Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Paulo conforta-o dizendo que as fragilidades são as impressões digitais da sua humanidade, ou do que resta dela. O escritor bebe mais um pouco e pergunta

Gosta da Carmen?

Gosto.

Quer ficar com ela?

Isso nunca vai acontecer.

 

Se Paulo fica com a Carmen, ou nem por isso, o escritor não sabe, porém, de forma súbita e atabalhoada levanta-se, parece uma diva e vislumbra-se o seu ser feminino em todo o esplendor, e grita para a sua personagem

Já sei, já sei como resolver tudo. Parece complicado mas não é, venha para a sala preciso de um cigarro. Tem cigarros? Eu deixei de fumar.

Paulo dá-lhe um cigarro de um maço que traz no bolso de dentro do casaco. O escritor pensa

Ele fumava, na história?

 

O escritor inaugura o fumo do cigarro com prazer, mas o corpo rejeita tudo aquilo, alarme, alertas, o corpo a cuspir e um ataque de tosse sem fim. A figura que faz é triste, quase ridícula, o escritor tosse, engasga-se um pouco mais, sente as lágrimas a saltarem dos olhos e, como uma criança em convulsões, há ranho que lhe sai pelo nariz. Paulo faz um esgar. É nojo, senhores, nojo do seu criador, a criatura não faz destas coisas.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

 

Assim, Paulo e o escritor discutiram o enredo. Dissecaram tudo e lembravam-se de pormenores que eu já nem sabia possíveis, verificaram questões de verosimilhança (por exemplo? Bom, Jaime não podia ter a idade que se dizia que tinha, caso contrário como é que estava no liceu e o irmão, pouco mais velho, na faculdade? Coisas destas devem existir aos pontapés, a grande Agustina ria-se destas coisas, o que é sempre um bom conselho. O riso trata tudo).

 

Bom, estou a ver que não consigo convencê-lo de nada, não é? Eu gostava de morrer, não só para poupar o Jaime, mas sobretudo por estar olimpicamente farto de servir de tampão – não é uma boa palavra -, de rolha, de qualquer coisa, que impeça a loucura da minha mãe e o entendimento de Jaime de que, no fundo, é um deficiente emocional maior do que a Carmen e que até o emprego dele não existe como o afirma. Sabia disto? Tenha paciência, o senhor é apenas o escritor, não sabe nada.

 

Desta feita, em defesa do nosso escritor, é preciso dizer que este não teve tempo de terminar fosse o que fosse, portanto julgá-lo com pormenores do futuro é injusto. As personagens sabem sempre, ou muitas vezes, o que as aguarda, os escritores precisam de mais tempo para ficarem elucidados e, acontece, podem enganar-se redondamente. Afinal, o escritor não suspeitava que Paulo estava deprimido. Não era preciso ser psicólogo para chegar tão longe.

 

Paulo recusou a ideia taxativamente, até se sentiu incomodado, ele deprimido? Um profissional de saúde mental sabe quando está deprimido. Paulo estava para lá disso.

Deprimido o quê? Deprimida está a Laura, a Carmen, a Maria Luísa e ainda o Carlos, não chega num romance esta gente toda? São sete personagens, a oitava ainda não chegou, não me diga que é da polícia judiciária e vem saber quem matou quem?, e quatro estão deprimidas. Parece-me o suficiente e mais lhe digo, não entendo como é que o senhor, um escritor com tanto pergaminho (ainda se diz?), cai na esparrela de começar um romance com uma mulher neurótica, arranja uma embrulhada e não sabe como sair dela. Não pensou no final previamente? Claro que não. Arrogante.

 

O escritor anuiu, e depois, um momento de constrangimento que nunca acontece nos filmes, a sua barriga emitiu um ronco perfeitamente audível. Precisa de comer, não só por causa do ronco, mas também por ser urgente ensopar o whisky com um sólido qualquer. Paulo, ajuizado e sabedor, levantou-se e caminhou na direcção da cozinha como se a casa fosse sua

Deixe-se estar, eu faço o jantar.

 

Jantaram, não sei se se lembram do ronco, da fome, da necessidade de ensopar o whisky, mas cá estou eu para vos pôr no carril dos acontecimentos. Jantaram, dizia eu, e muito bem, porque o Paulo, além de bom ouvinte e de deprimido, é bom cozinheiro. Nunca se mencionou o facto anteriormente por estarmos indecisos, agora não faz mal, é necessário que cozinhe. E bem. O escritor louva-lhe a mão para o tempero. Abrem uma segunda garrafa de vinho tinto e Paulo ameaça

Vamos acabar com isto? Vamos resolver a história?

 

O escritor, para resolver a história, como Paulo o instigou, tem de mastigar muito e tem de rever coisas no seu passado sobre as quais ainda não falou em terapia. Sim, o escritor sabe que terá de voltar ao consultório, que remédio, é tão velho ali como o cacto que está num vaso pindérico na sala de espera. Não que o escritor alguma vez tenha posto o rabo no sofá de espera, não, sempre entrou direitinho para o consultório. Ele é uma pessoa importante, porventura o mais importante que o país produziu depois de… alguém.

