A mulher foi categórica: a tua vida é de loucos. E eu pensei que nem por isso, houve tempos, agora até consigo dormir oito horas. A mulher insistiu e pediu-me para relatar o meu dia e eu lá disse que tive reunião de planeamento na 004, a empresa que vou gerindo; a seguir ponto de situação relativo ao próximo número da revista Egoísta; verificar se estava tudo bem explicado no dossier de apresentação do conceito e logotipo que irá constar em todos os documentos da candidatura de Lisboa a Capital Europeia do Desporto 2021; reunião sobre estratégia de comunicação; pesquisa sobre um autor famoso para uma putativa exposição; treino da cadela; fazer lasanha de soja e ver uma série qualquer ou terminar o livro de Javier Marías “Assim começa o mal”. A mulher riu-se e perguntou se não estava cansada. Respondi que foi um dia calmo. Não me queixo. Ela, gentil, perguntou-me: sabes o que me disseste quando estoirei e tive um ataque cardíaco? Tu disseste que eu ia morrer e não sabia quando exactamente, o avc tinha sido um aviso, e era preciso fazer apenas o essencial.
A mulher afastou-se com uma calma olímpica, ela que se limitou a fazer consultas no Instituto de Oncologia todo o santo dia. O verbo limitar é dela. E eu pensei, ok, tens razão, mas eu prefiro a minha loucura. Depois senti-me cansada.
