em cima do Natal. Assim, temos um acordo que nos une, celebramos nós, telefonamos e festejamos. Para quem estiver connosco, pois tenham um feliz dia da Mãe.

Hilda Hilst


Patrícia Reis,

“Eu adoraria estar apaixonada sempre. A minha mãe dizia uma frase que eu nunca esqueci: ‘Tens um inimigo, deseja-lhe uma paixão’. Eu não entendia o que ela queria dizer, mas agora eu entendo. A paixão é uma doença mesmo, uma doença total. E eu gostaria de, velha, ter uma paixão, de me apaixonar.”

Manuel António Pina


Patrícia Reis,

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”

Cuidados Intensivos (1994)

blogue da semana


Patrícia Reis,

Do princípio ao fim (13)


Patrícia Reis,

“Viu a Selva da sua vida e viu a Fera a espreitar; então, enquanto olhava, viu-a, como numa agitação do ar, erguer-se, enorme e horrenda, para o salto que o iria aniquilar. A vista escureceu-lhe — estava próximo. E, voltando-se instintivamente, na sua alucinação, para a evitar, mergulhou de cara para baixo sobre a campa.”

A Fera na Selva, 1903

 

Caríssimo Senhor Henry James
 
Escrevo-lhe ao chegar da tarde do primeiro dia de Outono. O sol mostrou-se em Lisboa com alguma timidez, mas apesar disso, rejubilámos. A casa está em silêncio e é oportuno deixar-lhe estas linhas agora antes que os afazeres diários me atropelem e perca esta possibilidade.
Tenho o seu livro na minha mesa de cabeceira há mais de vinte anos. Não sei quantos exemplares já ofereci, na verdade poucos, não conheço muitas pessoas com vontade de chegar a esta elevação. Chamo-lhe elevação porque, de certa forma, a “Fera”, como carinhosamente é conhecida aqui em casa, só ataca alguns e, quando o faz, é de forma quase letal. Fica connosco. Podia ter na mesa de cabeceira outros – e tenho – porém o seu livro, este livro, é diferente. Serve-me como memória e espelha um exemplo. Todos os dias o encaro com desânimo ou entusiasmo. Depende do que me acontece.
Quererá saber porquê. Sei que gosta de uma boa história e que é um ouvinte treinado para as miudezas do mundo, essas que, porventura, utilizou para a ficção e para a dramaturgia. Esqueçamos a dramaturgia? Certo, o fracasso nunca é de louvar. Posso garantir-lhe que o desapontamento que sofreu nos palcos de Londres e arredores, no seu tempo, não são verdades de hoje. Os seus livros tornaram-se filmes, as suas peças encenam-se amiúde. Quer saber se o mesmo se passa com Oscar Wilde? Vejo que o trauma permanece. Oscar Wilde, como quase todas as figuras capazes de fugir ao padrão da época, era irresistível ao grande público. Para si não o seria. Compreendo. Deixemos isso, então. Voltemos à “Fera” e à razão que me leva a escrever-lhe.
Convivi estes anos todos com o seu John Marcher e a sua amiga, a senhora May Bartram. Por vezes, acontece-me regressar à história deste desencontro e aprendo sempre alguma coisa. Marcher serve-me de modelo: um homem que viveu a vida pela metade, convicto de que estava destinado a algo maior, incapaz de amar e reconhecer esse amor. “A solução teria sido amá-la; então, e só então, ele teria vivido”, conclui quase no fim da “Fera”. A pequena lombada que vislumbro da minha cama recorda-me que tenho de estar atenta às coisas do mundo, à “expressão dos afectos” à minha volta, aos que se aproximam e ficam. Se calha a sofrer do síndrome de Marcher, como lhe chamo, penalizo-me de forma