 

O escritor revela então a Paulo as suas inseguranças. Está com os copos, estão os dois, portanto as palavras correm o risco de perder consoantes, mas eu vou tentar remediar a situação e fazer um resumo. As inseguranças do escritor são, por ordem aleatória

A vergonha de ser adoptado

Saber que não foi adoptado

Odiar a mãe tanto quanto a ama

Querer as cartas de volta

Ter medo do ridículo

Não ter uma porra de uma ideia sobre esta história que conta ou qualquer outra para um futuro mais risonho, uma história que dê frutos, sei lá, um ou dois prémios (com dinheiro, é evidente).

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

 

Tínhamos ficado onde? Não, tínhamos ficado na utilização indevida da negação para início de frases que não correspondem a uma pergunta concreta do interlocutor. Vocês estão a ver a ideia. O Paulo murmurou o tal

Não, quer dizer, sim…

e, depois, teve uma iluminação. Era melhor interessar-se pelo escritor, fazê-lo sentir-se importante.

Não me quer contar o problema das cartas?

As cartas? Como sabe das cartas?

Toda a gente sabe.

Toda a gente? Não, não.

Conte-me tudo.

 

E assim foi, o escritor meteu os fígados bons e maus contra o seu Jaime real para fora como alguém que vomita voluntariamente. Gostava de se ouvir falar, sabia que tinha um tom de barítono apropriado para intimidar, logo fazia uso da voz de forma apropriada, colocando-a como fazem os radialistas e alguns predadores. Contou como tinha sido convidado pela nobreza, uma certa nobreza, a passar uma temporada num chalé sofisticado na Suíça igualmente sofisticada. Explicou que escrevera as cartas ao Jaime por sentir compaixão. Foi a palavra que usou. Compaixão e Paulo aproveitou.

 

É o que espero de si…

podia dizer o Paulo, ainda tentou

… espero compaixão

mas o escritor estava lançado e servia-lhe bem essa ideia de que o Paulo não existia, portanto podia dizer o que fosse.

Nunca gostei de Jaime, sabe?

Nunca?

Nunca. Precisava de companhia. Era só isso, companhia. O amor é uma ilusão, todos o sabemos.

 

Foi um instante para que Paulo fizesse o paralelismo com a situação do Jaime ficcional e, a medo, perguntou quais eram as intenções do escritor. Ele sacrificava-se por todos os outros, os seis personagens do costume, Laura, Carlos, Maria Luísa, Jaime, Martim, Carlota (viram que agora comecei a enumeração ao contrário? Ele há truques). Estava o escritor a ouvir? Ele, Paulo, queria morrer.

 

Mas olhe que não me dá jeito nenhum matá-lo, Paulo, não a si. A sua personagem é aglutinadora, é o cimento bom que faz com que o caminho possa ser feito, em especial o caminho de Jaime e de Laura. Não, não o posso matar, agradeço a oferta, mas não pode ser. Confesso que ainda não sei como terminar isto, entende? Nós também temos momentos de fraqueza, sou um grande escritor mas estou muito pressionado e não consigo, não consigo, Paulo.

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Patrícia Reis,

As personagens, embora menos incómodas que a maioria dos mortais com os quais nos cruzamos durante uma vida inteira, também têm manias. O escritor percebeu que Paulo vinha em missão e, surpreendentemente, até por não ter nada de interessante para fazer, dispõe-se a ouvi-lo, porque não? É a sua personagem, um homem interessante, psicólogo, altruísta, tolerante, novo, bem posto. O raio da enumeração!

 

Paulo lá começa a tentar dizer ao que vem. O escritor interrompe-o com um gesto que podia ser classificado de teatral, acredita que ainda vai a tempo de lhe oferecer um whisky cujo a personagem recusa com um ligeiro aceno de cabeça, conseguem imaginar? Claro que conseguem, então é tão perto da banalidade, vá lá, façam um esforço. E Paulo começa.

Percebi que tenciona matar um de nós e venho tentar…

Mudar as minhas ideias sobre o assunto?

Se for possível?

 

Ora, possível tudo é, já se sabe, o que há é uma percepção limitado do que consideramos possível (frase atribuída ao Dalai Lama que vi na internet às três da manhã a curtir uma insónia), consequentemente será possível mudar as ideias do escritor. O Paulo sabe que será uma caminho árduo, pelo menos está convicto de que o escritor é teimoso que nem uma mula, caso contrário não teria inventado para ele, Paulo, uma vida tão… tão… qualquer coisa.

 

O escritor atira-se para a poltrona, maldiz o facto de ter deixado de fumar há uns anos – as maravilhas da acunpuntura, da hipnose, de medicamentos e, por fim, a ameaça de um cancro no pulmão que teve o condão de o afastar do tabaco de uma vez por todas – por saber que seria mais feliz se tivesse qualquer coisa onde chuchar. Hum? Pensa no que acabou de pensar para concluir que talvez esteja a ficar senil. Tem idade para isso.

 

Paulo quase que parece recolhido, como se fosse uma criança, no sofá imenso. Tem muito para dizer, tem ainda queixas e depois pedidos, mas é difícil, muito difícil, falar, ele foi construído para ser bom ouvinte, era a intenção do escritor, servia à história e, só por isso, sente-se impedido a dizer coisas inteligentes. Começa a frase como a maioria dos portugueses começa as frases:

Não, quer dizer, sim…

Não o quê, perguntam vocês? Não faço ideia, mais uma vez.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Não gosta de beber sozinho. Gosta de morar sozinho, sobre isso não tem a menor dúvida, e nunca tivera relações longas por causa dessa ideia de estar apegado à sua casa, às suas coisas. No princípio das relações estava tudo bem, até sentia algum deleite em ver os amantes no seu sofá, na sua cama, à sua mesa. Quando a novidade passava, esgotava-se em tentativas estúpidas para manter a relação. Sempre a dizer aos seus botões, pode ser que seja desta, afinal não posso ser assim tão insuportável. Talvez não fosse, mas aqueles por quem se apaixonava passavam a ser tudo o que deriva de insuportável.

Uma vez tinha escrito um conto – há muito tempo – gozando com o fim das relações, era uma época infeliz, considerava-o agora, porque escrevia usando sempre essa coisa fatídica e cansativa da enumeração. Sim, enumerar tinha sido uma moda, havia quem a mantivesse mas esses estavam claramente fora de moda, o nosso escritor já não começava as suas histórias (com h, por favor, que com e também já não se usa) com: Da janela vi o autocarro, a mulher que atravessava a rua, o semáforo a mudar de cor e depois, numa sucessão alucinante, os rapazes de bicicleta, a porteira colocar o lixo, o taxista. Tudo era vago, idiota, banal, sem sentido. Não, ele já não escrevia assim. Agora era mais elaborado.

Falando em escrever, era essa a sua função, que diabo, estava a engonhar e empurrar com a barriga. Toma decisões, be a man, pensa e cria. Ah, o criador no seu ninho, de copo na mão, a ver se descobre como acabar o que começou. Pois. Então, tem sete personagens, embora esteja seguro que pelo mais uma terá de ser construída, mesmo que à pressa, é essencial. Um leitor disse-lhe um dia que se perdia nos livros que ele escrevia por terem demasiadas personagens. Ora, sete não são muitas, pois não? Pois.

Tem a Carmen, a parva e despeitada; a Carlota deslumbrada e interesseira; o Martim cobiçador e amoral; o Jaime ambicioso, embora preocupado; o irmão, Paulo, o atormentado e depois aqueles três, os mais velhos, Laura, a doida, Carlos, o corno, Maria Luísa, a bruxa. Quem quer morrer?, pergunta o escritor em voz alta olhando o ecrã do computador. Ninguém lhe responde.

As personagens só falam com ele em sonhos, pelos menos foi o que afiançou a uma jornalista, por acaso esperta, que o entrevistou há pouco tempo. Nunca sonhou com qualquer personagem, é evidente, mas ficava bem dizer aquele tipo de coisas e o escritor já tinha algumas mitologias que, mais uma vez, precisava de cumprir para não desiludir. Um dia teve de inventar que em pequeno queria ser bombeiro – queria agora! – porque uma jornalista o convenceu que a fotografia ficava melhor. Enfim.

E andava nessa vida de escrever dez mil caracteres, perturbado com as sucessivas mensagens e telefonemas do ex namorado, o Jaime real, não o da ficção, quando alguém teve o enorme desplante de tocar à porta. Repreendeu mentalmente o sacana que o perturbava àquela hora e, arrastando os pés, quase em slow motion, que é mais literário, seguiu em direcção à porta, que neste caso também é o desconhecido. Só porque fica bem.

Do outro lado daquele buraquinho especado na porta de entrada, aquele buraquinho de vidro que permite ver para fora, que terá um nome, existirá uma palavra, mas não tem tempo para essas minudências, pois pelo buraquinho viu um rapaz alto, bem posto, rosto sério. Vestido com um casaco que lhe pareceu de bom corte. A cor era excelente: azul. Fixou-se na cara do indivíduo. E depois pensou: olha, é o Paulo.

Então o disparate começou. Não se queixem, por favor, não façam comentários jocosos, o que é queriam? O disparate também é uma imagem de marca e o escritor precisa de dar uma reviravolta à situação, é verão (tanto ão, Nossa Senhora, a aliteração ficou pior por ter reparado na dita cuja, mais valia não ter dado por ela), as notícias são poucas e mais uma série de coisas que me escuso a escrever. O que importa mesmo é que o escritor tem razão e, do outro lado da porta, está o Paulo. O ficcional Paulo.

Entra o piano, esqueçam os violinos

Sim?

É o escritor?

Sim?

Eu sou o Paulo. Precisamos de conversar. Posso entrar?

Entre, por favor.

O escritor afastou-se elegantemente. Era um homem de bem, já o dissemos, e bem educado também. Paulo, a personagem sem espessura digna desse nome, entrou no apartamento do escritor e surgiu uma música, um piano, só porque fica bem.

O escritor manteve-se alerta, entre o perplexo e o contentamento, afinal era pai daquele homem, tinha-o criado, de certa forma cuidava do seu futuro. O Paulo. O escritor tinha orgulho naquela personagem, ele que é irmão de Jaime, a cobiçar a Carmen, a aturar as taras da mãe, a aplacar a vidinha de doentes com egos mexidos, a única razão para se fazer terapia, certo? Certo. Pois, o dito cujo, a personagem (adoro que seja no feminino!), lá está a ver se consegue articular qualquer coisa inteligente que agora mesmo me escapa.

Pedro Tamen


Patrícia Reis,

A minha morte, não ta dou.

A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
– a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?

Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?

Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.