brutal. É fácil ser-se egocêntrico, viver na permanente admiração do nosso umbigo. Perdoe-me, não será uma expressão do seu tempo. Seja como for, vejo a “Fera” e tento redimir-me. Em vez de me encolher na minha convicção de justiça e grandeza, procuro desfazer-me e estar disponível. Não como May Bartram, repare, porque o excesso de amor não me convêm. Ou melhor, não convêm a este século XXI. Nunca senti qualquer espécie de piedade por May Bartram, sempre a considerei altruísta e magnânima nos seus sentimentos, contudo demasiado contida para o meu gosto. Se fosse eu, teria gritado o meu amor por Marcher, teria sofrido mais e a amizade terminaria, estou certa. Quando li a sua história pela primeira vez, Senhor James, chorei e continuo a chorar.  
É-me incompreensível a ideia de paixão e a sua conjugação com a frieza e a distância: como é que podem conviver no mesmo tempo e espaço? Como é que gestos delicados e despojamento não são entendidos como entrega total? O amor está em desuso. As relações entre as pessoas não são, em nada, similares às do seu tempo. Há uma liberdade que nos é agradável e uma quebra de regras de cavalheirismo que, decerto, teria dificuldade em aprovar. Pouco importa, porque a sua “Fera” quando ataca um leitor dos dias de hoje permanece com a mesma força de sempre. Espero que isso lhe traga algum contentamento.
Passei a entender John e May de outra forma depois de ler “Autor, autor” de David Lodge, um inglês, como o senhor. Sim, peço desculpa, o senhor pediu a nacionalidade depois da Primeira Guerra Mundial como forma de solidariedade para com os Aliados. Ao mesmo tempo, acredito que ser norte-americano não estivesse de acordo com a sua natureza. Não sei porque lhe escrevo isto, se me engano, peço desculpa. O livro de Lodge é-lhe dedicado. O senhor, tão discreto e sedento da sua privacidade, não gostaria da biografia ficcionada que este escritor imaginou, partindo apenas do pouco que se sabe. O livro começa com duas epígrafes, uma delas sua, retirada do livro “Middle Years” e reza assim: “Trabalhamos no escuro – fazemos o que podemos – damos o que temos. A nossa dúvida é a nossa paixão e a nossa paixão é o nosso trabalho. O resto é a loucura da arte”. Fui à procura deste livro e, como aconteceu com os restantes, devorei-o palavra por palavra. É um texto que podia, de certa forma, ter sido escrito ontem. Leio qualquer obra assinada por si como se tivesse sido escrito para mim, lamento a ousadia. Ao mesmo tempo, percebi que a sua devoção à Literatura e o seu temor pelas questões financeiras – sempre difíceis, sempre actuais – o afastou de uma vida em pleno.
 Com o livro de David Lodge aprendi muito e comecei a vê-lo, a si, caro James, como outra personagem, se quiser mais próximo de John Marcher. Não fiquei desapontada, não se preocupe. Apenas entendi melhor a sua forma de estar. O alheamento face às coisas da vida, as coisas comuns. Descobri May Bartram em Constance Fenimore Woolson. Não se ofenda. Não o culpabilizo pela morte de Constance, mas julgo que só a sua amizade o poderia ter levado a escrever a “Fera”. É um símbolo, uma metáfora da sua relação com Constance, não é? Escusa de responder. Não sou a primeira a especular sobre a vossa amizade, não serei a última.
Ao contrário do que antevia, o senhor é estudado e lido à exaustão. O que não sucedeu então, vive-se agora.  