 

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

O escritor não era incauto. Tinha mantido relações, quase que íntimas, com um advogado com bom nome na praça e – talvez – fosse verdadeiramente inteligente fazer o gesto de lhe ligar. Podia resolver o problema das cartas, as ditas cartas que escrevera a Jaime e que ele ameaçava publicar. Não utilizara esta história, nem transfigurada, no novo romance, tinha-se mantido numa tónica emocional, forte, achava ele, bom, podia não ser tão forte, mas intencional, e remetia-se à vida de sete criaturas. Tudo começara com o Jaime de olhos cor de caramelo e depois a história tinha-lhe dito: agora vais para ali.

 

Ele foi. Primeiro para dentro da cabeça de uma mulher, a detestável Carmen, histérica e porventura frígida Carmen que foi abandonada pelo Jaime ficcional e depois catrapiscada (será?) pelo irmão, o tal Paulo que, basicamente, era a única personagem que lhe agradava sobremaneira. Lá está, era um homem de bem, o tal Paulo. Era uma maldade colocá-lo na mira de Carmen, mas fazer o quê? Quando o livro for adaptado para o cinema ou para uma mini série, logo será vendida para a América Latina, onde faz tanto sucesso, pois o plot funciona e isso é que importa.

 

O escritor sente-se a perder o pé, o que se calha a ser sincero, acontece-lhe mais vezes do que aquelas que admite. Obriga-se a uma pausa para recuperar prioridades, tem de se organizar. É crucial perceber as coisas que precisa de fazer. Tem de acabar ao livro, é um facto, não vai devolver o adiantamento chorudo que a editora lhe pré-pagou, terá de entregar o romance para a feira do livro, e terá de fazer o esforço sobre humano de se deslocar à dita feira. O escritor levanta-se e anda pelo escritório, as mãos atrás das costas, pondera: ligo ao advogado por causa das cartas? Trato do livro ou simplesmente atendo o idiota do Jaime, histérico qual Carmen? O melhor será beber um copo de qualquer coisa e, a caminho desse desejo alcoólico, viu-se em pequeno numa fotografia. Ele, a mãe e as tias. Naquela época estava convencido de que tinha sido adoptado. Ele, de cabelos loiros e olhos claros, ao lado da mãe mais morena do mundo. Tinha sido enganado e isso dera azo à construção da personagem aparvalhada de Martim. Não era um bom personagem.

 

O escritor tinha a sua certidão de nascimento, aliás já fora publicado na fotobiografia feita há dez anos, ou coisa que o valha. Ali está o nome do pai e da mãe e não há a menor dúvida que não veio da Casa Pia, veio de uma clínica privada que já não existe. Talvez o pai fosse loiro. Talvez. Não podia assegurar-se de tal facto já que só possuía duas fotografias do pai, ambas a preto e branco, num dia em Coimbra, com os amigos, um dia de caçada. O que podia assegurar é que o homem tinha pinta. Traidor e imbecil, mas com estilo.

 

Cristo, que disparate pegado, tenho lá a vidinha toda metida?, vai resmungando consigo enquanto bebe um whisky e revê mentalmente a história. Claro que o melhor será matar alguém. O seu pai está metaforicamente morto, resolvido. Ou talvez já esteja mesmo debaixo do chão na cidade maravilhosa. Como saber? Não quer saber, o escritor só se interessa por ele, pela história e, claro, pela recuperação das cartas.

….

algumas proposições com pássaros e árvores


Patrícia Reis,

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

 

Ruy Belo  

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Portanto, a coisa do Jaime, a sua sobranceria, a ideia de que era capaz de ser superior e viver longe de Carmen, isto dentro do seu putativo manuscrito (que chatice, não pode dizer manuscrito se escreve num computador, ou pode? decide que pode) era apenas uma alteração mínima da realidade. Ele, o escritor, fora o Jaime na vida real, ou seja, não sairá de casa, mas dissera aquelas coisas

Nem na cama és bom.

 

A ficção tem esse grande poder salvador. Tudo se transfigura, mas se há falta de assunto, ou não existe a mínima paciência para a pesquisa e para o romance histórico, pois escreve-se sobre aquilo que se vive. É preciso ter uma vida interessante. Convém. Nem todos os escritores têm. Por exemplo, ele, o escritor, sabia que a conversa sobre os filhos servia apenas para albardar o burro à vontade do dono. Ou seja, se Carmen tem a idade que tem (que idade tem?), pois terá aquela coisa do relógio biológico e tal. O escritor é ajuizado, sabe que quem compra livros são as mulheres, por isso os filhos e as dores.

 

O telemóvel tocou de novo. Jaime. Tão chato e comprido, o Jaime que fora fascinante durante dois anos – como se ele não soubesse de antemão que nada dura mais de vinte quatro mesinhos, sendo os últimos uma boa chatice – queria coisas. Achava que tinha direitos. Fazia ameaças. Claro que existia a questão das cartas, mas o escritor convencia-se de que ele nunca se atreveria a tanto. Não iria, decerto, publicar as cartas num livro com uma capa horrenda e com um prefácio de um pensador actual. O escritor despreza livros com prefácios, se o livro precisa de explicação, então é mau, nem tem discussão.

 

Escrevera cartas a Jaime quando aceitou o convite de uma figura da realeza europeia que o convidara para passar o princípio do Inverno na Suíça. Não é possível satisfazer a sua curiosidade, lamentamos, caro leitor, estamos obrigados a algum recato e até assinámos um contrato de confidencialidade, logo não nos é possível dizer onde e com quem, podemos adiantar apenas que estava lá todo o mundo. Todo o mundo. Menos o Jaime. Por mais incrível que fosse, o convite era pessoal e intransmissível e para uma pessoa apenas: o escritor que iria “prestigiar” a grupeta afectada junto à neve.