Jorge Luís Borges, um escritor que não teve ocasião de ler, compilou uma colecção de literatura fantástica e dedicou um volume inteiro à sua obra. Chamou-lhe, como um dos seus contos, “Os Amigos dos Amigos”. No prefácio desse volume, Borges considera-o, caro James, tão grande quanto Kafka, Kipling ou Tolstoi. Diria que, no mínimo, há um conforto neste sucesso póstumo porque a forma única de observação da sociedade, os enredos que congeminou e toda a sua arte, a sua paixão, deixam eco na história da Literatura.
Na minha primeira viagem a Veneza procurei a casa que Constance alugou, os cafés que frequentaram, visitei a Academia e os Ticianos. Pensei muito em si. Sei o quanto gostava de Itália. Compreendo agora como fugiu a uma viagem para não se confrontar com a sua amiga. Tenho procurado as obras dela, especialmente “Anne” de 1880, mas sem qualquer sucesso. Talvez não tenha pesquisado com o afinco devido. Confesso-lhe a minha imensa curiosidade. Não o acuso de inveja, já que ela teve algum êxito e vendas significativas numa época em que o senhor sofreu diferentes golpes terríveis. Não lhe escrevo para defender Constance. Contudo, depois de entender a relação que mantiveram ao longo dos anos, o facto de nenhum dos dois ter casado, e do senhor ter queimado a correspondência que trocou com ela, obrigando-a ao mesmo gesto, acredito que a “Fera” possa ter outro significado. Quer isto dizer que o senhor foi incapaz de amar? A paixão que o tomou foi a da Literatura e por ela abdicou de tudo o mais. Estou certa? Mais uma vez, não precisa de me responder.

Aguça a minha curiosidade o facto de saber que se encarregou a tempo de fazer desaparecer provas e pistas sobre a sua vida, a sua intimidade. Receava o quê? O escrutínio público e a devassa que tanto afectaram o seu contemporâneo e suposto rival, Oscar Wilde? Duvido. Estou convicta de que a sua personalidade assentava numa ideia de representação ou, se preferir, de efabulação da realidade, sem se confundir com as suas personagens, resguardando-se numa imagem discreta, elegante, sem ser sinuosa. Faz-me lembrar uma lição de outros tempos em que era pequenina: disse-me, então, o meu tio-avô, seu devoto, que nunca temos a percepção do que somos porque só nos vemos ao espelho. Só os outros é que nos vêem como somos, vêem as nossas acções, os nossos gestos, percebem a nossa linguagem corporal antes de nós. São os nossos olhos. A esta luz, pergunto-me se o senhor não quereria o sucesso literário, o reconhecimento público, o respectivo encaixe financeiro e ainda, e sempre, uma imagem de algum mistério. Ficaram famosas as suas queimadas, milhares de documentos que hoje fariam com que a sua história fosse possível de percorrer. Estamos no fio de arame, sem rede, no domínio da especulação, até certo ponto. É pena, garanto-lhe.
Não se preocupou com a efemeridade da sua obra e – deixe-me dizer-lhe – fez mal. Restam-nos os vinte romances que escreveu, cento e doze contos, doze peças de teatro e, ainda, alguns artigos de crítica literária. É pouco, terá de concordar.  Por outro lado, a sua aposta alta na Literatura rendeu. Antes de morrer, sem condições de tal cerimónia, foi-lhe entregue a Medalha de Ordem de Mérito de Sua Majestade. Estou certa de que se a lucidez permitisse, o gesto seria uma espécie de conclusão e conquista final. O senhor, caro James, não passou impune neste mundo. Quem sabe se passará nesse onde agora está. Como me disse uma vez Agustina Bessa-Luís, uma escritora portuguesa que acredita ser mais conhecida do que lida, daqui lhe mando um aceno de cabeça e lhe agradeço a gentileza de ter escrito para mim. Egoisticamente é o que me ocorre. Espero que não me leve a mal.
Cumprimentos.