Pois. Jaime amuara.

Queria tanto ir, mas porque não posso eu ir? Tu já não me amas, que mau que és. Vai lá estar o E.J.? Não me digas que sim que eu morro, morro. Se tu vais sem mim, morro.

O escritor, feito estúpido, em vez de ter uma ideia brilhante para uma trilogia que fosse passível de ser traduzida, pelo menos, para trezentos países, decidira passar uma hora por dia, à lareira, a escrever a Jaime. As tais cartas.

feira do livro: menina não entra (pelo menos nos jornais)


Patrícia Reis,

Escreve a revista sábado sobre a Feira do Livro deste ano:

 

Aqui, destaque para os clássicos e/ou bestsellers portugueses que vão estar a autografar:
– António Lobo Antunes
– Gonçalo M. Tavares
– José Rodrigues dos Santos
– Miguel Sousa Tavares .
– José Rentes de Carvalho
– Mário de Carvalho
– Mário Cláudio
– Eduardo Lourenço

Referência ainda para a presença de alguns autores estrangeiros a dar autógrafos:
– Joel Dicke:
– José Eduardo Agualusa
– John Banville:
– Pepetela:
– Ondjaki:
– M. J. Arlidge:
– Ruy Castro:
– Luis Sepúlveda
– Jerónimo Pizarro

No parágrafo acima já falámos de alguns lançamentos, mas há outros a reter:
de Bernardo Pires de Lima.
de Richard Zimler e Júlio Pomar
de Rui Cardoso Martins
de António Marujo
de José Pacheco Pereira

 

Portanto a feira faz-se sem Alice Vieira, Lidia Jorge, Inês Pedrosa,  Luisa Costa Gomes, Teolinda Gersão, Hélia Correia, Ana Margarida de Carvalho, Gabriela Ruivo Trindade, Tânia Ganho, Cristina Carvalho, Filipa Leal, Ana Cristina Silva, Maria Manuel Viana, Maria João Lopo de Carvalho, Helena Sacadura Cabral, Alexandra Lucas Coelho, Leonor Seixas, Maria Manuel Viana, Rita Ferro, Isabel Alçada, Ana Magalhães, Cláudia Clemente, Marta Vaz, Carla Maia de Almeida, Rute Coelho, Dulce Maria Cardoso, Inês Almeida, Fausta Cardozo, Irene Pimentel, Ana Luísa Amaral, Helena Marques entre outras. Estou esclarecida.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Nessa noite carioca bebeu caipirinhas a mais e acabou numa festa de alguém que conhecia outro alguém. Conheceu pessoas, mantendo a sua pose de Estado, a sua figura meio desfeita, porque a sua imagem de marca era ser um homem triste. Era sempre assim que se referiam a ele, triste, tristonho, capaz de toda a tristeza do mundo. E ele acatava, mais uma vez cumpria. Nunca se imaginou obediente, no entanto a importância do público – quer dizer, da comunicação social – levava-o a ser assim. E a comunicação social, como é bom de ver, está em todo o lado, é uma espécie de Nosso Senhor.

 

Tinha tiques que importava manter, porque estavam à espera que fizessem parte dele, assim como um casaco velho que se mantém no armário por estar feito ao corpo. Então, o escritor era triste. E não ia a festivais literários, porque haveria de ir?, era crucial não ir a festivais literários, só de pensar que tinha de aturar a mesma corja … Suspirou e voltou a olhar para o telemóvel mudo e quieto na secretaria de mogno, coisa de excelência, comprada num antiquário em Sintra quando ainda mantinha relações com um casal de editores que se gaba de ter um palacete para aqueles lados. Eram outros tempos. Ainda conseguia conversar com o casal extraordinário, ele alto e barbudo; ela magra e esguia, com umas mãos gigantes. Volta a olhar para o telemóvel que mostra 17 chamadas não atendidas, isso sim, um luxo. O ex namorado era persistente.

 

Chamava-se, et pour cause?, Jaime e tinha uns olhos verdes infinitos. Foi isso que lhe disse quando foram apresentados na editora, o escritor pronto a assinar em série, qual máquina, livros atrás de livros com dedicatórias idiotas tipo

Um abraço

Com amizade

Era sempre isso. O assistente editorial a querer saber se ele não se importava, se fazia o jeitinho, de assinar para a mãe. Ou era para a mulher? Não sabia dizer. O certo é que Jaime, o Jaime real, estava a fumar à janela, num gabinete cuja vista dava para o local onde o escritor assinava livros para jornalistas que nunca falariam da sua narrativa, do trabalho de linguagem, da espessura (talvez profundidade seja melhor) da história que publicava então.

 

Era uma história de amor, portanto era sobre a condição humana. Riu-se, para si, por saber que quem tinha dito esta verdade absoluta sobre a forma como a literatura é vista amiúde, neste e em outros países, era apenas uma mulherzinha que, de facto, privilegiava os sentimentos e as pessoas. Agora tinha deixado de escrever, ele tinha sido informado online, horas mortas pela noite na versão solteiro de novo; a escritora que bradava aos céus sobre a condição humana anunciou ao mundo que deixou de escrever. Por não aguentar o silêncio sobre a sua obra. A sua obra.