Al Berto


Patrícia Reis,

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder… eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois… mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco… eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

Arturo Pérez-Reverte


Patrícia Reis,

Amanhã, no âmbito do FIC (Festival Internacional de Cultura), entrevistarei Arturo Pérez-Reverte, ele que é o escritor espanhol mais traduzido (40 países), com cerca de 17 milhões de livros vendidos. Passei o verão a ler e a reler a sua obra, terminando com o novo livro Homens Bons (edições Teorema), uma aventura no século XVIII e, a propósito, várias considerações filosóficas da época sobre a luz e as trevas, a razão e a ciência, a fé e a religião, e até as mulheres e as suas coisas. Pérez-Reverte é um dos nomes grandes da Literatura e é, sobretudo, um homem livre, para muitos politicamente incorrecto, para outros corajoso e lúcido na forma como vê o mundo. Repórter de guerra durante 21 anos, este autor dedicou-se aos livros e à navegação, as duas artes que o salvaram. Será uma conversa e tanto e tenho quase a certeza de que falaremos de História, de memória (ou da falta dela), de xadrez, barcos e livros, muitos livros. Por isto e mais, tragam o corpo. É às 22h00 na Casa das Histórias Paula Rêgo em Cascais.

Mia Couto


Patrícia Reis,

 

Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar.

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão .

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Carlos Drummond de Andrade


Patrícia Reis,

Era manhã de setembro

e

 ela me beijava o membro

 

Aviões e nuvens passavam

coros negros rebramiam

ela me beijava o membro

 

O meu tempo de menino

o meu tempo ainda futuro

cruzados floriam junto

 

Ela me beijava o membro

 

Um passarinho cantava,

bem dentro da árvore, dentro

da terra, de mim, da morte

 

Morte e primavera em rama

disputavam-se a água clara

água que dobrava a sede

 

Ela me beijando o membro

 

Tudo o que eu tivera sido

quanto me fora defeso

já não formava sentido

 

Somente rosa crispada

o talo ardente, uma flama

aquele êxtase na grama

 

Ela a me beijar o membro

 

Dos beijos era o mais casto

na pureza despojada

que é própria das coisas dadas

 

Nem era preito de escrava

enrodilhada na sombra

mas presente de rainha

 

tornando-se coisa minha

circulando-me no sangue

e doce e lento e erradio

 

como beijara uma santa

no mais divino transporte

e num solene arrepio

 

beijava beijava o membro

 

Pensando nos outros homens

eu tinha pena de todos

aprisionados no mundo

 

Meu império se estendia

por toda a praia deserta

e a cada sentido alerta

 

Ela me beijava o membro

 

O capítulo do ser

o mistério de existir

o desencontro de amar

 

eram tudo ondas caladas

morrendo num cais longínquo

e uma cidade se erguia

 

radiante de pedrarias

e de ódios apaziguados

e o espasmo vinha na brisa

 

para consigo furtar-me

se antes não me desfolhava

como um cabelo se alisa

 

e me tornava disperso

todo em circulos concêntricos

na fumaça do universo

 

Beijava o membro

beijava

e se morria beijando

a renascer em setembro

 

Rainer Maria Rilke


Patrícia Reis,

O Poeta

Afasta-te de mim, ó hora.
O bater de tuas asas faz-me feridas.
Mas: que hei-de eu fazer da minha boca agora?
e do meu dia? e das noites compridas?

Não tenho amada, nem casa,
nem lugar onde viva.
As coisas, a que a minha alma se casa,
enriquecem e gastam a alma viva.

 

in Poemas. Trad.: Paulo Quintela. Editorial O Oiro do Dia)

Fúria


Patrícia Reis,

 

Há aquele momento estranho que antecede a chegada. Há um barulho nas escadas, a porta do elevador, os passos na laje. Um aperto, uma quase dor. Prevendo o pior, ainda na esperança do melhor, ela deixa-se estar de costas para a porta, na cozinha, a barriga húmida da água que escoa do lavatório. Depois há duas hipóteses: ou ele se chega, bem disposto, a mão na porta do frigorífico, e uma frase qualquer, desgarrada, como se estivessem a falar há muito; ou a mão na porta do frigorífico e o silêncio a romper o gelo no copo alto. Um aperto, uma quase dor.

São segundos que definem a noite. Manchas de peso que alastram pela casa, propagando a aflição no peito, o bater do coração descompassado, deslocado, a meio do pescoço, prestes a deixar o corpo. Se o coração não estivesse preso, embrulhado nas cordas e no tubo de dez centímetros que é a traqueia, talvez conseguisse gritar. Um grito por ela, de terror por aguentar, de aviso, de guerra. Mas ela está assim, interdita, as mãos na água, as pulsações a contabilizar o medo e o medo a dominar tudo.

Julga-se protegida por não terem tido filhos. Seria pior. Tenta acreditar nisso. Muitas vezes acredita. Defende-se sem habilidade quando lhe perguntam porque é não tiveram, porque é que não cumpriu o seu papel, a coisa grandiosa da maternidade que confere sentido de vida mesmo ao que não terá nunca sentido. Para a esquerda? Para a direita? Como definir um sentido? As pessoas encaram-na com uma certa pena. Como se não fosse mulher o suficiente, como se dependesse dela. Nessas ocasiões sorri e olha para longe e espera que passe, sabendo de antemão que falta uma resposta e que do seu silêncio nascerá apenas desconforto, constrangimento e, por fim, outra vez pena.

Ele não julga nada porque a vida não lhe ensinou isso. Ensinou-lhe as coisas básicas da sobrevivência: o trabalho é para trabalhar. Um homem não deixa e não faz um rol de coisas que não importa agora nomear. Um homem fuma e bebe, não chora nem pede. Paga as contas e verifica o dinheiro. Fecha a porta da casa de banho. Sempre. Compra roupa uma vez por ano. Usa o mesmo tipo de sapatos. Arranja as coisas em casa. Procura não pensar. Nada de sonhos, nada de fantasias.

 

Larga essas revistas, que porra!

 

Ela sonha com as extensões de cabelo da apresentadora do concurso da televisão; sente as dores da outra que foi trocada pelo marido seis meses depois de um casamento majestoso numa quinta qualquer; comove-se com o nascimento da modelo; tenta imitar a actriz da telenovela da noite. Tudo isto antes de fazer o jantar, as revistas escondidas do olhar dele. A mesa está posta e ele arrasta-se com o copo na mão até ao sofá gasto. Ela atreve-se

 

Um dia vou mudar de sofá.

 

Nem penses, este já tem o buraco do meu cu.

 

São coisas assim. Coisas que a limitam, aprisionam, desfiguram. Ele torna-a um conjunto de coisas sem nome. Ela sabe e sabe melhor quando vê as horas a serem comidas pelas telenovelas e o ouve roncar de álcool no sofá. A cozinha está arrumada, não lhe resta mais nada, a luz da televisão a engolir-lhe a tristeza e ela a perder a noção de si, pronta para ser uma princesa, alguém outro que ninguém conhece. Uma mulher, por fim.

Nessa sexta-feira fazia calor. Era tarde. Não lhe apetecia carregá-lo para a cama, ouvi-lo na sua voz empastada a dizer asneiras, a chamar-lhe nomes, a agressividade nos olhos, os gestos de guerra, a guerra dos dois. Quando começou? Já nem se lembra. Um dia, a mão no frigorífico, o gelo e o copo, sempre o mesmo copo. Começou assim e não importa se foi ontem ou há dez anos porque nada mais mudou. Há uma sucessão de desenganos e pequenas tristezas que convergem lentamente para um final que ela entende como um castigo: a mão no cotovelo dele a endireitar o corpo, rumo ao quarto, a mão dele na blusa dela, os dedos grossos

 

Nunca foste boa. Podias ser boa.

 

O corpo dele, por fim, na colcha de salmão brilhante e os sapatos a não querer sair, as calças a prender, a força de o levantar um pouco mais, ele a gritar

 

Deixa-me estar, porra.

 

Ela, paciente, silenciosa, a trabalhar com as mãos, os botões da camisa, o fecho do casaco de malha. As coisas no corpo dele. Podia despi-lo de tudo o resto. Não é capaz sequer de pensar nisso. Despi-lo da pequenez, da falta de mundo, da bebida, da vida. Podia até matá-lo, como viu numa série policial. Podia isso tudo e naquela sexta-feira imaginou que sim porque na televisão uma senhora pequenina, com um xaile pelos ombros, disparou olhando-a nos olhos, só a ela.