 

O escritor voltou a rir e pensou que a designação “obra” era risível. Quantos anos tinha a moça? Pouco importava, o olhar fixou-se no fumo que saía da boca de Jaime e foi o início que depois deixou de ser início e, claro, perdeu a graça. Pediu ao assistente editorial um copo de água e, mal a criatura diligente rumou em direcção à copa da editora, onde supostamente haveria água e outras coisas (podia até comentar como ele hoje, o grande escritor, estava bem disposto; podia dizer que já tinha o seu autógrafo para a mãe, ou seria para a mulher?), abriu a janela do pequeno espaço inócuo onde estava a assinar livros. Sorriu. Tristemente. E a coisa deu-se.

….

Fora de série (4)


Patrícia Reis,

«We’ll meet again, don’t know how, don’t know when…»

Assim reza a canção e faz parte das minhas memórias afectivas por causa de uma série fora de série. Eu teria onze ou doze anos e, todas as semanas, como ritual, ficava a ver mais um episódio de We’ll Meet Again, produção britânica, exibida em 1982. Mais importante do que o cenário – Inglaterra rural e base norte-americana pronta para combater Hitler e os seus terrores – o que me importava verdadeiramente eram as histórias de amor, em especial uma que me inquietava semana a semana: da médica Helen Dereham (Susannah York) e do major Jim Kiley (Michael J. Shannon). Como é que uma mulher respondia assim, com tanta rapidez? E como é que podia ser tão bonita? E como é que…

Eram as minhas perguntas. Logo no primeiro episódio, quando Helen e Jim se conhecem – na berma da estrada junto a um ferido – ela não demonstra qualquer constrangimento. Sabe o que se passa e exige que o ferido seja levado no seu carro. O major, americano, rola os olhos e diz I should take care of this myself. Mal sabia ele – ou eu – que estava ali a mulher da sua vida, por sinal casada com um senhor que fica numa cadeira de rodas, que serviu a causa dos Aliados e é gentil. Tão gentil que nunca percebi se intuiu o affair que a mulher manteve com o dito major durante episódios e episódios.

Como o próprio nome indica, o futuro talvez fosse mais feliz, mas estavam condenados a viver vidas separadas. Susannah York encheu-me as medidas, era a minha actriz preferida (na altura eu só conhecia duas actrizes pelo nome, esta e Julia Andrews – et pour cause?) É evidente que a série tinha mais sumo, muitas histórias paralelas, rapazes americanos apaixonados por meninas inglesas, encontros e desencontros, traições e o fantasma de Hitler, logo do perigo ou da morte. We’ll meet again marcou-me ao ponto de ter comprado a série em DVD há uns anos e, ao contrário do que aconteceu com outros produtos televisivos datados, ter ficado presa à história e à excelência dos actores. Uma boa história não perde qualidade. Se não tiveram oportunidade de ver, deixo-vos um conselho: vejam na net os primeiros episódios disponíveis. Basta ir ao doutor youtube.

 

A minha loucura


Patrícia Reis,

A mulher foi categórica: a tua vida é de loucos. E eu pensei que nem por isso, houve tempos, agora até consigo dormir oito horas. A mulher insistiu e pediu-me para relatar o meu dia e eu lá disse que tive reunião de planeamento na 004, a empresa que vou gerindo; a seguir ponto de situação relativo ao próximo número da revista Egoísta; verificar se estava tudo bem explicado no dossier de apresentação do conceito e logotipo que irá constar em todos os documentos da candidatura de Lisboa a Capital Europeia do Desporto 2021; reunião sobre estratégia de comunicação; pesquisa sobre um autor famoso para uma putativa exposição; treino da cadela; fazer lasanha de soja e ver uma série qualquer ou terminar o livro de Javier Marías “Assim começa o mal”. A mulher riu-se e perguntou se não estava cansada. Respondi que foi um dia calmo. Não me queixo. Ela, gentil, perguntou-me: sabes o que me disseste quando estoirei e tive um ataque cardíaco? Tu disseste que eu ia morrer e não sabia quando exactamente, o avc tinha sido um aviso, e era preciso fazer apenas o essencial.

A mulher afastou-se com uma calma olímpica, ela que se limitou a fazer consultas no Instituto de Oncologia todo o santo dia. O verbo limitar é dela. E eu pensei, ok, tens razão, mas eu prefiro a minha loucura. Depois senti-me cansada.

Tudo o que o Lev levou


Patrícia Reis,

Fui ontem, sábado, às dez da manhã, de comboio em direcção ao Porto. Ao meu lado, Rui Tavares lia jornais e depois Claudio Margis, em jeito de preparação para uma mesa com o escritor. Vi a paisagem, li o Expresso de fio a pavio, o Público, a Sábado. Estava frio quando chegámos e a Teolinda Gersão congratulou-se com o casaco quente, eu feita parva limitei-me a imaginar o meu sobretudo, lá longe, no armário de casa. Almoçámos salmão grelhado e conversámos sobre coisas díspares. O Ricardo Araújo Pereira na Flip – incompreensível para alguém como eu -, a capa da visão com a Fernanda Cância e, agora é quase obrigatório, esta coisa de sermos habituais nos festivais literários. Não sou uma festivaleira convicta e nesta última década não estive em muitos festivais, facto que pelos vistos passa despercebido a algumas mentes iluminadas. É-me indiferente o que se diz, o que se publica na imprensa à laia de reportagem entristece-me, porém não é por isto escrevo. Ao fim de dez edições, o Lev, em Matosinhos, dá gosto. Porquê? Casa cheia, homens, mulheres, crianças, de idades diversas, pessoas que tiram um dia para ouvir autores a falar e, para mais, ainda têm perguntas. Regressei no comboio das 18h47 e vi a paisagem, li o resto do novo livro de Pepetela – se o passado não tivesse asas – e cheguei a Lisboa às 21h22. Sozinha, sem filhos ou marido nas imediações, apeteceu-me comer pipocas e fiz algo que não fazia há muito: fui ao cinema. Deram-me um bilhete que dizia fila J, lugar 17. Concluí que tal não existe, mas tudo bem, fiquei numa coxia vazia a ver o Money Monster, a perceber como tudo na televisão pode ser corrompido, virado do avesso, como a banalidade é triste e pouco edificante (Julia Roberts começa logo por dizer que ali não se faz jornalismo, o que seria). Saí antes da meia noite e não tinha ninguém com quem falar. Caminhei até casa e afaguei os cães, tomei banho, meti-me na cama com o computador e eis o ponto alto do meu dia: recebo uma mensagem que reza assim:

Vou ao Lev há já uns anos. Gostei de a ouvir. Gostei de perceber que há escritores sem merdas.

Fiquei a pensar nisso, na parvoíce da pergunta sobre a escrita feminina, na forma repentista como respondo e, por fim, na falta que me faz a grande Agustina, ela que disse tantas vezes que nada disto é para levar a sério.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

 

E quando chegou aqui o escritor parou. Era uma dor de costas, um bloqueio. Podia – devia – matar uma das personagens? Martim fica com a herança de Carmen? Carlota torna-se banal? Tantas perguntas e poucas respostas. E, nisto, o telemóvel tocou. O escritor gemeu baixinho, o nome do ex namorado do outro lado. Iria dizer que precisavam de conversar. Iria dizer um chorrilho de disparates que ele, o escritor, dispensava. Até a voz, a hipótese teórica de o ouvir, afligia. Pensou que era um chuto na tola, como tinha ouvido no café a um gaiato com pouco mais de dez anos. Chuto na tola.

 

Até podia falar com o ex namorado, porque não?, mas um escritor é aquele que não pactua com a norma. Tinha lido aquilo algures e não percebia como ele, publicado dentro e fora de portas, a escrever todos os dias dez mil palavras, obediente, sem falhas (tinha-o dito numa entrevista e não podia deixar de cumprir, sentia que seria desonesto se não cumprisse o sacrifício das dez mil palavras. Caramba!, dez mil palavras é muito, há pareceres jurídicos mais pequenos), precisava de citar terceiros. O escritor ficou a olhar para o nome do ex namorado a piscar no telemóvel e, subitamente, sem demoras pegou na caneta e rabiscou o futuro de Carmen.

 

Embirrava com Carmen, não seria o único, estava certo disso, mas tinha esta tendência para escrever sempre sobre uma mulher depressiva. Lembrava-lhe a mãe, era o que era, e o escritor já tinha passado muito tempo a fazer psicanálise para entender que nunca se livraria da mãe, o fantasma dela, a voz dela, as suas manias, o pacote inteiro a persegui-lo até depois da senhora ser cremada. Morte. O escritor sorri. Coloca o telemóvel no silêncio, afinal para quê dar a satisfação de atender à primeira?

 

Diziam que ele era caprichoso e com mau feitio, portanto importava seguir a tendência. O escritor não tinha mau feitio, nem era caprichoso, pelo menos no seu entender. Não se sabe o que diria o psicanalista, mas isso não interessa nada para o caso. Se fizesse uma auto-análise, exercício matinal que lhe afagava o ego, o escritor diria que é uma pessoa atormentada, com uma infância difícil, sempre dentro dos livros. Não foi à guerra, como outros, não tem idade; nunca foi jornalista, também os há, é apenas um escritor pacato. Talvez não seja gentil ou um poço de delicadeza, é verdade, porém é um homem de bem. O que importa verdadeiramente é ser isso: do bem. Sorriu beatificado.

 

Imagina o seu pai. Esse alguém que o abandonou com dois anos de idade para desfrutar de outras manhas – umas manhas brasileiras, para cumprir o cliché já que a vida também isso, ou talvez seja só mesmo isso – do outro lado do Oceano Atlântico. Consta que teve mais dois filhos e o escritor, ferido e implacável, uma vez no Rio de Janeiro, a propósito da entrega de um prémio importante, escusou-se a falar desse pai. Alguém, um jornalista de um diário digital, agora é assim, o papel está caro, insistiu muito na ideia idílica de um encontro, ao fim de trinta e tal anos, com o pai, esse traidor, que agora queria, quem sabe?, ver-se numa selfie com o escritor.

Manoel de Barros


Patrícia Reis,

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Martim tinha um propósito, era um homem com um objectivo e não o diria com facilidade, estava satisfeito com a armadilha que montara e, por isso, podia-se dizer que imperava uma característica mais extrovertida. Ria alto, bebia, batia nas costas de Jaime, contava histórias cujo desenlace garantiam risos e gargalhadas. Gostava de ver a atenção pendente de Carlota e o olhar quase intoxicado de Jaime. Seria fácil estabelecer um laço e, depois, com tempo, meter-se na cabeça de Jaime, tirar-lhe com jeito, de forma quase milimétrica, não se importava com isso, toda a informação que Carmen lhe passara. Martim sabia que existiam duas fortunas e ele, apesar do pouco pedigree, de se saber o filho que não era realmente, teria acesso ao dinheiro antes da irmã. Era crucial que assim fosse. Para a sua carreira.

O problema é que Jaime era um tipo desligado dessas coisas e Carmen tudo fizera para garantir que as conversas eram sobre eles os dois, a relação, o casal. Era essa uma das razões para Jaime ter terminado tudo. Não aguentava o casulo onde Carmen o que queria ter mantido, só dela, ali confinado, sem vida digna desse nome. De repente viu-se casado e careca, com filhos e um problema de ossos, um cenário de meia idade precoce que o assustou e foi isto tudo que acabou por revelar a Martim e a Carlota, já sob o efeito de muito álcool. Carlota podia ter defendido a amiga, é verdade, mas isso daria imenso trabalho, portanto optou por afagar o braço ao Martim, na esperança de que a noite terminasse.

 

Paulo tentou convencer Carmen que voltar para Lisboa de noite era uma tolice. Foi isso que se ouviu dizer

 

É uma tolice.

Ela sorriu e explicou que preferia apanhar o comboio das sete e tal da tarde, mesmo que estivesse escuro, era possível dizer que era a tarde do dia e não ainda a noite. Ele entendia? Paulo fez que sim com a cabeça. Não sabia se lhe devia dar boleia e regressar a Lisboa também, se devia ir com a mãe ao médico – tinham posto essa hipótese – para entender o que se passava com ela, se existia a possibilidade de um diagnóstico. Sentia-se dividido e, apesar disso, teve a percepção exacta de que não podia deixar Carmen sozinha. Importava que falasse e começou a fazer perguntas.

 

Não, não, a minha avó foi quem me salvou. Estava a ouvir os meus pais ontem à noite e percebo agora que não os entendo e tão pouco os conheço. Não sei nada deles. O Martim pode ser estranho, estouvado, parvo, porém sempre o tive como um irmão e não entendo como é que o criaram e nunca lhe disseram que tem uma mãe e, já agora, também não entendo a tua mãe, como é que se dá um filho? Desculpa, não estou a criticar, ou melhor, estou, mas terás de me desculpar, não percebo algumas atitudes, eu nunca abandonaria um filho. Claro que a tua mãe era muito nova, muito mais nova do que eu sou agora, e teve o Martim e depois teve-te a ti e ao Jaime e fez a vida dela, mas mesmo assim, sabia que o seu primeiro filho estava aqui, em Coimbra. Não quero entender. Só quero voltar para Lisboa.

 

Paulo tentou reconforta-la, mas Carmen não estava convicta de que fosse possível aplacar qualquer sentimento. Tudo estava ao rubro, era uma guerra antiga e interior: Martim não pertencia, não encaixava e havia uma razão para isso. Quando conhecesse Laura, o irmão iria, por fim, encontrar um destino, porque – Carmen acreditava nessa ideia – mãe é sempre mãe. Paulo entendera que Carlos, Maria Luísa e Laura não tencionavam dizer nada a Martim. Tentou que Carmen fosse razoável. Ela disse

É o teu carro, mas se vais comigo, eu guio

 

Jaime teve pena de que a conversa tivesse sido tão curta. Gostaria que o irmão lhe explicasse mais coisas, coisas concretas, mas Paulo mantivera a ideia de que era melhor falarem olhos nos olhos. Fora essa a expressão – olhos nos olhos – e Jaime entendeu de imediato que tudo se prendia com a mãe, fosse o tudo o que fosse, Laura tinha este dom de lhes desarrumar a vida, porém desta feita Jaime estava convencido de que existia algo de grave. Paulo pareceu-lhe cansado ao telefone e, de repente, ouviu-o dizer

Vou para Lisboa agora. Levo a Carmen.

A Carmen está contigo?

Eu depois explico-te.

Pensei que tinhas desaparecido por causa da mãe, uma bodega qualquer que tivesse feito, para variar, mas estás-me a dizer que estiveste fora com a Carmen? Incrível. E tu nunca gostaste dela, Paulo.

Agora gosto.

Desde quando?

Desde a festa da tua empresa.

Mas… Olha, eu nem sei o que te diga.

Falamos quando eu chegar.

Talvez não seja preciso, não tenho nada a ver com a tua vida privada.

Não sejas parvo, Jaime.

Parvo…

Não aconteceu nada entre mim e a Carmen.

Aposto que não.

 

Paulo deixara Carmen conduzir não por opção, mas por não querer discutir. Percebia agora que o espaço de conflito na sua vida – além da mãe – estava reduzido ao consultório, no consultório os doentes podiam chorar, gritar, alguns até se aborreciam com ele e Paulo mantinha a pose. Há uns meses que tratava uma mulher que, recentemente, lhe dissera em consulta

Não tem outra cara? Só essa cara de parvo? Eu estou aqui neste disparate e não se chateia comigo? Você não é humano.

Paulo sentia-se humano. Sabia que tinha de controlar as emoções com os doentes, estava treinado para tanto. E existiam doentes de quem não gostava, a quem talvez desse dois berros mentais, porém nada transparecia. Era um bom actor. Jaime achava-o um bom actor, sobretudo agora, com a proximidade de Carmen. Não podia dizer que não gostava da ex namorada do irmão, não podia dizer que a sua intensidade o esmagava, que era um possessiva e controladora. Agora entendia-a melhor.