Na imensidão da noite, dentro daquela luz branco azulada do ecrã, a escritora virou-se para ela e disse

 

As mulheres pequenas inspiram um sentimento de vaga hostilidade, como se pertencessem a uma raça diferente. (*)

 

 

E naquele momento, como uma vocação, encarou o marido no sofá, o copo em cima da mesa de acrílico, junto ao cinzeiro imundo, a paisagem da sala por inteiro, como uma novidade, e considerou que era verdade, a escritora tinha razão. Ela, como outras, era de uma raça diferente. E, sem fúria, já calma nos seus ímpetos de fuga, optou por deixar o marido no sofá de cornucópias. Fez a cama de lavado, uns lençóis brancos de algodão puro, suaves e menineiros, e deitou-se nua no calor da noite. Repetiu alto a frase de Agustina Bessa-Luís sobre as mulheres pequenas e a diferença.

Sentiu-se bem.

Pela primeira vez, depois de muito tempo, de tanto tempo, sentiu-se bem.

 

*

Agustina Bessa-Luís, As Fúrias, página 47.

Eduardo Prado Coelho


Patrícia Reis,

“O mais terrível é sentirmos a irreversibilidade do tempo. Que mesmo quando tudo se repete, já nada se repete, pela primeira vez. E que nós nos gastamos como borrachas na demorada corrosão das coisas. Um dia acordamos e já não é a primeira vez. A não ser quando a paixão nos diz que, nupcial e navegante, cada gesto de amor é sempre o primeiro.”

Não


Patrícia Reis,

Hoje aprendi que consigo dizer que não. Foi um acontecimento tardio mas muito desejado. Parece que a minha vida mudou. À conta de uma palavra tão pequena. Há esperança.

da dificuldade de se ser adolescente (ou adulto)


Patrícia Reis,

Não tenho muito jeito, nunca tive, para ficar calada. É um defeito e uma virtude. Por vezes gostaria de voltar a engolir as palavras. Outras, seria magnífico deixar que o chorrilho de disparates na minha cabeça encontrasse eco no exterior. É que, apesar da fama, ainda vou engolindo uns sapos. E sobre isto e mais estive eu à conversa ontem à noite com duas adolescentes. O que as magoa, o que lhes faz confusão – elas com 15 anos – é muito parecido com aquilo que me magoa e me faz confusão, no entanto concluí que ser crescido tem inúmeras vantagens e uma delas é aceitar que é preciso fazer rupturas, chamar os bois pelos nomes. Durante a nossa conversa, ouvindo o mais atentamente possível, voltei a sentir o mesmo que sentia na minha adolescência: incompreensão. Caramba, ser jovem não é um posto, nunca foi, mas é muito difícil. Será sempre muito difícil. E, talvez por isso, acabei por mandar para a outra parte um adulto que teve a infelicidade de dizer: ah, o que eu dava para ter a vossa idade. As minha interlocutoras olharam para o senhor com incompreensão. Eu também.

Fictiongram, final


Patrícia Reis,

Palmadas nas costas, uma ida à casa de banho, o ar derrotado do escritor faz com que pareça mais velho, muitíssimo mais velho. O que fazer? Deambula na sala até chegar ao seu poiso final, a poltrona velha e cómoda como um casaco (estou a repetir-me? Devo estar).

Você desculpe. Deixei de fumar há uns anos.

Não faz mal, o que me importa é saber se não deitou fora a ideia para terminar o romance. Deitou?

 

Deitar fora a ideia que tinha para terminar o romance, o escritor não deitou, porém existem questões de ordem logística que são importantes e essas não sabe como resolver. Atenção, tem a certeza de que terá de falar com o advogado, não só por causa das cartas, mas para resolver a hipótese levantada de Martim querer ficar com a herança que pertence a Carmen.

Sabemos que existem duas heranças. Qual é o esquema do Martim?

E isso importa?

Então? Se não resolver isto, não sabemos como chegamos ao fim… Só se… só se matar a Carmen.

 

Matar a Carmen não é uma solução para o Paulo e o escritor já o suspeitava, na verdade sabia-o, mas gostou de o ver ficar direito, empertigado, a cara de escândalo, a missão falhada

Ó por favor, deixe-me morrer, por favor, no lugar de todos.

O escritor apreciou o pânico da personagem Paulo, psicólogo ficcional, futuro amante de Carmen. Espera, amante? Eis outra ideia. Entusiasmado, levanta-se de novo, abandonando a poltrona mais velha do planeta (e cara, design italiano, importada, está-se a ver), e gesticula, gesticula como um maestro com a sua batuta (sim, aquele pauzinho chama-se batuta).

 

Meu caro Paulo, não imagina como a sua visita me ajudou e muito. Muito. Se quiser fazer o obséquio de ir embora, já me posso sentar escrever.

Eu não vou lado nenhum. O senhor tem de me dizer como é que as coisas se vão desenrolar. Não consigo ir embora sem saber. Por favor.

Bom, se insiste… não sei se será do seu agrado, mas pelo menos ninguém morre.

 

O facto de ninguém morrer não estava no programa. Maria Luísa podia ir desta para melhor, Laura ficava com Carlos por fim, Martim sabia da história e reconciliava-se com a ideia de família. Era um caminho. Matar a mãe de Carmen e de Martim era uma excelente solução, era quase superlativo. E Paulo podia ficar com Carmen? Bom, ela não iria para um convento, disso temos nós a certeza, para suspirar já lhe basta a vida, não precisa de intervenção divina.

 

Paulo tentou convencer o escritor.

Faça isto assim, vá lá. Eu até posso ficar sem a Carmen.

E ela volta para o Jaime.

De acordo.

Você é parvo ou quê? Então não gosta da mulher? Não o entendo.

 

A troca de palavras vai longa e nada se resolve, portanto a intervenção divina tem de provocar aqui uma agitação, pequeno tsunami e, a propósito, alguém toca a porta e o escritor vocifera

A esta hora? Porra.

Não olha pelo tal buraquinho de vidro espetado no meio da porta da entrada. Abre a porta num repente e Carmen mostra-se no seu esplendor.

 

Isto está a ficar um pouco doido demais, medita o escritor, mas não se faz rogado, deixa-a entrar e ali está ela, suave, num tailleur belíssimo, nova aquisição, uns saltos altos pretos de verniz. Uma bela mulher. Chata como o raio que a parta, mas bela. O escritor, por fim, achou-se capaz de compreender Paulo. Carmen era mais que uma personagem plana, oca, neurótica, afinal podia ser todo um universo. Por isso, disse

Caramba, nunca pensei que fosse assim.

Então como é que queria que eu fosse? Foi o senhor quem me escreveu, não foi?

Mas não a escrevi assim.

 

Sentaram-se os três no sofá. Carmen pediu para ele não matar a mãe. Paulo pegou-lhe na mão, o escritor comoveu-se, ouviu as badaladas do relógio da vizinha – Dona esperança, uma jóia de senhora -, era meia noite, tinha uma dor de cabeça monumental e abriu os olhos. Decidiu que afinal a história que queria escrever não era aquela. Pouco importava um ano e tal de trabalho. Fez contral + alt + delete e foram-se todos, os tais sete: Carmen, Paulo, Jaime, Carlos, Maria Luísa, Martim, Carlota e ainda o oitavo, o nosso escritor. Só porque fica bem. O leitor pode fechar a boca de espanto, foi um prazer, acredite. Bem haja por ter chegado aqui. Agora começa o mês de Agosto, vá comprar um livro.